17 junho, 2008

Nos embalos da Cristoteca


A reportagem de Janaína Linhares no Jornal do Brasil de 15 de junho revela que o funk caiu também nas graças da Igreja Católica. Segundo a repórter, “numa tentativa de reverter a perda de fiéis, [...] algumas paróquias da cidade decidiram colocar em prática uma espécie de Plano B para lá de excêntrico: transformar as missas em uma grande festa e, assim, aumentar o rebanho jovem. E foi assim, ao som do funk, do hip hop e da música eletrônica, que a comemoração católica batizada de Cristoteca se tornou uma mania”.

A jornalista notou que o público era predominantemente jovem e, apesar da ausência bebidas alcoólicas e cigarros, ela comparou o evento a “uma noitada carioca” embalada por “palmas e coreografias ao som da celebração à palavra de Deus”.

O padre Jorge Bispo considera a Cristoteca “um trabalho de resgate com a juventude”, motivo da utilização das “músicas que eles gostam, só que com letras católicas”.

Ainda segundo a reportagem, “apesar da animação, nem tudo no evento se resume à música. A festa, que começa às 22h e se estende até as 5h, pára por volta da meia-noite para que seja realizada a missa. Depois da celebração, os DJs de Cristo retomam o comando das carrepetas e, enquanto a música volta a agitar a pista, em tendas brancas espalhadas pelo local acontecem orações, intercessão com Santíssimo exposto, aconselhamentos espirituais e confissões com vários sacerdotes convidados”.

Alessandro Gomes, que vai à Cristoteca desde a sua criação, diz que o clima liberal da celebração não tira o foco religioso do evento. “Gosto muito de beber cerveja”, diz o entrevistado, “mas nesse caso não tenho vontade e acho que é por respeito mesmo, [e na] Cristoteca não é legal ficar bêbado”. Outro freqüentador conta que “a missa se renovou e hoje é muito diferente. As pessoas deixaram de lado a vergonha e assumiram que é legal ser cristão”.
* * *

A questão não é discutir se há honestidade espiritual ou não nas estratégias formuladas pelos líderes religiosos ou se o público-alvo é de fato atingido pelas mensagens musicalizadas. Porém, há alguns pontos a ponderar em tais propostas, pontos estes que são logo atacados com frases do tipo “é melhor isso do que a balada secular”, ou “as igrejas estão atraindo os jovens”, e ainda, “o jovem religioso precisa se divertir”.

Se colocarmos uma interrogação ao final das frases mencionadas, pode-se ter uma pausa para reflexão antes que se entre no clima do “batidão”. Primeira: é melhor isso do que a balada secular? O “isso” nada mais seria que a reprodução dos festejos dos baladeiros noturnos, com a simples retirada do álcool e do fumo. Faz-se uma missa à meia-noite e mexe-se as cadeiras até o galo cantar três vezes, para então sair dali com a sensação de que ser cristão é “legal”, é “massa”, é “da hora”?

Segunda interrogação: as igrejas estão atraindo os jovens? No processo de pesquisa para a minha dissertação, li, ouvi e estudei os novos padrões de atração de fiéis, e a palavra-chave é mesmo “atração”. Se está escrito que “Eu [Cristo], quando for levantado da Terra, atrairei todos a Mim”, é fato que, hoje, quando o funk levanta poeira, atrai muita gente. Assiste-se atualmente a um modelo de conservação e atração de público jovem para reuniões em que há muita religiosidade, mas pouca religião; há versos bíblicos lidos a esmo, mas pouco “examinai as Escrituras”. Cantores de grande vendagem, músicas pop-religiosas, luzes estrobocópicas fascinam o jovem público que encontra nas grandes concentrações religiosas em logradouros públicos ou em salões particulares um genérico das baladas e shows populares.

Denomino de “genérico” porque o princípio ativo é o mesmo. Isto é, aquilo que desencadeia as reações psicossomáticas (em português, as reações mentais e corporais) do público não são as letras, mas a intensidade sonora e a capacidade dinamogênica do ritmo e da canção.

Palavras como funk e gospel, axé e gospel ou dance e gospel deixaram de ser termos inconciliáveis e passaram a ditar o índice de maior ou menor atratividade jovem. Os cantores, auto-denominados ‘levitas’, dão autógrafos, têm comunidades concorrentes no orkut (com pesquisas tipo ‘quem canta melhor’), e reproduzem acriticamente o modelo de comunicação dos astros pop por meio de sua postura no palco, seus comandos de voz (‘tira o pé do chão’) e seus figurinos. Além disso, são recebidos nos shows com estridência por um público que também reproduz o comportamento de fãs histéricos do mundo musical pop.

As letras religiosas seriam o diferencial? As letras podem até ajudar a derreter corações de pedra, mas elas submergem na atmosfera de rave criada para entreter e divertir. Numa perspectiva a ser mais estudada, as letras se parecem mais com mensagens subliminares, tal sua irrelevância diante do ritmo, do volume sonoro e do ambiente. Numa perspectiva mais evidente, embora as letras apresentem temas da vida evangélica, a embalagem melódica e de arranjo reproduz os estilos musicais da moda e a indústria gospel imita o caráter de atração jovem e promoção musical da indústria fonográfica pop, estimulando o comportamento de baladeiro e fã por parte do jovem fiel.

Por último: o jovem religioso precisa se divertir. Ora, isso é elementar. Afinal, sem um pouco de lazer, recreação e leve entretenimento não há cristão que suporte o rojão contemporâneo. Contudo, quando a diversão deixa de ser um momento da semana para se tornar o estilo de vida, algo está se perdendo na caminhada, e este algo pode ser um sentido mais profundo do que é conversão. Se conversão significa mudança de direção, como ainda repetir os maneirismos de interpretação, a histeria fanática, as caras e bocas, os adereços e figurino dos artistas, as melodias e arranjos da música pop mais descartável da mídia?

“Haja entretenimento” – o mandamento da nossa sociedade do espetáculo passou a ser a palavra de ordem para a sobrevivência das igrejas na modernidade.
A foto acima é do evento "Balada Santa" do Point Católico realizado em 10/05 (Osasco-SP)
A reportagem completa do Jornal do Brasil está aqui.

6 comentários:

Anônimo disse...

Olá. Concordo com você. Infelizmente estamos perdendo não somente a qualidade musical, mas também a qualidade de cristãos. As pessoas só querem milagres e diversão.

Lívia disse...

hoje em dia o "sistema" acostumou humanos com show. tem que ter show pra ser atrativo, virou regra. a razão muitas vezes passa longe.e sabemos que o que é movido por emoção é passageiro e acaba logo. e sabe o que mais toca nisso tudo? que "apesar de", Deus ainda usa situações como essas para tocar corações sinceros.
vou colocar seu link no livre para pregar ok? beijos

gilvan disse...

encontrei um flogão da cristoteca e é até engraçada, se não fosse trágica, a maneira como os participantes falaram da festa rave religiosa(?)no site , fora os nomes que se dão:

Pretinhosexy: koe galerinha... essa cristoteca ficou muito show de bola msm quero logo q chegue dia 16 pois estou a fim de ficar com as pernas doidas novamente dancei pra kramba ontem. Fui galera...

Dudaofsurf: ae foi muito bom a festa ontem caraca dancei muito e louvei tbm mais so pelo “sangue do cordeiro”

precisa falar mais?
gilvan

joêzer disse...

livia:
na sociedade do espetáculo o que vale é o show da fé. obrigado por me linkar. tentei escrever um comentário no seu blog mas não consegui publicar. talvez se houver a alternativa "nome/url" seja mais fácil para os recém-alfabetizados na web como eu.

gilvan:
a matéria do JB entrevistou pessoas que se comunicaram de uma maneira mais "legível", é verdade. uma outra pesquisa poderá dizer se ambos os grupos representam a totalidade dos que foram ao evento.
no meu texto, a reação do público foi menos importante do que as técnicas usadas para influenciá-lo.

abraço a todos

douglas reis disse...

joêzer,

não tinha visto esse texto ainda - fantástico. Apreciei muito a sua análise e, de certa maneira, as suas preocupações refletem as minhas. Penso que nós, adventistas e outros cristãos conservadores, deveriam não descuidar, porque a influência da pós-modernidade pode nos fazer perder o foco - talvez não quanto à adoção de ritmos "vulgares", mas no "relachamento" de critérios para a nossa adoração.

Mais uma vez, parabéns pela sua lucidez!

Anônimo disse...

George diz: isto me lembra um imperador lá pelos anos 321 dC que para atrair adeptos a sua nova religare permitiu que os sacerdotes cristãos/pagãos do seu tempo permitissem q entrassem na igreja culto de imagens, músicas festividades à divindades pagãs para satisfazer o povo. E outra autora do século passado me lembra que em alguns paízes do mundo os congressistas vão conceder COISAS à população em determinadaspartes do mundo para que DETERMINADA 'LEI' seja promulgada contra os guardadores do sábado. Isto vai acontecer e muito mais. Aguardem...