Pular para o conteúdo principal

o analfabeto de um bilhão de dólares

O Brasil está indignado de novo! Tudo porque Thor, filho de Odin, digo, de Eike Batista, abriu seu coração e fez uma revelação à Veja Rio que escandalizou o país. Prepare-se, são palavras fortes, ditas sem nenhum pudor pelo varão herdeiro de uma fortuna cujos números também são impublicáveis.

Thor confessou em alta voz, sem enrubescer: “Nunca li um livro inteiro”. Isso foi demais para o leitor brasileiro. Logo o brasileiro, leitor educado e culto, responsável pelos 7,5 milhões de livros vendidos do Padre Marcelo. E vem um garoto dizer uma asneira dessa justo na pátria de Paulo Coelho!

Mas ninguém perguntou por que ele não conseguiu terminar um livro sequer. Analfabeto ele não é; nem deve ser culpa do supletivo que ele fez para completar o ensino médio. Por isso, eu tenho certeza que foi culpa dos livros. Tem muito livro ruim metido a besta na praça. O que inspira mais uma história para a seção das "Fábulas Menores de Moral Mínima" - episódio de hoje: O analfabeto de um bilhão de dólares:

Entre uma entrevista pro Fantástico e uma viagem de negócios à China, o atarefado pai do guri chamou um assessor e sentenciado, digo, encomendado:

“Pegue a lista da Veja dos 10 livros mais vendidos e compre todos para o Thorzinho, que é pra ver se ele larga do volante do Aston Martin DBS”.

E lá foi o assessor às compras. Ao chegar ao palácio de Asgard, digo, ao reino de Eike, digo (você entendeu), espalhou os exemplares por todos os cômodos da casa.

Ao voltar voando, no seu Aston Martin, para casa, Thor se deparou com um livro do Augusto Cury. Pegou, cheirou, abriu, leu cinco páginas e concluiu: “Não estou comprando sonhos. Meu pai já vende projetos”. Certíssimo! E foi conferir a quantas andava suas aplicações na Bolsa.

Ao abrir a gaveta do guarda-roupa de 18 portas, surpreendeu-se ao encontrar, entre suas 36 calças jeans, a biografia de Steve Jobs: “Vender aplicativo pra nerd é fácil. Quero ver é ficar rico vendendo carvão como papai. Além disso, mamãe sempre me dizia que a vida íntima dos outros não me interessa”. E foi fazer 88 flexões.

Thor passou o dia nessa caça ao tesouro ao avesso. Ele não procurava livros e os livros o achavam. Machucou a perna ao tropeçar nas mil páginas de A Guerra dos Tronos, teve náuseas só de ler o título Querido John, e quase começou a ler É Tudo Tão Simples, mas passou a vontade quando viu o nome da editora: Agir. “Enquanto vocês ficam lendo, chorando e achando que é fácil, papai age.”

Ao procurar o controle remoto no sofá, deu de cara com Os Segredos da Mente Milionária. “Vão sonhando”, resmungou, gentilmente, diga-se, por que além de boa-pinta, bilionário e deus do trovão, ele também é gente boa. E foi curtir as próprias fotos no Facebook.

Na hora de dormir, viu debaixo do travesseiro mais um livro. “Pra mim, chega. Não aguento mais ler capas. Esse é o último”.

Era um exemplar de O X da Questão. O autor, seu próprio pai. “Será que ele fala de mim, de mamãe?” Percebeu que o assunto era o próprio Eike quando leu o nome da editora: Primeira Pessoa. E foi dormir contando jatinhos.

Moral mínima da história: em terra de pobre sonhador, escritor de autoajuda é rei.

Moral mínima 2: em casa de bilionário, o autossucesso vale mais que mil palavras.

Outras fábulas menores, aqui.

Comentários

Anônimo disse…
Para um "analfabeto" o Thor escreve muitíssimo bem. Quem leu seus tweets explicando o caso do atropelamento percebeu isto muito bem.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta