28 março, 2012

o analfabeto de um bilhão de dólares

O Brasil está indignado de novo! Tudo porque Thor, filho de Odin, digo, de Eike Batista, abriu seu coração e fez uma revelação à Veja Rio que escandalizou o país. Prepare-se, são palavras fortes, ditas sem nenhum pudor pelo varão herdeiro de uma fortuna cujos números também são impublicáveis.

Thor confessou em alta voz, sem enrubescer: “Nunca li um livro inteiro”. Isso foi demais para o leitor brasileiro. Logo o brasileiro, leitor educado e culto, responsável pelos 7,5 milhões de livros vendidos do Padre Marcelo. E vem um garoto dizer uma asneira dessa justo na pátria de Paulo Coelho!

Mas ninguém perguntou por que ele não conseguiu terminar um livro sequer. Analfabeto ele não é; nem deve ser culpa do supletivo que ele fez para completar o ensino médio. Por isso, eu tenho certeza que foi culpa dos livros. Tem muito livro ruim metido a besta na praça. O que inspira mais uma história para a seção das "Fábulas Menores de Moral Mínima" - episódio de hoje: O analfabeto de um bilhão de dólares:

Entre uma entrevista pro Fantástico e uma viagem de negócios à China, o atarefado pai do guri chamou um assessor e sentenciado, digo, encomendado:

“Pegue a lista da Veja dos 10 livros mais vendidos e compre todos para o Thorzinho, que é pra ver se ele larga do volante do Aston Martin DBS”.

E lá foi o assessor às compras. Ao chegar ao palácio de Asgard, digo, ao reino de Eike, digo (você entendeu), espalhou os exemplares por todos os cômodos da casa.

Ao voltar voando, no seu Aston Martin, para casa, Thor se deparou com um livro do Augusto Cury. Pegou, cheirou, abriu, leu cinco páginas e concluiu: “Não estou comprando sonhos. Meu pai já vende projetos”. Certíssimo! E foi conferir a quantas andava suas aplicações na Bolsa.

Ao abrir a gaveta do guarda-roupa de 18 portas, surpreendeu-se ao encontrar, entre suas 36 calças jeans, a biografia de Steve Jobs: “Vender aplicativo pra nerd é fácil. Quero ver é ficar rico vendendo carvão como papai. Além disso, mamãe sempre me dizia que a vida íntima dos outros não me interessa”. E foi fazer 88 flexões.

Thor passou o dia nessa caça ao tesouro ao avesso. Ele não procurava livros e os livros o achavam. Machucou a perna ao tropeçar nas mil páginas de A Guerra dos Tronos, teve náuseas só de ler o título Querido John, e quase começou a ler É Tudo Tão Simples, mas passou a vontade quando viu o nome da editora: Agir. “Enquanto vocês ficam lendo, chorando e achando que é fácil, papai age.”

Ao procurar o controle remoto no sofá, deu de cara com Os Segredos da Mente Milionária. “Vão sonhando”, resmungou, gentilmente, diga-se, por que além de boa-pinta, bilionário e deus do trovão, ele também é gente boa. E foi curtir as próprias fotos no Facebook.

Na hora de dormir, viu debaixo do travesseiro mais um livro. “Pra mim, chega. Não aguento mais ler capas. Esse é o último”.

Era um exemplar de O X da Questão. O autor, seu próprio pai. “Será que ele fala de mim, de mamãe?” Percebeu que o assunto era o próprio Eike quando leu o nome da editora: Primeira Pessoa. E foi dormir contando jatinhos.

Moral mínima da história: em terra de pobre sonhador, escritor de autoajuda é rei.

Moral mínima 2: em casa de bilionário, o autossucesso vale mais que mil palavras.

Outras fábulas menores, aqui.

Um comentário:

Anônimo disse...

Para um "analfabeto" o Thor escreve muitíssimo bem. Quem leu seus tweets explicando o caso do atropelamento percebeu isto muito bem.