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a indústria musical morreu e foi pro céu

Mal os tubarões da indústria fonográfica se recuperam da “década do download”, que fez do CD um antiquado produto do jurássico século XX, chegou a vez do arquivamento musical na internet. Agora a audioteca fica na “nuvem”, num iCloud.

Os usuários não só estão deixando de comprar CDs nas lojas dos shoppings, mas também estão preferindo acessar o YouTube ou a Last.fm e ver o clipe ou ouvir a canção na hora que quiserem. A indústria da música está cega no tiroteio de um beco sem saída.

O desespero das empresas não abala todos os músicos. Ao contrário, muitos cantores e bandas estão percebendo que sua música serviu por muito tempo para o enriquecimento de megaempresários, para o bônus de executivos. É verdade que sem a equipe profissional de uma indústria que o mima com programação de turnês, jatinhos e farta publicidade, aumenta a insegurança do músico do ídolo.

Por outro lado, bandas que dificilmente teriam um lugar ao sol, veem seu trabalho ser amplificado pela repercussão nas redes sociais, que se encarregam de multiplicar a audiência. Pouco importa se divulgam o mau gosto da Maria-retuita-as-outras; o bom é que elas aumentam o público do Zé-ninguém. As redes sociais são muito mais democráticas. Nelas, o seu som se propaga na velocidade da luz. Eureka, dê-me um “share” e eu moverei o mundo.

Esse novo comportamento do público foi um dos temas discutidos no Festival South by Southwest 2012:
“...em tempos de internet livre [e do sistema em nuvens]: qual o valor justo para ouvir? A fórmula de um preço fixo, independente do perfil do usuário, não é uma ressaca da velha indústria musical? Os artistas conseguirão sobreviver com esse esquema?” [ver matéria do UOL]

Parece que estamos voltando ao modelo pré-industrial de comércio musical, quando os compositores do século XIX vendiam só o single (no caso, podia ser uma sonata ou uma sinfonia inteira), e não 10 músicas de uma vez. Ou voltando ainda mais para trás, quando o trovador vivia de “shows” em tabernas e cortes e, no tempo em que Gutemberg nem era nascido, todos armazenavam a canção na memória mesmo.

Os sistemas pagos de audição de música só renderão bons lucros se houver uma adesão em massa do público. Algo semelhante acontece com o ocaso das videolocadoras e o relativo sucesso no Brasil de empresas que alugam o filme pela internet ou de canais da TV paga que comercializam filmes. Estes, se dependessem de mim, seriam um fiasco, porque não vejo vantagem em adquirir um pacote do NOW, do Telecine ou da HBO, por exemplo, se pelo mesmo preço mensal eu alugo os filmes que eu quero ver e não os filmes que o canal quer que eu veja.

Outro problema discutido no festival: “a quantidade de dinheiro repassada para os artistas". No Brasil, as gravadoras e os escritórios de direitos autorais, como o ECAD, não são reconhecidos pela justa distribuição de dividendos. Na contramão da internet, o Ecad pretende passar a cobrar de blogs que incorporam vídeos do YouTube.

O número de usuários pagantes pode ser pequeno,  a porcentagem pode ser injusta, os escritórios de arrecadação de direitos autorais podem ser bons cobradores e maus pagadores. "Só o tempo dirá se streaming/cloud tem mesmo como "substituir" vendas de álbuns (sejam físicos ou digitais)”.

O sistema na “nuvem” tem outro lado bom para o usuário: o HD poderá não mais ser necessário. Adeus pendrives, DVDs ou backups! A nuvem será sua despensa musical e seu escritório virtualmente real. É só armazenar na nuvem e acessar o que você precisa de onde você estiver. É o sonho do internauta: tudo no mesmo lugar na hora que bem entender.

Outro lado da questão: quem realmente precisa da nuvem? E mais: o sujeito põe seu arquivo na nuvem e, na hora de ouvir seus MB de música no celular ou tablet de "onde ele estiver", a operadora vai virá-lo do avesso na hora de cobrar a conta! E mais: a venda de CDS e DVDs de música no Brasil representam 84% do faturamento do mercado fonográfico em 2011 (dados da Associação Brasileira de Produtores de Disco). 

A indústria musical morreu e foi pra nuvem? Tudo está mudando. Mas a música continua “on the air”.

*Trechos em itálico são citações da matéria do UOL (link acima).

**Notas do Gizmodo sobre o serviço de música na nuvem.  

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