02 abril, 2012

o lugar da voz e a voz no lugar


A técnica do melisma ainda divide opiniões. Alguns acreditam que é um recurso de ornamentação da melodia que mostra o domínio técnico do cantor; outros pensam que se trata meramente de exibicionismo vocal.

Particularmente, acho que a técnica do melisma está ficando cansada. Em bom português, já deu o que tinha que dar. Não estou dizendo que o melisma será abandonado. Mas o esgotamento da técnica talvez possa aparar as arestas e deixar o canto mais límpido e simples.

O ponto central para o cantor é o lugar da voz, é onde inserir um recurso técnico. Os maus imitadores não sabem aonde colocar a voz e abusam do melisma. E aí, cada fim de frase, é um volteio; cada curva, uma cantada de pneu.

O melisma vem de longe. A música judaica é cheia de melismas. O canto gregoriano é também um canto melismático (como na gravura acima). O melisma árabe ou o melisma da black music americana podem ser usados na música cristã? Sim. O melisma pode se tornar um maneirismo chato e abusivo? Sim.

Muita gente diz que o uso do melisma reduz o louvor a um mero show e que os solistas abusam da liberdade para exibir todo seu virtuosismo. Alguns recomendam que o mais adequado é o canto simples entoado sem esforço e com clareza na pronúncia das palavras. 

Quando o anasalamento da voz é exagerado e a dicção é distorcida, de fato, certas palavras soam incompreensíveis. Clareza é absolutamente necessária. Muitos cantores americanos costumam distorcer a pronúncia de várias palavras. Ao cantar em português, alguns cantores brasileiros tentam reproduzir essa prática, mas raramente soa conveniente. Em geral, a atenção do ouvinte é desviada para a estranheza da pronúncia e, não raro, aquele trecho vira alvo fácil de piada e imitação de trejeitos.

Por outro lado, é bem provável que os críticos que acusam o melisma de ser uma exibição gratuita de virtuosismo apreciem a desenvoltura de um violinista ou de um pianista quando estes improvisam floreios e volteios em um hino ou em uma peça erudita. Parece que, quando há demonstração de habilidade instrumental, isso é excelência técnica, e quando há demonstração de habilidade vocal, então isso é exibicionismo profano.

Lembremos a oportunidade em que o cantor Leonardo Gonçalves foi convidado para cantar num show de Ed Motta. Ambos cantaram a belíssima música que Stevie Wonder fez para a filhinha (“Isn’t she lovely?”). Como todos sabem, Stevie Wonder nunca pode enxergar a própria filha, mas agradeceu a Deus pelo presente maravilhoso (aqui, a tradução da música). Ao final da canção, Leonardo e Ed começaram uma espécie de duelo de melismas.

Todos foram criticados: o cantor, o melisma e a canção.

Curioso como até mesmo quando um músico como Stevie Wonder faz uma canção em que agradece a benção divina da paternidade, certos evangélicos, em vez de elogiarem sua lembrança de Deus, só deram atenção ao estilo musical do qual não gostam!

Na mesma época, o violinista Paulo Torres, spalla da Orquestra Sinfônica do Paraná (e como Leonardo Gonçalves, também um artista cristão), acompanhava o cantor Andrea Bocelli em concertos na TV. Desnecessário dizer que não houve críticas.

Quando o cantor demonstra uma técnica apurada, ele é visto como um “surfista da voz”. Mas, e como ficam os surfistas do piano, da flauta, do violino?

As diferentes reações aos dois episódios que mencionei deram a impressão de que o direito ao virtuosismo é concedido exclusivamente aos intérpretes e instrumentistas de música erudita. Ao intérprete de música popular, reserva-se o direito de ficar calado.

Mas há uma diferença que eu gostaria de comentar. Essa diferença não está no estilo musical e nem na sinceridade do cantor ou do instrumentista. Está no “aonde”. Em que local é apresentada e para que se destina determinada música?

Leonardo Gonçalves e Paulo Torres foram ao terreno de reconhecidos cantores: o palco. Dentro da proposta de cada espetáculo, ambos se saíram muito bem. Mas digamos que eu fosse um pianista de verdade e que Ed Motta me chamasse para um duelo de improvisação ao piano. Certamente a qualidade da minha performance seria criticada, mas não o fato de eu demonstrar minha técnica pianística.

Diferente, porém, é o propósito da música feita por um cantor ou um instrumentista na igreja. O terreno é o púlpito. Nesse caso, sempre cabe a velha máxima: “Para a glória de Deus e o deleite dos irmãos”. Deus deve ser glorificado por meio da performance de um músico, o que inclui excelência técnica (de acordo com o talento e o esforço de cada um) e sinceridade do coração em louvar a Deus. As pessoas que ouvem devem ser elevadas espiritualmente e enlevadas artisticamente, o que nos faz voltar aos requisitos da excelência e da sinceridade.

Mas excelência e sinceridade não bastam. É preciso não só a consciência do lugar da voz na música, mas também da voz adequada para o lugar. 

Durante o ofertório, costuma-se apresentar música instrumental. Não penso que seja hora de fazer um medley de um noturno de Chopin com um hino. Mas é possível apresentar um hino tradicional ou uma canção contemporânea tocada ao modo erudito (ou em estilo contemporâneo que concorde com o que a congregação espera ouvir na liturgia do culto). Durante uma música cantada ao final de um sermão pastoral, não há razão inserir floreios vocais. Seria o mesmo que um pianista ficar fazendo glissandos e trinados como “fundo musical” de um apelo.

Ao participar dos momentos musicais de sua igreja, o músico cristão não pode perder o senso adequado do lugar onde está e do propósito da adoração. Ter sempre um cântico no coração nem sempre é suficiente. É preciso ter consciência da maneira mais apropriada de entoar um cântico para tantos corações reunidos no mesmo lugar.


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