
Lembra daquela canção que diz que "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"? Tem muito de verdade nisso, mas não "somos universitários" como nossos pais. Enquanto a universidade se dividia em engajados vs. alienados nos conflitos ideológicos e políticos dos anos 60 e 70, hoje o destaque é dado aos fariseus universitários que jogam pedra nas Genis de minissaia e às donzelas engajadas na noite baladeira do sertanejo universitário.
Os engajados viviam segundo o evangelho comunista de Fidel e Che Guevara e só ouviriam canções “revolucionárias”. Os chamados “alienados” preferiam escutar a Jovem Guarda. Atualmente, os universitários estão mais distantes e alienados de Fidel, ainda bem. Muitos aderiram à causa engajada no entretenimento de Victor & Leo. Bem, cada geração tem a jovem guarda que merece.
Sim, a música sertaneja não larga o osso do sucesso passageiro. Mas estamos falando de festas de universitários, o que quer dizer que o sertanejo que eles ouvem vem da viola singela de Helena Meireles, da poesia de Almir Sater, do cancioneiro de Renato Teixeira, certo? Mas que nada. Os universitários andam curtindo mesmo é a linha decadente da música sertaneja que foi se diluindo, diluindo até desembocar no pula-pula e no chora-chora do "sertanejo universitário".
A trajetória do estilo pode ser resumida nos nomes dos cantores sertanejos. Em priscas eras, juntavam-se dois nomes caipiras e a cantoria começava: Tonico e Tinoco, Pena Branca & Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho. Ou uma dupla de cognome, digamos, "chamativo": Milionário & Zé Rico, Gavião Moreno e El Condor, Domingo e Feryado, e o inacreditável Bátima e Robinson. A dupla Chitãozinho & Xororó foi a última dos apelidos rurais.
Nos anos 90, os nomes eram mais urbanos, já que a patroa começava a assumir que gostava da mesma música que sua empregada ouvia: Leandro e Leonardo, João Paulo e Daniel, Gian e Giovani, Zezé di Camargo e Luciano. Hoje, os nomes escolhidos são tão mauricinhos quanto inodoros: Victor e Leo, Jorge e Mateus, João Bosco e Vinícius, Lucas & Matheus (este último não é dupla gospel). Ou se junta um nome citadino com um apelido caipira: Fernando e Sorocaba, Matogrosso e Mathias.
Enquanto nossos pais, ou pelo menos, os pais de alguns, cantavam as músicas de protesto de Geraldo Vandré e Chico Buarque, e eram obrigados a camuflar o "cale-se" da ditadura com um "cálice" na letra, nossos universitários de hoje, ou pelo menos, boa parte deles, cantam a música conformada dos amores chorosos e as letras que não camuflam nem o primarismo. Onde está o "cale-se" quando a gente mais precisa dele?
Não pense o leitor que vivo a sonhar com uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer. Aguento firme só uns 10 dias nesse cenário bucólico. Não faço planos de me mudar para um rancho fundo bem pra lá fim do mundo (embora a canção No Rancho Fundo seja das melodias mais belas do repertório nacional). Mas a canção sertaneja já viveu dias mais interessantes.
O sertanejo moderno abusa da temática do amor perdido, embora as letras estejam menos embebidas em dor-de-cotovelo. Ainda há letras de duplo sentido, mas bem longe da pornofonia do batidão do funk. A melodia continua simples, mas os gogós, quanta diferença. Há menos trinados inalcançáveis, menos veias saltando na garganta.
Ao contrário do "forró universitário", que prefere as raízes pé-de-serra do estilo, o sertanejo universitário bebe no caldeirão pop que ergue ídolos e os esquece em uma estação. Essa rápida troca de guarda no topo das paradas tem lá suas vantagens. Já pensou o que seria do ouvinte passar 20 anos ouvindo Luan Santana?
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