27 setembro, 2011

to buy or not to buy: eis a questão da ExpoCristã


Todo ano surge o mesmo conflito sobre a ExpoCristã. É mercantilização dos bens religiosos simbólicos? Ou é simples comercialização de bens religiosos de consumo? Entre Deus e o mercado, entre a cruz e o chaveirinho evangélico, entre a Bíblia e a capa zebra-style de Bíblia, os evangélicos se perguntam: to buy or not to buy? (comprar ou não comprar, Hamlet perguntaria se, em vez de dinamarquês e com um crânio na mão, fosse um crente com cartão de crédito estourado).

    1. A ExpoCristã é mercantilização da religião?
A expansão do mercado gospel é acompanhada do aumento do poder de consumo das classes populares no Brasil e, claro, pelo grande número de igrejas neopentecostais. Há uma demanda dos consumidores religiosos por produtos que não apenas tragam conforto ou conhecimento espiritual, mas também por produtos que afirmem sua identidade evangélica (camisetas, sandálias, acessórios, todos com slogans evangélicos).

O professor Leonildo Campos, em Templo, Teatro, Mercado (Editora da Universidade Metodista/SP), avalia que a ética protestante de poupança foi substituída pela ética (neo)pentecostal de consumo. Para os puritanos de 200 anos atrás, o lucro não era pecado; para o cristão de hoje, consumir também não é um anátema.

Assim, ao contrário da ética de lucro e poupança que caracterizava a vida econômica ascética dos protestantes americanos dos séculos 18 e 19, e que estaria, segundo Max Weber, ligada à consolidação do capitalismo, hoje presenciamos uma ética do consumo que caracteriza a vida do evangélico. Leonard Orr e Sandra Ray anunciavam a seu público: “Deus é grande; as compras podem ser ilimitadas”. Sai Max Weber e entra Edir Macedo.

Por esse ângulo, e respondendo a pergunta acima, sim, a ExpoCristã pode mercantilizar símbolos religiosos, confundir o necessário com o supérfluo, ceder espaço aos vendilhões do templo, estimular tendências de moda e de música com base em números de venda, enfim, pode expor o cristianismo à sociedade como se este fosse um shopping da fé.

  2. A ExpoCristã é um bom e legítimo comércio de bens religiosos?
O cristão come, se veste, lê, ouve música, passeia, compra e vende. É alguém cujo cotidiano é muito semelhante ao de qualquer brasileiro. Qual é o problema se ele prefere vestir uma roupa comprada na loja de um irmão evangélico, ou ouvir músicas que falam da mesma mensagem cristã que o conforta e o alegra, ou ver o produto do seu trabalho ser adquirido por outros cristãos? Nenhum problema.

Há importantes músicos cristãos que não vão à ExpoCristã. De fato, a ExpoCristã dá preferência a cantores do circuito gospel. Não sei se outros cantores foram convidados e preferiram não ir até lá. Penso que, se um cantor defende uma postura estética e temática em sua música e tem chance de ir à ExpoCristã, ele deveria ir e mostrar sem ar de superioridade que há outras formas de fazer música e divulgar as boas novas.

É preciso reavaliar o pensamento de que mercado é blasfêmia e de que os consumidores são "manipulados" e incapazes de fazer boas escolhas. O comportamento humano é mais complexo do que pensam certos críticos do mercado gospel. Onde estão os comentários sobre pessoas que foram até a ExpoCristã e ouviram sua música favorita, adquiriram por um preço atraente um bom produto e foram para suas casas em paz? As pessoas vivem na inescapável lógica do capital, por isso, lucram (ou têm prejuízo) e poupam e consomem naturalmente. Portanto, do ponto de vista da simples aquisição de bens religiosos de consumo, sim, a ExpoCristã é legítima e deve ter seu espaço.

O comercialismo, a ganância, a má-fé, e até o mau gosto das capas de Bíblia com estampa de zebrinha e suporte para celular, são consequências de um evangelismo industrial, que opera segundo a teologia da prosperidade (prosperidade para os líderes) e segundo a lei de oferta e procura religiosa.  

O estímulo ao consumo chega a ser tão notório que alguns têm a impressão de que a diferença entre o Rock in Rio e a ExpoCristã é que, no Rock in Rio, você paga pra entrar e reza pra sair, e na ExpoCristã, você primeiro reza pra entrar e depois paga pra sair. O evangelismo vira marketing, a congregação se torna clientela, o fiel é transformado em fã e o cristianismo vira um slogan arrogante num adesivo de carro. 

Não se pode omitir essas coisas, ainda que este aspecto consumista venha a ser o mais visado pela mídia e por vários bons autores cristãos. Mas o questionamento das atividades do mercado gospel deve vir acompanhado da observação sem preconceito do consumidor cristão, senão corre-se o risco de generalizar e simplificar o diversificado comportamento evangélico, tudo temperado pela demonização do mercado e pelo exclusivismo religioso. 

2 comentários:

DeOlhO! disse...

Excelente post! Esse conflito de saber se Expocristã é "de Deus ou do Diabo" já é uma discussão velha e ninguém tinha dado uma visão tão ampla até hoje.

Parabéns, amigo! Você me inspira.

Marcelo Teus.

joêzer disse...

Marcelo,
é como dizia certa escritora: tem gente que só se satisfaz ou estando no fogo ou na água. precisamos mesmo equilibrar isso. tks.