16 setembro, 2011

pés descalços, olhos no céu


O compositor Heitor Villa-Lobos regeu um grupo de instrumentistas durante a famosa Semana de Arte Moderna, em 1922. Naqueles dias, um punhado de poetas, artistas plásticos e intelectuais se reuniu para manifestar sua desaprovação à tradição artística clássica que restringia sua liberdade de expressão. E mais ainda: demonstrar seu total repúdio a quem buscava imitar e macaquear a cultura estrangeira, em vez de deglutir antropofagicamente o estrangeiro e criar uma versão tupiniquim, com as caras do Brasil. Eles ansiavam por uma arte de características tipicamente nacionais. Tupi or not tupi?, bradava Oswald de Andrade.

Villa-Lobos se apresentou descalço durante um dos concertos. Foi o sinal para ninguém prestar atenção na obra, na regência, na música. Talvez só se falasse do maestro regendo descalço. Os tradicionais acharam um desrespeito. Os modernistas vibraram com o ato. Posso até imitar a prosa exaltada e hiperbólica dos modernistas e supor que eles reagissem assim: “Villa-Lobos desafia as convenções reacionárias e afigura-se qual nativo brasiliensis apropriando-se do código europeizado e regendo à moda tupiniquim, desancando a burguesia hipócrita que escamoteia a Terra Brasilis ao copiar trejeitos forasteiros”.

Mas que nada. Villa-Lobos estava mesmo era sofrendo com uma inflamação no pé e tirou os sapatos na hora de reger. Como de hábito, teve intelectual que deu um jeito de fazer que um problema físico se tornasse um ato de irreverência cultural.

Quando o lugar em questão é uma igreja, se um pianista/violonista/flautista não está de “sapato social fino preto”, talvez ele tenha esquecido, ou está com um calo ou só não tenha um bom sapato como você. Não olhe para os pés dele, caso o calçado não lhe deixe ouvir sua música. Trata-se de um instrumentista: olhe para as mãos dele!

No entanto, se esse mesmo instrumentista nunca se apresenta vestido de acordo com os códigos culturais socialmente construídos para determinado local, das duas, uma: ou ele ainda não passou da fase adole-modernista de desafiar códigos culturais ou é um joselito sem-noção que acha que seu “estilo” serve para qualquer ambiente. Oremos.

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