
Em Os Tambores de São Luís, grande romance em que Josué Montello traça um painel da sociedade escravocrata maranhense (por opção, mas brasileira por extensão), o negro Damião é um personagem que percebe a hipocrisia da casa-grande cristã durante uma visita do bispo da capital:
"Por que era escravo? E porque também eram escravos os negros que enchiam a capela? ... Deus estaria de acordo com aquela distinção? Uns livres, outros escravos? Uns sentados, outros de pé? No entanto, ali na fazenda, os brancos constituíam a maioria privilegiada, que oprimia a multidão de negros, sem lhes dar direito a nada, nem mesmo ao banco vazio da capela ...Não seria o caso de perguntar ao bispo o que fazia Deus que não tirava os pretos do cativeiro? Ou o Deus era dos brancos e não dos negros?"
"As chibatas, as palmatórias, o tronco, as gargalheiras, o libambo, as máscaras de flandres, tudo tinha sido escondido, para evitar que sobre esses instrumentos de castigo resvalasse o olhar de Sua Reverendíssima"... "Quando o bispo fosse embora, as chibatas, as palmatórias e o tronco voltariam aos seus lugares, bem visíveis, para que os negros se atemorizassem só em olhá-los."
O papa Bento XVI, sobre o extermínio de judeus pelo nazismo: "onde estava Deus nesses dias? Por que ficou silencioso?". Como é que é? Quer dizer que o bicho-homem comete suas canalhices de cada dia, assola a terra com seus vitupérios milenares, pisa no pescoço do próximo para ser mais admirado e então recorre a Deus para eximir-se da chacina e da culpa? É Deus alguma espécie de vovô pra viver tirando nossa mão da cumbuca, um xerife pra apartar nossas brigas de gentalha? Por que Deus tem que intervir em situações que homens e mulheres podem resolver?
A resposta de um jornalista londrino ao papa - devolvendo a pergunta: "onde estava a Igreja naqueles dias?" - poderia ser uma resposta possível ao clamor de Damião.
Na época da escravidão oficial, Castro Alves alinhavava algo assim: "Quebrem o cetro do papa / Façam dele uma cruz / Sua púrpura lancem ao povo / Para cobrir seus ombros nus".
As páginas de Josué Montello encontram eco nos belos versos do professor e compositor Gladir Cabral, que na canção "Casa Grande" descreve esse cruel oxímoro que é o "cristão escravocrata".
A casa grande é branda como a seda
Acolchoada, fina e nobre como a renda
Mas aqui fora reina a lei da reprimenda
Da palmatória, nossa paga, nossa prenda
Doutores, caros, fortes, ricos e senhores
Que suspirais pela janela dos amores
Olhai por nós, marcados por terríveis dores
De vós vêm nossas esperanças e temores
Os nossos corpos sendo mortos pouco a pouco
Os nossos sonhos já desfeitos, todos loucos
Na casa grande há uma cruz numa parede
Sipaúba, escravo como Damião, diz a este:
"-Nem drumindo a gente é livre. Ontem de noite, sonhei que tava no tronco, apanhando. Acordei gemendo, molhado de suó.
-Também já tive um sonho assim - confessou Damião, de vista baixa, após um silêncio".
-Também já tive um sonho assim - confessou Damião, de vista baixa, após um silêncio".
No coração de um negro há uma casa nova
Sem palmatória, sem corrente obrigatória
Sem mais senhores, todos são de todo amigos
E nas paredes não há Cristos esquecidos
Nessa fazenda Deus é gente aproximada
É tempo inteiro, tarde, noite e madrugada
Motiva encontro, comunhão e caminhada
Faz liberdade ser bem mais que uma palavra
Os nossos corpos redimidos num momento
Bem mais veloz que a luz de todo pensamento
A nossa casa é muito mais que uma fazenda
Livros e canções apontam o que escraviza a alma dos homens. Muitos, movidos por um hedonismo nunca satisfeito, dizem ser livres em sua busca por matar sua sede de justiça e diversão, de materialidade e imediatismo nas fontes rotas de uma liberdade escravizante. Outros, cuidam de fazer da sua religião um açoite que aterroriza até a si mesmos, fazendo-se não de servos humildes, mas de feitores sem misericórdia. Mas há ainda quem trabalhe e espere pela liberdade redentiva, ainda que tardia ou abandonada nos púlpitos e esquecidas nas paredes.
Clique aqui para ler análise da canção Casa Grande e do cd de Regina Mota.
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