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O consumo nosso de cada dia


Vivemos na sociedade do excesso, na sociedade da abundância. Nem que seja excesso de riqueza pra uns e abundância de pobreza pra outros. No meio, uma classe média que tem excesso de desejo e abundância de débito no cartão.

Mas o que define um rico? Eu falo de rico, miliardários. Alguém disse que rico mesmo é aquele que compra uma coisa sem perguntar o preço. Por isso, deve ter muita gente que adentra embevecida os portais da Daslu e leva um vestido sem perguntar quanto é. Para impressionar a amiga, claro (veja aqui esse estilo).

Em recente entrevista, o filósofo Gilles Lipovetsky comentou que a Daslu, onde se pode chegar de helicóptero, por ser uma ilha de prosperidade e exuberância cercada de favelas, é quase uma provocação. Mas este é um luxo voltado exclusivamente para os milionários, que não permite o fácil acesso a quem não tem caráter pecuniário nem moral financeira. Eu (e você?), por exemplo.

Lipovetsky segue dizendo que vivemos na Hipermodernidade, que seria uma modernidade do excesso e caracterizada pelo hiperconsumo. Mas a Hipermodernidade é boa. Boa porque permite que bastante gente tenha acesso não apenas a consumo de comida, roupas e entretenimento, mas também a consumo de tecnologia médica e de comunicação. Há mais espaço para liberdade pessoal.

A parte ruim é que essa mesma sociedade que prega o bem-estar, o lazer, o prazer, também experimenta uma grave incidência de perturbações, ansiedades, o que, no fundo, segundo o filósofo, parece nos dizer que “o poder de consumo cresce cada vez mais, mas a felicidade não”.

Nelson Rodrigues dizia que o dinheiro compra tudo, meu filho, até o amor verdadeiro. Para além da galhofa, o que podemos comprar são satisfações, pequenos prazeres, no que não há mal algum. Aliás, o problema estaria em querer comprar a felicidade. Lipovetsky então concorda com Rousseau, pois para ambos a felicidade está na relação da pessoa com ela mesma e com os outros. Uma pessoa em conflito consigo mesma não consegue ser feliz, compre o que comprar – ou por isso mesmo ela compra o que consegue comprar. E a coisa piora quando não consegue pagar.

A questão é que se os outros podem nos dar grande felicidade, principalmente (ou somente?) quando o amor é recíproco, os outros também nos causam os maiores sofrimentos (não custa lembrar que você é o “outro” para alguém). Daí Sartre nem pestanejar em dizer que “o inferno são os outros”.

Voltando ao vil metal, é fácil dizer que há um acesso muito grande ao sonho de consumo. Mas também ainda há muita desigualdade de oportunidade para se realizar esses sonhos. Pode-se culpar a publicidade e o dinamismo do consumo que estariam atiçando o consumo e corrompendo os costumes. Mas o pior mesmo é ver como as marcas se tornaram o sentido da vida para muita gente.

Mas não é demonizando o luxo ou condenando moralmente a publicidade e as marcas que o problema se resolve. É preciso preencher a vida com objetivos (espirituais, profissionais, sociais) que relativizem o consumo. Como diz Lipovetsky, “não há drama no fato de alguém não poder comprar marcas e luxo; o drama é a vida não ter outro ideal senão o consumo”.

É óbvio que tem aquele assalariado cheio de graça que vem e que passa na loja mais chique, mas seu comportamento "consciencioso" (um mão-de-vaca mesmo) o leva qual um zumbi direto à promoção da Renner. Para equilibrar o orçamento, temos do outro lado as assalariadas do tipo consumidoras compulsivas, também conhecidas como clientes que sempre dizem sim. Sim, eu vou levar esse sapato (e a bolsa) mesmo. Sim, meu marido vai acabar pagando mesmo (calma, isto é válido apenas para esse tipo de consumidoras, como me alertam os comentários).

Sabe-se que para cada ação humana tem sempre um árabe que criou um provérbio. Embora a TV não se canse de mostrar que os judeus são engraçados e os árabes mal-humorados, convenhamos que há mais piadas entre a Galiléia e o Golfo Pérsico do que imagina nosso vão preconceito.

Pois um desses provérbios diz assim: “Bem-aventurado o homem que consegue ganhar mais do que sua mulher é capaz de gastar. Mais bem-aventurada é a mulher que encontra tal homem”.

Me diga que civilização machista pode ser feliz desse jeito? Nem a judaico-cristã-ocidental, nem a muçulmano-hindu-oriental.

Comentários

Michelle disse…
por aqui... sua orientadora irá à Venezuela... poderá informar-lhe melhor sobre o que me perguntastes!
Daniela disse…
nitido vies sexista o seu texto. "impressionar a amiga", "meu marido vai pagar", e esse tal provérbio no fim. Talvez seja uma surpresa pra vc, mas hoje em dia já existem mulheres que pagam seu próprio cartao de crédito. Mesmo dentro dos muros da IASD.

E consumismo nao é exclusivo das mulheres. É mal da sociedade (homens e mulheres, you know?). A diferença é que se mulheres compram bolsas homens compram celulares, tvs de plasma e trocam de carro todo ano (carro é um bem DURÁVEL, veja você).

Típico dos adventistas do sétimo dia serem sexistias embora posem de progressistas.

Tsc!
joêzer disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
JSM disse…
olá, daniela. leitores atentos como você nos fazem reler o texto para ver onde está o erro. POde parecer machista, mas de fato não é, não combina comigo - e você pode apostar: não sou um adventista típico (coisa que não sei se existe).
O "impressionar a amiga" é o caso do post sublinhado ao lado sobre a entrevista de uma socialite, não o de todas as mulheres (e homens).
O "meu marido vai pagar" se referia a um tipo de consumidora compulsiva (aproveitei e refiz esse trecho para não deixar mais dúvidas, espero).
Quanto aos adventistas (ou batistas, pentecostais, espíritas ou ateus) não sei se é uma característica deles ocultar o sexismo por meio de um progressismo de fachada. Mas é uma situação possível e muto provável que você deve ter identificado em algum grupo (ou grupos).
Mas são comentários assim que fazem valer a pena ter um blog.

um abraço,
Joêzer.

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