
Encerramento da oficina de música de Curitiba. Guaíra lotado para ver música instrumental brasileira. No bandolim, Hamilton de Holanda. E o mundo não acabou. Já explico.
Quantas expressões artísticas podem oferecer tamanha fonte de satisfação como oferece um grupo de bons músicos dispostos a reencantar o mundo? Quantos músicos são capazes de, sem dizer uma palavra, fazer a gente assistir um espetáculo com um sorriso no rosto?
Hamilton de Holanda e seu bandolim carregam a saudade e a tristeza pra lá, dedilhando, girando, tocando. Tanta técnica, mas tanta ternura. Tanto virtuosismo, mas tanta singeleza. A certa altura de uma música, o incrível batera Marcio Bahia entorna o caldo do samba sestroso e, aliados ao baixista André Vasconcelos, todos espancam seus instrumentos como num metal rock estremecedor. Parafraseando Luis Fernando Veríssimo, o músico às vezes precisar fazer isso com seu instrumento que é pra mostrar quem é que manda.
Hamilton conta que essa música nasceu numa noite de domingo de chuva torrencial quando também recebeu um e-mail com fotomontagens de tsunamis sobre as praias do Rio. Passada a chuva e o susto, como se fosse um Noé que sabe que o mundo não iria mais acabar à base de dilúvio, compôs "O mundo não acabou".
O espaço para o improviso, para a brincadeira, para a fraternidade entre os músicos. Vi e ouvi excelentes músicos se comunicando, trocando notas e afeto. Todo o afeto que se encerra num show de grande música. Num desses espaços, um músico cuja profissão e nome são uma aliteração: o gaitista Gabriel Grossi. A gaita, ou harmônica, geme, chora, grita, passeia por toda a tessitura impossível. Mas, como no show inteiro, o choro e o grito são de alegria. De solar alegria brasileira, e não de um anoitecido blues americano.
O que já está muito bom pode ficar melhor? É difícil. Mas não quando o convidado é simplesmente Jacques Morelembaum. Meus olhos caboclos não acreditavam no que viam. Aos primeiros toques de "Passarim", de Jobim, percebi que o negócio era de verdade. Tem coisas que ver não basta. Só ouvindo pra crer.
Se o show já estava num ápice supremo, com a entrada de Renato Borghetti a noite se completou. Sim, a noite é mesmo uma criança. Mas não uma criança que insiste em não dormir - porque raios os bebês tem que chorar quando querem dormir? Não era só fechar os olhos, criatura? Uma criança feliz é o que viramos quando a gaita, ou bandoneón para outros, de Borghetti começou o fole da felicidade geral da platéia. Agora entendi: se não nos tornarmos como crianças, ninguém é capaz de entrar na terra da música bem-aventurada.
Os violonistas Daniel Santiago e Artur Bonilha (não sei se é assim que se escreve o nome dele; também não sei se ele é gaúcho. Mas os gordinhos gaúchos de mão redonda parecem ser excepcionais, vide o gaúcho Yamandú) compartilharam com todos a irmandade festiva dos finais de espetáculo musical. A platéia se sente no palco. Os músicos do palco nos dão boa-noite e agradecem. Que é isso, senhores? Eu é que agradeço. Agradeço principalmente porque o mundo ainda não acabou.
Quantas expressões artísticas podem oferecer tamanha fonte de satisfação como oferece um grupo de bons músicos dispostos a reencantar o mundo? Quantos músicos são capazes de, sem dizer uma palavra, fazer a gente assistir um espetáculo com um sorriso no rosto?
Hamilton de Holanda e seu bandolim carregam a saudade e a tristeza pra lá, dedilhando, girando, tocando. Tanta técnica, mas tanta ternura. Tanto virtuosismo, mas tanta singeleza. A certa altura de uma música, o incrível batera Marcio Bahia entorna o caldo do samba sestroso e, aliados ao baixista André Vasconcelos, todos espancam seus instrumentos como num metal rock estremecedor. Parafraseando Luis Fernando Veríssimo, o músico às vezes precisar fazer isso com seu instrumento que é pra mostrar quem é que manda.
Hamilton conta que essa música nasceu numa noite de domingo de chuva torrencial quando também recebeu um e-mail com fotomontagens de tsunamis sobre as praias do Rio. Passada a chuva e o susto, como se fosse um Noé que sabe que o mundo não iria mais acabar à base de dilúvio, compôs "O mundo não acabou".
O espaço para o improviso, para a brincadeira, para a fraternidade entre os músicos. Vi e ouvi excelentes músicos se comunicando, trocando notas e afeto. Todo o afeto que se encerra num show de grande música. Num desses espaços, um músico cuja profissão e nome são uma aliteração: o gaitista Gabriel Grossi. A gaita, ou harmônica, geme, chora, grita, passeia por toda a tessitura impossível. Mas, como no show inteiro, o choro e o grito são de alegria. De solar alegria brasileira, e não de um anoitecido blues americano.
O que já está muito bom pode ficar melhor? É difícil. Mas não quando o convidado é simplesmente Jacques Morelembaum. Meus olhos caboclos não acreditavam no que viam. Aos primeiros toques de "Passarim", de Jobim, percebi que o negócio era de verdade. Tem coisas que ver não basta. Só ouvindo pra crer.
Se o show já estava num ápice supremo, com a entrada de Renato Borghetti a noite se completou. Sim, a noite é mesmo uma criança. Mas não uma criança que insiste em não dormir - porque raios os bebês tem que chorar quando querem dormir? Não era só fechar os olhos, criatura? Uma criança feliz é o que viramos quando a gaita, ou bandoneón para outros, de Borghetti começou o fole da felicidade geral da platéia. Agora entendi: se não nos tornarmos como crianças, ninguém é capaz de entrar na terra da música bem-aventurada.
Os violonistas Daniel Santiago e Artur Bonilha (não sei se é assim que se escreve o nome dele; também não sei se ele é gaúcho. Mas os gordinhos gaúchos de mão redonda parecem ser excepcionais, vide o gaúcho Yamandú) compartilharam com todos a irmandade festiva dos finais de espetáculo musical. A platéia se sente no palco. Os músicos do palco nos dão boa-noite e agradecem. Que é isso, senhores? Eu é que agradeço. Agradeço principalmente porque o mundo ainda não acabou.
Comentários
tive a alegria de conhecer o Hamilton desde a época de faculdade, qdo ele estava no último ano de composição e eu no segundo na UnB. Assisti tbém o concerto de formatura dele (bandolim & orquestra de câmara).
É lindo vê-lo tocar, com essa simpatia toda e um eterno sorriso no rosto. Fora que toca horrores! EStou com um album dele agora na minha frente (Brasilianos).
Conheço tbém o André (tocou com o Djavan por um tempo) e o Márcio de shows e cursos de música.
Tenho tbém o album do Grossi com o Marco Pereira, que tbém é parceiro do Hamilton há muito tempo e, a meu ver, um dos melhores violões do Brasil.
O Daniel prestou vestibular comigo na UnB para composição (ele acabou não passando por provavelmente ser visto como popular demais, mas é excepcional).
O Jaques, aaaaaaaaah, o Jaques! Meu herói como arranjador no Brasil e perde basicamente somente para o Legrand aos meus olhos. Prova da capacidade (por sinal foi aluno de Widmer) são os álbuns "Mina D'Água do Meu Canto..." da Gal e "Fina Estampa" do Caetano. Isso só para mencionar dois entre muitos...
Vejo que vc teve o privilégio de um show completo, alegre, cheio de música e de músicos que são amigos... um prato cheio para qualquer ouvido.
valeu pelo comentário. quase único por essas bandas.
o legrand de fato é fera. sua música pro filme "os guarda-chuvas do amor" é soberba.
lembro aqui dos arranjos do Ogerman pros discos do Jobim, especialmente a obra-prima "Urubu".
diegão, obrigado por descobrir o nota na pauta. eu não fiz a oficina de curitiba, só deu pra ir ao concerto do hamilton (fiz um curso com o Arrigo Barnabé na oficina de 2006).
abraços,
Joêzer