Pular para o conteúdo principal

'Mídia' quem pode, obedece quem não tem 'juiz'

Você já ouviu dizer que a justiça é cega, certo? Pois lhe digo que essa senhora não é cega coisa nenhuma. Aliás, enxerga bem até demais pro meu gosto. Veja-se o caso de Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21 e um menor de idade, presos em novembro de 2007 por agressão a um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca. O pai de um daqueles "jovens" comentou que eles não fizeram nada demais e que tudo não passava de uma brincadeira de criança. Só faltou botar o grupo Molejo cantando o refrão “brincadeira de criança / como é bom, como é bom”.

E não é que o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do Rio de Janeiro, entrou na brincadeira e decidiu proibir determinados jornais e emissoras de televisão de veicular nome e imagem de dois dos "jovens" condenados por espancamento. O juiz invocou o artigo 198 da Lei de Execuções Penais, que veda a exposição de réus à “inconveniente notoriedade”.

É claro. Os garotinhos do papai estavam sendo zoados na escolinha por essa súbita e “inconveniente notoriedade” e todo o rico dinheirinho da família destinado ao pagamento da faculdade seria desperdiçado com essa chatice de advogado, custas de processo e congêneres inconvenientes.

É claro. A justiça enxergou muito bem a cor e a classe social desses "jovens" tão inocentemente tragados pela delinqüência típica do agitamento hormonal da idade, tadinhos.

É claro. O baronato da mídia atendeu docilmente ao cala-boca judicial e não perdeu a chance tão rara de ficar calada. Um texto da ABI aqui, um resumo dos protestos da Abert ali, mas nada que ocupasse fotos, espaços e horários nobres. Afinal, não era nenhuma cartinha indignada do Luciano Huck, nem era o governo supostamente amordaçando a liberdade de imprensa para que merecesse um editorial.

Assim é que o caso, para o papai: foi só uma brincadeira dos seus ótimos meninos - não que ele deva se perguntar “onde foi que eu errei?”, mas passar a mão na cabecinha do agressorzinho desse jeito é um crime de lesa-filho;
para o juiz: meninos de tão boa família não podem ser incomodados e não se deve mencionar seus nomezinhos em vão, se eles fossem como os desalmados filhos do casal Richthofen, vá lá, mas bater em prostitutas, pôxa vida, isso é de alta classe, isso é muito natural;
e para a mídia: mesmo que o juiz tenha violado a Constituição impondo uma censura prévia, pra que fazer escândalo?, deixa isso pra lá, mas o que é tem, os jovens não fizeram nada (canta o pai) nem o juiz também (cantam todos).

Lição conhecida: manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Versão na linguagem de hoje: mídia quem pode, obedece quem não tem juiz.

Mais sobre o crime, o castigo e a censura no panóptico e no observatório da imprensa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

paula fernandes e os espíritos compositores

A cantora Paula Fernandes disse em um recente programa de TV que seu processo de composição é, segundo suas palavras, “altamente intuitivo, pra não dizer mediúnico”. Foi a senha para o desapontamento de alguns admiradores da cantora. 
Embora suas músicas falem de um amor casto e monogâmico, muitos fãs evangélicos já estão providenciando o tradicional "vou jogar fora no lixo" dos CDs de Paula Fernandes. Parece que a apologia do amor fiel só é bem-vinda quando dita por um conselheiro cristão.
Paula foi ao programa Show Business, de João Dória Jr., e se declarou espírita.  Falou ainda que não tem preconceito religioso, “mesmo porque Deus é um só”. Em seguida, ela disse que não compõe sozinha, que às vezes, nas letras de suas canções, ela lê “palavras que não sabe o significado”.
O que a cantora quis dizer com "palavras que não sei o significado"? Fiz uma breve varredura nas suas letras e, verificando que o nível léxico dos versos não é de nenhum poeta parnasiano, con…

um grito no escuro, três preconceitos claros

Que impressão você tem das igrejas cristãs? Sua impressão procede de estudos de casos, envolvimento pessoal ou se baseia em ideias preconcebidas e/ou inflexíveis sobre determinadas igrejas?
Em 1980, Michael e Lindy Chamberlain acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou.
Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua.
Em 15 de setem…

avatar e a espiritualização da natureza

O filme mais caro da história. A segunda maior bilheteria de todos os tempos. Marco tecnológico. De todos os ângulos, Avatar é um superlativo.

Mas o que tanto atraiu a atenção das pessoas?

A história? Duvido. Vejamos num resumo: um soldado semi-inválido e cansado de combates acaba indo para um mundo distante e lá ele descobre a harmonia de um povo em contato com a natureza, se apaixona por uma nativa e enfrenta preconceitos e tensão bélica. Isso faz de Avatar uma versão em 3-D de Dança com Lobos, como estão dizendo.

Para o crítico Renato Silveira, Avatar é “a vanguarda da tecnologia oposta ao lugar-comum de um modelo narrativo típico de filmes de fantasia”. Assim, todo mundo sabe de antemão que o herói ficará encantado com uma nova cultura pura, encontrará um amor puro, uma forma de vida pura em contraste com a ganância dos terráqueos e com o vilão que ele mesmo terá que enfrentar. O enredo é, digamos, puro lugar-comum.

O que não é comum é a inovação tecnológica desenvolvida para esse…