03 outubro, 2011

inventores, mestres, diluidores


O escritor Ezra Pound, em ABC da Literatura (Ed. Cultrix), propôs a existência de três classes de criadores:
1. Inventores: os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo;
2. Mestres: os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores;
3. Diluidores: aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos pra falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, nos anos 1940 Luiz Gonzaga desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão "bossa nova"), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Assim, a fronteira entre inventor e mestre me parece pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Voltando ao baião, se Luiz Gonzaga pode ser chamado de inventor (ou pioneiro de um novo processo musical), Jackson do Pandeiro e João do Vale seriam os mestres. E quando Ezra Pound fala em diluidores, as pessoas que não foram capazes de realizar tão bem o trabalho, isso é só um eufemismo para dizer que sempre aparece alguém pra degradar um estilo.

Olha a trajetória da música sertaneja: primeiro, vieram as duplas caipiras (como Tonico e Tinoco), depois os mestres Almir Sater e Renato Teixeira, em seguida, os neocaipiras Chitãozinho e Xororó, e agora, o sertanejo “universitário” que virou epidemia nacional. Como dizem pela internet afora: nem para o sertanejo universitário se formar logo e ir embora fazer pós-graduação no exterior!

No dicionário, “diluir” é misturar uma substância com algum líquido, desfazer. Diluir um estilo musical no Brasil é o ato de misturar qualquer gênero ou ritmo em água de pagode. Exclusivamente de pagode mauricinho dos anos 90, com todas aquelas bandas com um marmanjo de gola da camisa por cima da gola  do blazer cantando na frente com oito marmanjos vestidos iguaizinhos saracoteando atrás. A diferença é que agora são dois marmanjos de calça apertada. O sertanejo é a última vítima da pagodização da música brasileira.

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