12 junho, 2008

O amor nos tempos da canção

Cada um tem a trilha sonora de seu amor. A donzela apaixonada, o mancebo arrebatado e os eternos-enquanto-dure namorados não resistem a uma canção romântica. Porque quando um homem ama uma mulher (ou when a man loves a woman, o amor é estranhamente poliglota) e vice-versa é possível inclusive gostar de canções que antes viviam sozinhas e desprezadas.

Pode ser como Julie Andrews como ex-noviça rebelde revelando seu amor com a belíssima Something Good, de Richard Rodgers, ou como os personagens cantando sua paixão em Todos dizem eu te amo. Pode ser que seus momentos sejam como o encontro em Notting Hill de Hugh Grant e Julia Roberts ao som de She, na voz de Elvis Costello (não me lembro de nenhum equivalente romântico no cinema nacional. E apelar pra Marina Elali aí já é forçar demais o romance).

A cena de Ewan McGregor e Nicole Kidman cantando o amor que sentem um pelo outro em Moulin Rouge dá o tom dos enamorados: os versos mais desabridos de paixão das canções mais desbragadas de amor é o que vem à cabeça. Não dá pra ser muito original quanto se está apaixonado, mesmo porque estar apaixonado não é nenhuma novidade debaixo do sol. Pensando bem, amar só é original pra quem acabou de descobrir que ama. Continuar amando é que está se tornando uma novidade.

Há uns meses recebi um e-mail que atravessou incólume as barreiras anti-spam. Em homenagem ao web-autor desconhecido e resistente, li a mensagem e, para o dia de hoje, fiz algumas modificações. A seguir, uma trajetória musical do amor através dos tempos em versão brasileira:

Nos anos 10 - Ele de terno, colete e cravo na lapela, embaixo da janela dela, canta:

"Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento? Quisera saber agora se esqueceste, se esqueceste o juramento. Quem sabe se és constante, se ainda é meu teu pensamento. E minh'alma toda de fora, da saudade, agro tormento!"

Na década de 20 - Ele de terno branco e chapéu de palha embaixo do sobrado em que ela mora, canta:

"Ó linda imagem, de mulher que me seduz! Ah, se eu pudesse tu estarias num altar! És a rainha dos meus sonhos és a luz. És malandrinha, não precisas trabalhar."

Nos anos 30 - Ele de terno cinza e chapéu panamá, em frente à vila onde ela mora, canta:

"Tu és divina e graciosa, estátua majestosa! Do amor por Deus esculturada. És formada com o ardor da alma da mais linda flor de mais ativo olor, que na vida és preferida pelo beija-flor."

Nos anos 40 - Ele ajeita o relógio Pateck Philip na algibeira, escreve para a Rádio Nacional e manda oferecer a ela uma linda música:

"A deusa da minha rua tem os olhos onde a lua costuma se embriagar. Nos seus olhos, eu suponho, que o sol num dourado sonho, vai claridade buscar."

No fim dos anos 50 - Ele pede ao cantor da boate que ofereça a ela a interpretação de uma bela bossa:

“Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar. Em cada despedida eu vou te amar, desesperadamente, eu sei que vou te amar. E cada verso meu será pra te dizer que eu sei que vou te amar por toda minha vida”.

Nos anos 60 - Ele aparece na casa dela com um compacto simples embaixo do braço, ajeita a calça Lee e coloca na vitrola uma música "papo firme":

"Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o meu amor nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você."

Nos anos 70 - Ele chega em seu fusca, com tala larga, sacode o cabelão, abre a porta e bota uma "melô jóia" no toca-fitas:

"Foi assim, como ver o mar. A primeira vez que os meus olhos se viram no teu olhar. Quando eu mergulhei no azul do mar, sabia que era amor e vinha pra ficar..."

Nos anos 80 - Ele telefona pra ela e deixa "rolar um som":

"No Abaeté, areias e estrelas não são mais belas do que você... Você é linda, mais que demais. Você é linda, sim. Onda do mar do amor que bateu em mim”.

Nos anos 90 - Ele liga pra ela e deixa gravada uma música na secretária eletrônica:

“Você é minha doce amada, minha alegria, meu conto de fada, minha fantasia, a paz que eu preciso pra sobreviver. É o amor, que veio como um tiro certo no meu coração, que derrubou a base forte da minha paixão, que fez eu entender que a vida é nada sem você”.

No ano 2000 - Ele captura na internet um "batidão legal" e põe um scrap na página dela no orkut:

"Tchutchuca! Vem aqui com o teu Tigrão. Vou te jogar na cama e te dar muita pressão!Eu vou passar cerol na mão, vou sim, vou sim! Eu vou te cortar na mão! Vou sim, vou sim! Vou aparar pela rabiola! Vou sim!"

4 comentários:

Lívia disse...

Oi! achei seu blog totalmente por acaso, e sabe de uma coisa? Gostei muito do que vi! começarei a frequentar! visite o meu quando tiver um tempo!
beijos

arthur da musica disse...

a academia não gosta nem de ouvir falar em decadência musical. mas é só olhar para as décadas de 60 e 70 e ver o quanto as canções perderam em qualidade.
meu caro unespiano Joêzer - aprendi que é com cedilha, hehe - daqui a pouco as pessoas vão ter vergonha de gostar de mozart e pixinguinha.

joêzer disse...

livia:
agradeço suas palavras e continue vindo. siga firme no "livre para pregar".

arthur:
você lembrou dessa história do "cedilha", hein?
por aqui pelo blog já mencionei músicos de hoje que resistem ao furacão da mediocridade que assola o país.

Michelle disse...

OI Joezer!
Passei por aqui, me diverti, me informei e te mando um grande abraço!

Michelle