08 dezembro, 2011

perdoa-me por não consumir


Logo após a II Guerra Mundial, o mundo estava falido, faminto e sem crédito. Mesmo o vigoroso parque industrial dos Estados Unidos via seu futuro ameaçado. Quem compraria os produtos fabricados pelos EUA? E onde os milhares de soldados que voltavam pra casa iriam trabalhar?

A solução veio de Victor Lebow, um consultor norte-americano especializado em varejo. A saída era a aceleração do ciclo de produção e consumo: “Nossa economia enormemente produtiva requer que façamos do consumo o nosso modo de vida, que convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais, que busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo. Nós precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa taxa continuamente crescente” (Carta Capital, ed. 675).

E assim se fez. Houve tardes e manhãs e substituiu-se a “economia de abastecimento” pela “economia de consumo”. E o parque industrial “curtiu” muito tudo isso.

A média de durabilidade de 99% dos produtos comercializados nos EUA é de seis meses. Antigamente, as pessoas compravam bens duradouros. Hoje, precisamos retornar constantemente às lojas. Não para reclamar de defeitos do produto, mas para adquirir o mesmo produto agora com outra cor, outro tamanho, outro acessório. O tempo de fossilização de um telemóvel (o celular) ou de um automóvel se conta em lapse-time, o lapso de tempo das imagens aceleradas.

A esse processo de rápido envelhecimento dos produtos chamamos de obsolescência planejada. Parece teoria da conspiração, mas na verdade, foi uma solução bem prática para o mercado. A questão não era mais só abastecer/vender para pessoas que não tinham determinado produto. O negócio do século XX foi vender o mesmo produto várias vezes para as mesmas pessoas.

Nossa economia está organizada para vender produtos para a porcentagem da humanidade que é capaz de comprar. Claro que sempre vai ter gente que faz como fazem os países falidos do Euro: tomam empréstimos para pagar dívidas. Ou seja, são cidadãos e governos que vivem de acordo com suas posses, ainda que tenham que se endividar para fazê-lo!

O círculo produção-consumo viciou a população: o povo para de comprar, o setor industrial para de produzir, o governo diz “sim” ao lobby dos eletrodomésticos e das montadoras e lá vem de novo a gritaria dos comerciais de carro, fogão e TV. Quer pagar quanto?

Mas eu já tenho! Mas o seu não faz isso, nem isso, nem é assim! Mas eu não posso! Mas nós parcelamos em suaves prestações! E aí, mesmo sabendo que “suaves prestações” são duas palavras tão inconciliáveis quanto “puxe/empurre”, você leva o produto.

Já nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Agora, nos dão cartões de plástico. E isso divide a doença em 24 vezes.

Mas se eu paro de ir às compras, a loja despede funcionários, e é mais gente que não irá mais ao shopping, e então as indústrias pedem um corte de juros ao governo, que corta os juros, o que me levará ao shopping, o que aumenta minha dívida no cartão, o que me fará parar de ir às compras, fará a loja demitir...

Parece até que a culpa pela falência mundial do capitalismo é minha. Endividado, vou lá quitar a honra do planeta. Digo ao atendente: “Perdoa-me por não consumir”. E pago. O gerente olha o débito quitado e me diz “Perdoadas estão tuas dívidas”. E saio. Uma voz difícil de atender me diz “Vai e não consumas mais”. E volto pra casa contrariado, mas aliviado. 

5 comentários:

Prof. Kelly disse...

Vc se inspirou no 'História das coisas'?!?!

Alessandra disse...

tb me lembrei "História das coisas" http://video.google.com/videoplay?docid=-7568664880564855303#

belo texto, "curti". Podemos estar tão ocupados em querer e ter e esquecemos de "ser".

joêzer disse...

kelly e alessandra, um mês atrás assisti esse curta da "história das coisas". deve ter vindo à tona meio inconscientemente na hora de escrever. o que me motivou a escrever foi uma matéria da Carta Capital dessa semana sobre consumo e meio ambiente. tks pela leitura!

Rogério - RJ disse...

Irretocável!

joêzer disse...

obrigado pela leitura, Rogério.