01 julho, 2009

os reis da música e o cristianismo

O cristianismo é um dos fundamentos mais visíveis da construção da sociedade norte-americana. Desde os “Pais Fundadores” até os apelos de Bush II e Barack Obama à mentalidade religiosa da maioria da população, as políticas públicas ali têm sido implementadas tendo em vista determinados valores cristãos. A música pop não estaria totalmente alheia a algumas formas bem heterodoxas do pensamento dito cristão.

Religião e cultura pop no mesmo caldo? Pois, no caso da música popular, mais que todas as outras variantes doutrinárias do cristianismo, o pentecostalismo repercutiu na carreira de muito astro pop antes, durante e depois da fama.

E por que justo o pentecostalismo? De forma bem resumida, pode-se dizer que fatores como a maior liberdade de expressões físicas e espirituais na adoração e a característica de ritual catártico manifesto nos cultos pentecostais favoreceram tanto a consolidação do gospel na religião (entre 1920-1940) quanto na indústria pop (entre 1950-1970). Ou seja, se por um lado, artistas seculares entravam para igrejas pentecostais, como Tommy Dorsey, o formatador do gospel no início do século XX, por outro lado, artistas pop, como Ray Charles, apropriavam-se de modelos da canção gospel para dar novo fôlego a sua música.

De Elvis Presley já são bem conhecidas as gravações de standards da música gospel – "How Great Thou Art" (Quão Grande és Tu) e "He Touched Me" (Cristo tocou-me). Ele também admirava ícones da música gospel, como Jake Hess, de quem Elvis dizia ser um imitador vocal, e o grupo Jordanaires, que fazia backing vocal para o chamado rei do rock. No final dos anos 50, Jerry Lee Lewis era um cantor-pianista de formidável talento, cujas origens pentecostais se apagaram diante do enorme sucesso e também após uma infindável lista de polêmicas: envolvimento com drogas, disparos acidentais de arma de fogo, prisões, casamento com a prima menor de idade. Jerry Lee também é primo do telepastor Jimmy Swaggart. Quem conhece a vida e obra de Swaggart sabe que não se pode dizer que Jerry Lee Lewis deveria ter imitado os passos do primo evangelista.

Little Richard, outro astro do rock dos anos 50, chegou a abandonar a carreira musical e foi estudar num colégio adventista na Austrália, mas logo voltaria à estrada roqueira. Por sua vez, James Brown disse que suas performances atlético-ensandecidas no palco eram influência das frenéticas performances de pastores pentecostais a que assistiu na infância. O animadíssimo show de James Brown era uma cópia da pregação catártica dos pregadores que falavam em línguas incompreensíveis, pulavam, rolavam, cantavam, choravam e gritavam, sendo que a reação tanto da platéia de fãs e quanto da congregação religiosa era sempre no nível da euforia extremada.

Nos anos 60, o cantor Johnny Cash foi também um artista pop cuja conversão religiosa foi marcada por avanços e recuos. Preso algumas vezes, mas sem cumprir pena na cadeia, e com a carreira sendo destruída pelo vício em anfetaminas e barbitúricos, Cash conseguiria reabilitar-se com a ajuda da esposa June Carter e a decisão pessoal de converter-se ao cristianismo. O filme Johnny e June retrata a vida de Cash até esse ponto, num típico final feliz.

No entanto, o cantor voltaria ao vício devido ao abuso de drogas em sua busca por aliviar as dores que sofria em conseqüência de um ferimento no estômago. As contradições que pontuam a carreira de Johnny Cash podem ser observadas numa apresentação ao vivo pela TV em que se recusou a alterar a letra de uma canção com referência ao uso de drogas ("On the Sunday sidewalks / Wishin’, Lord, that I am stoned") e também em sua amizade com Billy Graham. Essa amizade o levaria a ser co-autor e narrador de um filme religioso, The Gospel Road. Nos anos 80, Cash lançaria um livro sobre a conversão de Paulo cujo título (The Man in White – O Homem de Branco) era uma paráfrase de seu próprio apelido, The Man in Black (“O Homem de Preto”, referência ao seu figurino nos shows).

Marvin Gaye foi um cantor que no início dos anos 70, com o álbum What’s Going On, permeado de questionamento crítico-social, chegou a ser um fenomenal sucesso de crítica e público. Filho de um pastor da House of God (Casa de Deus), uma igreja dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia que mesclava ortodoxia judaica com doutrinas pentecostais. Nos anos 80, quando o artista recuperava o prestígio que tinha na década anterior e voltava a morar com os pais, foi morto a tiros pelo próprio pai, que na época sofria com um tumor cerebral.

O último artista que quero citar aqui é Bob Dylan, considerado um dos maiores letristas da música popular americana. Na década de 60, foi celebrado por suas canções folk, sua voz sem apelos de estrelismo e por suas letras de forte cunho social, longas e poéticas, que narravam a vida do americano comum ora em meio a convulsões sociais e políticas ora às voltas com amores partidos. Na década seguinte, o divórcio após 12 anos de casamento levou Dylan a uma grave crise pessoal e artística, o que teria motivado sua conversão ao cristianismo.

Essa nova fase de Dylan, em que ele se aproximou de músicos gospel e compunha música de temática cristã, foi bem pouco aceita por fãs e críticos. Vale relembrar que, no começo dos anos 80, Bob Dylan mudou o curso e foi em busca de suas raízes judaicas, o que se refletiria nos novos trabalhos, que retomavam o formato da narrativa pessoal e introspectiva dos seus álbuns de maior sucesso.

É interessante perceber a reação dos fãs e admiradores de um artista que passa pela conversão. Quando um cantor de sucesso está em sua turbulenta busca espiritual, ele é tido como um catalisador das questões existenciais do ser humano. Quando esse mesmo cantor encontra o que aparentemente buscava, seus ouvintes perdem o alto interesse que tinham antes. No mundo da música popular, parece que o sucesso é só para aqueles que cantam como Bono Vox, da banda U2: I still haven’t found what I’m looking for / eu ainda não encontrei o que estou procurando.

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