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Os hits e os invasores de ouvidos – parte 2

Escrevi sobre os hits da moda e houve aqui e ali certo queixume. Entendeu-se que o estilo musical mencionado é inapelável e intrinsecamente ruim. Porém, quando escrevi sobre a mistura de pagode com reggae não quis dizer que esse casamento está em jugo desigual, tipo casamento de celebridades – no tocante à duração são semelhantes (ok, você venceu, esses hits duram mais tempo que casamentos de celebridades). Mas nunca diria que um estilo musical pode nascer de uma fonte de água tão amarga que não dê pra fazer um Tang que seja.

Quando Armandinho e congêneres dizem tocar reggae, eu saco do bolso meu sal-de-frutas. Esse pseudo-reggae nada tem a ver com o reggae de Bob Marley nem mesmo com o estilo regueiro da Tribo de Jah. O que andam fazendo é misturar as indigentes melodias e as letras neuro-vegetativas do pagode mauricinho com a batida característica do reggae.

Na virada do século XIX para o XX, pagode era como se chamava um baile pré-carnavalesco surgido num Rio de Janeiro onde as rodas de samba e o partido-alto iam noite adentro nos quintais cobertos (o termo é uma alusão à típica arquitetura oriental de nome “pagode”). As harmonias e melodias são via de regra simples e as letras geralmente abordam as paixões e romances da vida.

Desde os anos 90, pagode quer dizer oito homens vestidos de branco que cantam sua desilusão amorosa em uníssono e com passinhos repetidos. Some-se a isso as caras e bocas na dublagem televisiva de domingo e a veiculação ad nauseam na mídia e o cenário está armado para a consagração de Só Pra Contrariar, Os Travessos, Belo e Vavá. Tem gente que até hoje não sabe se a prisão de Belo foi mesmo por causa de má companhia ou péssimo pagode.

Por sua vez, o reggae é uma música popular (mais para o pop) jamaicana que incorporou instrumentos modernos a suas origens africanas com elementos do rock steady e do ska. O reggae adquiriu força tanto por sua conotação religiosa - está ligado à filosofia rastafari, que pervade os costumes religiosos e culturais da ilha – quanto por seu caráter de resistência política e social.

O Maranhão é o Estado brasileiro em que o reggae encontrou grande acolhida – São Luís é denominada a Jamaica Brasileira. A cidade já teve a alcunha de Atenas Brasileira, devido a sua incrível quantidade de literatos – Gonçalves Dias, Aluísio e Arthur Azevedo, Josué Montello, Nauro Machado e Ferreira Gullar (Sarney não vale), mas isso já é outra discussão.

Embora o reggae em São Luís seja dançado tanto individualmente quanto aos pares – caso único no Brasil -, o estilo herdou não só a oposição cultural e política jamaicana, mas também o gigantismo da aparelhagem de som e o salão de baile enfumaçado pelo consumo de cannabis sativa, e aí qualquer politização ia mesmo pro espaço. É claro que, assim como o samba carioca, o reggae maranhense sofreu crítica das classes dominantes e ofensiva policial. Hoje, o reggae extrapolou a questão meramente musical e adquiriu impacto social chegando a eleger políticos na cidade.

A indigesta mistura de pagode com reggae, mencionada na primeira parte desse texto, abandonou não apenas a tradição de um samba lúdico como também afastou-se do caráter de resistência política e cultural do reggae. Ou seja, o pagode se entristeceu e o reggae virou scrap adolescente. Não que o reggae tenha que manter-se num gueto social, mas a prática musical dos pagodeiros-tristes/regueiros-hedonistas revela sua falta de talento e seu desejo de integração na comunidade das celebridades por meio da diluição das características melódicas e culturais de um gênero musical.

Uma música como "ursinho de dormir" fala por si a respeito do pagode com reggae, mais uma mistureba apropriada para o festival de caldeirões e domingões que assolam o país. Vale emendar aqui um pequeno trecho de uma letra de Gilberto Gil que diz (onde lê-se Michael Jackson, entenda-se Armandinho e transgêneros):

“Bob Marley morreu
Porque além de preto era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste”.

Leia também: os hits e os invasores de ouvidos - parte 1.

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