07 novembro, 2007

O ano em que meus pais saíram de férias


Alvíssaras! Um filme nacional conseguiu o feito de ser exceção no reino dos filmes dominados por criancinhas com uma frase sempre pronta e genial na língua, com adultos sempre como vilões e castradores, com vovôs sempre doces e gentis, com engodos históricos. O filme O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, reúne o habitual temático do gênero (criança forçada a amadurecer em meio a um evento da história, no caso, a ditadura militar), mas trata os temas com rara delicadeza.

No filme, um menino é deixado pelos pais na casa do avô dizendo que vão sair de férias e não podem levá-lo. Na verdade, os pais são alvos da perseguição política promovida pelo governo militar e precisam se esconder. A história se passa durante a Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil de Pelé, Tostão, Gérson e Rivelino (este, sim, um quadrado mágico) sagrou-se o primeiro tricampeão de futebol.

Não preciso contar a história do filme. Basta dizer que a paixão do garoto por futebol, a sua convivência forçada numa comunidade judaica e a caça política oficial que sumiu com opositores do regime enquanto o país festejava a Copa, podem render lágrimas, é verdade. Mas o tratamento dado aos personagens, ao enredo e aos detalhes técnicos, revela um diretor dono de uma fina carpintaria cinematográfica, que não submete os personagens aos caprichos e projeções psicológicas do espectador, sabe pontuar a narrativa com doses equilibradas de tensão e humor, e entende a função da música dentro do filme (a trilha sonora chega ao requinte de contrapor-se dramaticamente à alegria de algumas cenas produzindo, assim, outro significado).

Esse filme é o oposto de Olga, cujo diretor, Jayme Monjardim, mais afeito às dramalhices de telenovela, submete os personagens (nesse caso, adultos) e seus calvários pessoais a um irrefreável desejo de comover o espectador a qualquer custo, o que inclui trair os acontecimentos históricos gratuitamente e usar a música de maneira intrusiva e redundante, como se gritasse através das notas, “chore agora”.

O ano em que meus pais... também é o oposto do filme A vida é bela, cujo diretor e ator principal, Roberto Begnini, mais afeito às parvalhices da comédia-pastelão, comete obviedades e leviandades. Obviedades na primeira parte, toda de uma comédia mais para um sub-Didi Mocó do que para Chaplin, e leviandades na segunda parte, de um melodrama falso e matreiro.

Falso, porque nos quer fazer acreditar que as brincadeiras que o pai faz para que o filho não perceba que está passando privações num campo de concentração nazista, são motivadas por amor paterno, quando, na verdade, são apenas um recibo para omitir informações da realidade. Leviano, porque na única cena em que o menino tem que enfrentar a vida real e nada bela, o diretor Roberto Begnini distorce a história e coloca em cena os americanos como libertadores daquele campo de concentração, e não os soviéticos. Isso foi um claro aceno à possibilidade de ganhar um Oscar, o que de fato aconteceu (e isso não é inveja tardia pelo fato desse filme ter ganhado a disputa com Central do Brasil. O Oscar e outros congêneres nunca foram medidas de qualidade de um filme).

Em O ano em que meus pais..., há um delicado equilíbrio entre o pano de fundo histórico e o registro da vivência particular de um menino e sua percepção sensível da realidade. O menino-protagonista tem fatos reais ocultados de si pelos mais velhos, mas pouco a pouco, as coisas vão se revelando tais como são (a moradia com um estranho, a tentativa de fazer amigos, a espera por uma ligação dos pais, o conflito entre estudantes e policiais) até que ele descubra que a vida não é bela quando os pais saem de férias e se atrasam demais para voltar.

Um comentário:

taina disse...
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