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O gênero musical do novo século


Ouvindo o tributo de Herbie Hancock em cd dedicado à obra de Joni Mitchell (River), a criatividade de Caetano Veloso e Jacques Morelembaum na recriação de standards americanos no cd A foreign sound, a dissolução da fronteira entre popular e clássico nos cds de Yamandú Costa com Paulo Moura (El negro del blanco) e com Dominguinhos, o encontro delicado e virtuoso de André Mehmari e Ná Ozzetti (Piano e Voz), e ainda a sofisticada elaboração do jazzista Brad Mehldau compondo para a diva da ópera Renée Fleming (Love sublime - com algumas músicas a partir de textos de Rainer Maria Rilke), é de se perguntar que gênero musical parece estar surgindo nos albores do terceiro milênio.

Falando de sua audição dos cds de Herbie Hancock e de Charlie Haden & Pat Metheny (Beyond the Missouri Sky), o musicólogo Gabriel Solis escreve:

“O que são esses trabalhos? Jazz? Ambos envolvem muita improvisação, instrumentação jazzística (i.e., saxofones, violão, baixo, bateria, piano em diversas combinações) interpretação de canções por músicos criativos, com ou sem vocais, harmonia tonal expandida, preponderância rítmica baseada no ‘groove’, sensibilidade métrica, um aparente desejo de se comunicar com o público, e o senso de que estamos ouvindo uma comunicação entre os músicos. Mas cada um a seu modo se parece com música pop, e cada um talvez se pareça ainda com música clássica contemporânea” (o autor ainda cita Ornette Coleman e Elvis Costello como músicos que apresentam gravações com tais qualidades). Aqui no Brasil, procure ouvir o belo trabalho da Orquestra Popular de Câmara, que inclui ainda acordeom, cello e percussão.

Solis está convencido de que essa música pode ser “bom jazz, bom pop e boa música clássica ao mesmo tempo”. Poderíamos falar aqui de uma fusão de gêneros e estilos musicais, mas o musicólogo prefere o termo “síntese”, porque isso representaria uma gama de “músicos encontrando coisas em comum entre múltiplas tradições, ou talvez quebrando as barreiras entre elas”.

Como a criação de subgêneros parece estar supostamente se exaurindo, isto é, com um esgotamento de estilos advindos de fusões, justaposições ou aglutinações (samba-rock, samba-reggae, todos os gêneros de metal rock, latin jazz, bossa’n jazz, mangue beat), alguns músicos parecem dirigir-se a uma mistura de supergêneros. Isto é, a aproximação da cultura pop com a cultura erudita, e estes integrados numa perspectiva jazzística – alguns denominariam “crossover”.

Há alguns anos se falaria do encontro entre alta e baixa cultura, mas esses termos soam hoje como palavrões politicamente incorretos. Além do que, basta aparecer um Roy Lichtenstein, um Arrigo Barnabé, um Frank Zappa, livros como O Nome da Rosa ou Os Jardins de Kensington, para fundir a cuca dos críticos que vivem em busca do rótulo perdido. Esses autores e obras que citei são apenas alguns dos que transcendem o pop e a cultura erudita para entregar um terceiro produto que surge dessa síntese cultural.

Este fenômeno pode ser mais bem visualizado atualmente. Porém, tanto Duke Ellington quanto Pixinguinha (ouça o cd Bach e Pixinguinha, de Mario Sève – flauta e sax - e Marcelo Fagerlande - cravo) também souberam retrabalhar a infinitude de sons que vinha das ruas por meio de uma técnica de arranjo e composição fixada em livros. Ou seria o contrário? A técnica erudita do contraponto é que teria passado por modificações por causa da singularidade dos ritmos populares?

De certa forma, George Gershwin e Cláudio Santoro também partilharam dessa integração de supergêneros ou culturas musicais distintas, mas não opostas – o primeiro, com ápice na ópera Porgy e Bess, e o segundo com as canções pré-bossa feitas sobre versos de Vinicius de Moraes (ouça essas músicas no cd Canções de amor, interpretadas pela soprano lírica Rosana Lamosa e pelo pianista Marcelo Brattke. Este, inclusive, com trabalhos que têm superado as fronteiras musicais).

Sobre a incidência no século XXI de trabalhos nessa linha, Gabriel Solis diz que esses músicos seriam como “anfitriões de tradições mortas”. Ele explica que o jazz como um aparato de marcadores sonoros (progressões de II-V, linhas melódicas de bop), tal como ensinado nas escolas, está acabado; a música erudita/de concerto contemporânea é um gênero para quase ninguém; e o canto pop tem muito mais possibilidades do que o pessoal da indústria frequentemente permite que apareça.

Para Solis, o melhor desses novos trabalhos (entre os quais eu acrescentaria aqueles que citei na cumeeira dessas mal-traçadas) parece estar libertando a música da “tirania do gênero” do século XX. Hancock disse em entrevista sobre o seu álbum River: the Joni Mitchell letters que ele estava apenas tentando fazer música – um pouco de jazz, um pouco de música clássica, um pouco de pop, um pouco disso e daquilo.

O gênero é um atalho de vendas para a indústria fonográfica. Porém, como até o papel das gravadoras e distribuidoras está em cheque – num dia o Arctic Monkeys vira febre pela internet, em outro o Radiohead vende as próprias canções na web -, será que o rótulo fácil pode estar também com os dias contados? Talvez não. Comentando a tática do Radiohead de deixar que o cliente diga quanto vale o produto, acho que foi Lily Allen que disse que se no armazém ninguém diz quanto quer pagar por ovos, então porque o cliente deve dizer quanto quer pagar por música?

Vamos esperar um pouco mais e ver se mais artistas vão dar um passo de independência em relação à indústria de estratégia mercadológica engessada e também desligar-se da filiação a gêneros de imediata identificação nas estantes das lojas.

Confira aqui o texto no original em inglês de Gabriel Solis.

Acima, obras da artista Maj Menezes, que usa o disco de vinil como suporte para sua arte chamada de Divercity, em exposição em Curitiba até 25 de janeiro.

Comentários

Michelle disse…
Muito bom o texto! Ando ouvindo algumas coisas citadas aqui.
Valeu Joezer!
laíse disse…
Joezer, ano passado assisti o show do Marcelo Bratke com a Sandy no Ibirapuera. Não posso dizer que sua voz caiu bem em todas as músicas - acho que faltou firmeza em certas canções, principalmente as de jazz.

será que até a irmã do Junior vai pra esse novo gênero misto que vc descreveu?
sergio maia disse…
cara, vc encontrou as palavras que eu tava procurando. outro dia conversando com amigos a gente tava falando do trabalho do andré mehmari e do brad mehldau com a renée fleming. E a gente falou do que parecia ser uma tendência ocidental.

agora o sakamoto não vinha fazendo algo assim com a música japonesa?
reverendo disse…
fala, hombre
dei uma olhada no texto e o achei bastante interessante...
tenho escutado vários coisas nessa linha e acredito que há uma tendência maior nessa direção, mesmo que isso não seja novidade...
acho que o Quincy já estava nessa há um bom tempo e que outros, conscientemente ou não estão entendendo que tudo é música...
já ouvi todo o álbum do Herbie (Possibilities) e o achei bacana, apesar de ser um pouco decepcionante. Não imaginava nada necessariaente Jazz, mas de fato ele ficou tão de lado que poderia ser outro bom pianista tocando... algumas faixas chegaram a me irritar, como a do Santana.
Valeu, no entanto, em função da colaboração com a Christina Aguilera que não me surpreendeu por completo, pois sempre achei a sua voz a melhor dessas slut-girls, mas que me mostrou que ela tem potencial para algo realmente importante...
Pat e Charlie... que álbum, não é? coisa fina mesmo...
parabéns pelas colocações
keep up the good work
shalom

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