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o e-book e o e-leitor

Quando os primeiros livros começaram a ser impressos na gráfica de Gutenberg no remoto ano de 1455, será que houve alguém que continuou preferindo estudar nos pergaminhos? Pois no nosso informatizado século há quem não goste da novidade revolucionária, o e-book. E não é por que a nova engenhoca do saber ainda custa caro.

Não se assuste com a chegada do e-book, o livro eletrônico que comportará toda a sua estante de livros. Vantangens prováveis: os livros que você quer (e conseguir comprar) a um click de distância; não amassa, não pega fungo, não tem mau cheiro nem solta as tiras; dá pra ler de noite; o portador do e-book será visto como alguém antenado - alguns dirão "descolado". Desvantagens possíveis: comprar de novo os livros que você já tem; ver uma estante ficar obsoleta; esbarrar num botão e mudar de página - ou de tela - no meio da leitura; reiniciar, resetar, reinicializar; virar o brontossauro da repartição caso não adquira um e-book.

Não há como negar que ler um e-book na fila do ônibus ou dentro do metrô pode ser uma aventura tão arriscada como exibir um celular de última geração. Não será a mesma coisa que roubar livros de papel, algo que será tão insólito quanto o furto de chinelo velho. Talvez a democratização do produto e o barateamento dos preços faça com que o e-book não seja um objeto tão disputado, mas isso pode levar um bom tempo.

As crianças estão mais espertas, mas o que não mudará é o seu maravilhoso senso de ser inoportunas. Seu sobrinho iPodizado e iPhonizado lhe perguntará sem dó: “Como faz pra acessar essa coisa de papel que você lê?” Sua amiga ecochata: “Sabe quantas árvores se derruba para você ler esse livro?” Até o estagiário recém-contratado: “Deixa que eu encontro rapidinho essa citação do George Soros aqui no meu e-book”.

Nem os concursos bíblicos serão mais os mesmos. Imagine os participantes com seus iPhones e iTudo na mão: “Armas ao alto” (calma, arma é só como se chamava a Bíblia em antigos concursos). “Livro A, capítulo B, verso C”.

Os dedos voam, clicam num ícone, dois ícones, deslizam suave e digitalmente e encontram facilmente a passagem que brotam na tela junto com as personalizadas abas de tela. O hinário completo também estará lá (embora as letras das músicas cantadas nas igrejas já tenham sido teletransportadas para o telão).

Nesses tempos linkados e logados em que vivemos, a ciência que se multiplica está pondo a Bíblia no bolso. A Bíblia virtual no bolso real do indivíduo, que fique bem entendido. A tecnologia pode auxiliar e muito a leitura e a propagação da Palavra. Como parafraseou meu irmão Julison portador de uma Bíblia no Formato de Hoje: “Escondi Tua palavra no meu iPhone para não pecar contra ti”.

Para as gerações acostumadas com o cheiro e a textura do papel, a transição poderá ser mais lenta e gradual que qualquer perestroika. Os traumas poderão gerar indivíduos que não subsistirão ao olhar para uma estante com apenas um fino e hirto e-livro onde antes esparramavam-se centenas de lombadas e capas duras. Haverá aquela espécime mais arredia à tecnologia, que passará os dias em sebos em busca de qualquer traço de celulose. Alguns se contentarão em espirrar alergicamente ao abrir um livro com vestígios de pó e traça. Os mais radicais, aqueles que nunca quiseram nem aprender como se liga um aparelho de DVD, dirão que no tempo deles é que a leitura era um prazer, que o nome de Gutemberg é desonrado a cada download de um novo livro e ainda lamentarão a decadência da humanidade.

Convertei-vos, ó idólatras do vinil e da celulose! Antes que venham os maus dias em que não podereis mais ser nem leitores nem e-leitores.

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