19 setembro, 2011

inverno da alma


Durante um ano e meio, trabalhei como arte-educador no Programa Atitude, um projeto que atuava em áreas urbanas de risco social, como o bairro Independência, em São José dos Pinhais (área metropolitana de Curitiba), local dos mais altos índices de miséria e violência.

Percorrer as vielas entre os barracos e casas degradadas, convidar as crianças para as aulas de música, convencer os adolescentes seduzidos pelo dinheiro rápido do tráfico de drogas a abraçar os projetos de ensino e emprego, visitar escolas públicas de sala em sala divulgando o programa, tudo isso foi um mergulho numa realidade tremendamente complexa.

Lembro de um adolescente que agarrou sua chance de dar aulas de violão para os colegas de sua comunidade. Ele decidiu dar a si uma nova chance e me dizia que agora queria algo melhor para sua vida. Ser íntegro quando os colegas não compartilhavam de sua integridade: uma escolha nada fácil.

O que estou escrevendo tem a ver com Inverno da Alma (2010), filme que conta a história de Ree, uma adolescente que vive em situação de muita pobreza, cuida de dois irmãos menores e de uma mãe doente, e ainda luta para encontrar o pai, um foragido da polícia provavelmente morto por gangues que moram no mesmo local que ela. Esse tipo de tragédia, contada por mães, filhos ou avós, era algo comum de se ouvir onde eu trabalhava.

A jovem Ree (uma estupenda atuação da atriz Jennifer Lawrence) é capaz de acariciar os cabelos da irmã e logo em seguida confrontar o homem que vem cobrar as dívidas do pai desaparecido. Ela vai até a casa onde mora o chefe do tráfico e não teme enfrentá-lo; ela rejeita as ofertas de entrar para o tráfico ou de escapar das dificuldades extremas por meio das drogas. Embora algumas de suas reações sejam um fruto quase natural do contexto de violência e abandono, a integridade de suas atitudes transcende qualquer fronteira.

Nobreza de alma não tem que ver com miséria ou riqueza, mas com caráter.

É o tipo de história que você não vai ver passando na Tela Quente. Aqui não tem fortões que explodem tudo furiosamente nem garotas sem-noção que tiram tudo velozmente.

Histórias como essa costumam degringolar para um vale de pieguice ou para uma escalada de violência grotesca. Mas não é o caso de Inverno da Alma, um filme que se mantém tão lúcido e íntegro em sua maneira de contar uma história emocionante quanto sua protagonista é capaz de sobreviver com dignidade.

2 comentários:

Marcos De Lazzari disse...

Dai Joezer, será que seu trabalho no independência fez com que 3 meninos se interessassem tanto pelo meu violino que acabaram levando sem pedir? hahaha... roubaram, mas já tá de volta...lembrei de vc... e se eu não encontrasse o violino , com certeza ia te procurar pois vc já me havia falado um pouco sobre esse trabalho, que aliás é corajoso e muito bom... parabéns...

joêzer disse...

trabalhei lá até setembro de 2010. obrigado.