08 julho, 2009

música e adoração: experiência e obediência

Não é difícil perceber que o debate em torno da música sacra tem tomado duas vertentes bem dicotômicas: ou é isso ou é aquilo, esse instrumento pode vs. aquele não pode, o gosto “jovem” vs. o gosto “maduro”, o clássico vs. o contemporâneo.

Insisto em dizer, todavia, que o problema não é a música nem o instrumento nem a dinâmica mutante da cultura musical. A discussão não deveria estar situada na oposição entre os pólos. Aliás, essa é uma oposição em que as opiniões pré-formadas de ambos os lados tem somente eclipsado o que deveria estar no centro do debate: o referencial bíblico que estabelece a adoração. Eu disse, referenciais de adoração, e não princípios musicais. Não há regras de elaboração musical da Antiguidade que devam ser obedecidas hoje. Há, de fato, princípios centrais teológicos que podem orientar o modo de adoração.

Sem um modelo biblicamente referenciado, corremos o risco de produzir uma música de louvor desarticulada e orientada por tendências culturais, pela última moda musical das mídias ou por algum artista popular. Note o que disse Harold Best, presidente emérito da Associação Nacional das Escolas de Música (EUA): “A música de igreja por excelência [...] deve estar embasada, não primordialmente na natureza da música e em estilos musicais, modelos de práticas ou perfeição acadêmica, mas em uma bem fundamentada perspectiva teológica”.

Traduzindo, a música de adoração é guiada por princípios teológicos e não pelo gosto dos mais tradicionais ou dos mais liberais.

A música pode ser vista como um ato de experiência humana. Coletiva ou individual, sua prática é geralmente dependente a) da cultura local, b) da finalidade, e c) da subjetividade do praticante. A essência da prática musical estaria relacionada, portanto, aos moldes culturais, funcionais e idiossincráticos de determinado grupo social e de sua música. Sacra ou secular, a música é sempre um ato de experiência.

Por outro lado, a adoração não se reduz a uma experiência sensível. Adoração é, antes da experiência, um ato de obediência. Coletivo ou individual, o ato de adorar é geralmente dependente a) da natureza da igreja, b) da natureza da missão, e c) da cultura do adorador. A essência da adoração estaria relacionada, portanto, aos modelos de interpretação bíblico-doutrinária. A natureza da música, por sua vez, depende da igreja e da sua missão.

A igreja que apresenta um culto bíblico entende que a adoração é uma resposta da criatura humana aos atos de Deus. Ou seja, ao contrário de cultos que buscam o favor de Deus por meio de rituais e músicas, a igreja não louva a Deus para garantir a salvação. Louva-se o Deus cujos atos salvíficos redimem o ser humano. Na Bíblia, são relatados diversos atos de adoração feitos logo em seguida a uma promessa revelada ou a uma intervenção salvadora de Deus. A adoração também não se restringe à participação no culto, mas é estendida ao cotidiano do adorador, que demonstra uma vida de adoração ou uma vida em adoração. Desse modo, a adoração é um ato de obediência.

Uma sugestão de referencial bíblico para a adoração é encontrada em Atos 2: 42: “Eles eram devotados ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações”.

n Ensino: proclamação do evangelho para a conversão e a mudança (KERYGMA)

n Comunhão, Partilha: participação, fraternidade, exercício dos dons para a edificação da comunidade (KOINONIA)

n Orações: culto, adoração (LEITOURGIA)

O texto bíblico citado não relaciona instrumentos ou estilos para a igreja. Alguns registros históricos indicam o predomínio do canto a capella e a ausência de instrumentos musicais no espaço cúltico apostólico, seja porque estes despertavam associações culturais indesejáveis seja porque poderiam ser ouvidos pelos perseguidores dos cristãos ou por causa de outro motivo. Se tomássemos o texto e o contexto daquela época e daquele lugar e o transplantássemos sem adaptações, tal ação seria apenas um pretexto para a exclusão autoritária dos instrumentos da prática musical religiosa.

A igreja que reflete em sua adoração os três modos/atitudes de sua missão deve procurar fazê-lo de forma regular, criativa, sistemática e cuidadosa. Quando isto não ocorre, há um desequilíbrio que tende a sobrepor um dos três modos sobre o outro. A fraternidade sem a doutrina faz da igreja um mero clube social. Onde a liturgia é sobreposta à comunhão dos leigos e ao ensino haverá um culto baseado na intenção subjetiva e na emoção do relacionamento pessoal com Cristo, e não na explanação objetiva e na pregação do evangelho.

Algumas comunidades religiosas têm empregado a música para estimular experiências sensíveis e emocionalistas por parte do adorador. A cruz e a graça de Cristo são pontos que certamente merecem a contrição e as lágrimas de gratidão. Entretanto, a adoração contemporânea referenda duas horas de louvor e quinze minutos de edificação doutrinária, concedendo à “liturgia gospel” o papel central em um culto que favorece o extravasar das emoções reprimidas e que, supostamente, permitiria ao adorador uma satisfação pessoal e uma transcendência espiritual inquestionáveis.

Em sua bem-sucedida operação espiritual-musical, o louvor contemporâneo está atento às últimas tendências musicais da mídia secular, o que pode estar na adoção de uma forma sensacionalista de cantar ou de um novo ritmo do verão. Porém, como escreve Ralph Martin, o ser humano adora “não simplesmente para satisfazer suas necessidades ou para sentir-se melhor, mas para expressar a dignidade de Deus” (The Worship of God, p. 27).

O adorador precisa, sim, de hinos e canções modernas que tornem o ato de cantar uma atividade agradável e prazerosa, balanceando o uso da linguagem do relacionamento pessoal com a linguagem que se dirige à soberania e à majestade divinas. Apesar de não haver nenhum referencial doutrinário ou institucional que assinale o uso exclusivo do hinário para o louvor congregacional, penso que a música escolhida deve representar a identidade litúrgico-musical da igreja, buscando equilibrar formas históricas e recursos musicais da modernidade.

Por outro lado, nota-se que os ministérios de louvor que abdicam da tradição musical de sua igreja estão muitas vezes transplantando não somente o estilo musical, mas também as estratégias de adoração dos grupos neopentecostais, em que o louvor tem mais importância que a doutrina e qualquer forma musical é valorizada pelo seu impacto emocional e utilitário.

Este texto é um resumo da primeira parte da palestra "Música no Culto: doxologia, adoração, mensagem" proferida no Encontro de Músicos da ASP. Citações e referências indiretas extraídas do sexto capítulo do livro The Message in the Music (Woods & Walrath, eds).

7 comentários:

André disse...

"Great minds think alike."

Brother, semana passada postei uma resenha de um artigo da RA no meu blog que aborda os mesmo pontos que vc aqui, até nossa construção frasal em alguns pontos é idêntica! rsrs

Seria isso "trasmimento de pensação" ou o Senhor está levantando profetas-músicos na IASD? rs

Depois quero falar com vc sobre uma possível colaboração no meu blog.

Até mais!

joêzer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joêzer disse...

caro andré,
acho que a abordagem elementar de algumas questões pontuais faz com que o modo de indicar equívocos de interpretação se torne semelhante.

eu aqui do lado de baixo do Atlântico venho há algum tempo insistindo que o problema não está na música, mas no entendimento do que seja adoração, embora eu tenha minhas limitações hermenêuticas e muitas ressalvas particulares quanto ao uso dos estilos pop na música chamada cristã.

quanto a "assunção de profetas-músicos", olhe lá que não sou profeta nem filho de profeta.
obrigado pelo "great minds", mas ainda estou palmilhando a primeira milha.

Loren disse...

Olá Joêzer

pensava cá... corrija-me se estiver errada, mas vc afirma incisivamente a idéia de q no meio cristão se dá prioridade a discussões sobre questões mais secundárias, mas vc não diz p/q elas são secundárias e p/q tb não podem ser vistas de ponto de vista teológico. seria pelas limitações hermenêuticas, como vc apontou, ou eu perdi algum post anterior em q vc tratava desse assunto?

pensava tb q é comum partirmos do pressuposto de q a razão primária do culto é a pregação. ok, concordo q seja uma parte indispensável, mas se o momento dedicado à Palavra de Deus fosse o mais importante, por assim dizer, deveríamos rever o nome das reuniões feitas pela Igreja para "estudo da Bíblia", por exemplo, e não "culto".

Bem, e mesmo como membro de uma igreja pentecostal, não falo por todos; mas entendo q a adoração possa ser vista como um momento de transcedência, quer por louvor, quer por oração. inspiro-me na seguinte passagem de jeremias "buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração" (29:11), embora posse q se trata mais de experiência pessoal q doutrinária.

bem, foram alguns pensamentos q me ocorreram e q tento pôr em ordem... sei q vc tem pesquisado e refletido com seriedade, mas às vezes importa repensarmos certos lugares comuns q nos pregam do berço

(vou clicar "enter" de olhos fechados, pq temo o grau de sanidade desse comentário! hehe)

deixo registrada, mais uma vez, minha admiração pela integridade dos posts

Shalom Adonai!

joêzer disse...

loren,
minhas limitações são bem maiores do que acho que são. mas vamos lá.
a discussão sobre estilos e instrumentos é secundária porque a prioridade do músico e da igreja não é com a música, é com a adoração.
por isso enfatizei a adoração na perspectiva bíblica.

você tocou num ponto importante:
se a doutrina/ensino for supervalorizada em detrimento do louvor e da comunhão entre os irmãos, o provável resultado é uma igreja legalista. Ou como você disse bem: melhor trocar o nome de "culto" para "estudo da Bíblia".

por esse motivo eu digo no texto que deve haver um equilíbrio entre ensino, comunhão e louvor. acontece que tem sido dada uma ênfase exagerada às experiências carismáticas, o que leva a comunidade religiosa a ter experiências emocionais que tem sido chamadas de "experiências espirituais". enquanto isso, o estudo da Bíblia é relegado para segundo ou terceiro plano.

obrigado pelo comentário. um abraço

Teólogo disse...

Loren,

Concordo com vc.

Veja, a Igreja ADventista historicamente tem posto muita ênfase na parte de KERYGMA ou pregação da palavra e pouca no louvor. Nascemos do estudo da Palavra e de certa forma temos mantido bem esta tradição.

O lado ruim é que temos que reaprender a louvar, espontaneamente, de maneira VIBRANTE e reverente.

Precisamos de um estudo profundo dos Salmos para abordar o louvor de maneira bíblica.

Também não creio que louvor vibrante seja incompatível com reverente, embora esse equilíbrio seja bastante delicado. Daí, voltar à adoração nos Salmos é crucial.

Enfim, creio que o culto adventista precisa de mais ADORAÇÃO em louvor e o culto Evangélico e Pentecostal deve ter mais da Palavra.

Acima de tudo, CRISTO precisa estar no centro do culto na Koinonia, Kerygma e Psalmos.

Abraço!

Loren again disse...

Obrigada pelas respostas! Fiquei satisfeita com o q li :)

Vc tem razão na sua conclusão, Joêzer. O importante é a adoração em espírito e em verdade. A Bíblia é completa pr'aquilo q é útil a Igreja saber. Se estilos e instrumentos fossem relevantes Deus o teria revelado

Espero q a Igreja encontre o equilíbrio e busque o conselho de Tiago qdo nos lembra q é a moderação q caracteriza a verdadeira sabedoria (3:17)

Fiquem na paz de Deus!