17 fevereiro, 2015

o papa vai à periferia

Os movimentos do papa Francisco são acompanhados de perto pela mídia, pelos cristãos e pelas nações ocidentais sempre com muito interesse, ainda que os últimos papas tenham se destacado mais no campo da diplomacia política do que como vigilante moral do mundo. 

Não que os papas não tenham se preocupado com os rumos morais no Ocidente. Mas é reconhecidamente no pontificado de Francisco que se tem visto maior atuação em questões morais sociais e individuais.

Claro, vivemos num tempo em que as grandes questões ocidentais não estão na polarização ideológica da Guerra Fria, muito menos na polarização teológica de huguenotes e jacobinos. 

Por exemplo, no tempo em que o comunismo não era visto como opção ideológica, mas sim como ausência de moral patriótica e religiosa, o papa João Paulo II operou pouco discretamente para a derrocada do comunismo no Leste europeu. Até porque o papa era da Polônia, país bastante católico que depois de sofrer com o nazismo passou horrores com o comunismo.

Uma coisa, porém, era o irresistível apelo democrático e capitalista exportado pelos Estados Unidos via satélite. Outra coisa, era o apelo das comunidades “invisíveis” (a pobreza, a educação decadente, o tratamento aos imigrantes, o abandono das periferias). Essas questões espinhosas foram enfrentadas por alguns movimentos cristãos, como a Teologia da Libertação católica e o Evangelho Social protestante. Mas logo os adeptos perceberam que a igreja não iria se envolver de forma sistemática e institucional com essas questões.

Daí que a Teologia da Libertação e o Evangelho Social foram devidamente carimbados como movimentos de infiltração comunista. Pastores e padres envolvidos em causas sociais eram afastados de seus distritos ou paróquias. Isso foi nas décadas de 1960 e 1970, no auge das tensões políticas vividas em vários países sob ditaduras.

Naquela época, alguns tentavam casar marxismo com cristianismo; outros, desiludidos com a fé cristã, viviam sua ideologia como uma religião. 

Eis que surge o papa Francisco nomeando 20 novos cardeais (notícia aqui). Entre eles, cardeais da Etiópia, México, Vietnã e Mianmar. Somente um europeu e nenhum norte-americano.

Coerente com seu discurso contra a desigualdade de renda e a favor dos excluídos, o papa nomeou cardeais que operam alinhados ao seu pensamento. Nessa perspectiva, o símbolo do capitalismo selvagem, os Estados Unidos, e o símbolo da igreja elitizada, a Europa, são substituídos pelas regiões distantes dos grandes centros decisórios mundiais.

Mas se pode ver algo a mais. Entre os recém-nomeados cardeais, a maioria é proveniente de pequenas nações, em geral, pobres e subdesenvolvidas, e está envolvida com questões sociais, como o trabalho com imigrantes ou em zonas de extrema violência urbana. 

Mas é também nas periferias das cidades do chamado Terceiro Mundo que ocorre a expansão do pentecostalismo. As igrejas (neo)pentecostais têm se inserido com sucesso nas franjas urbanas e alcançado as malhas populacionais mais degradadas. O famigerado discurso da prosperidade não é o maior propulsor dessa expansão pentecostal; essas igrejas também são uma rede de proteção social, acolhendo os indivíduos marginalizados. Além disso, o sotaque popular e imediatista de suas práticas atrai grupos sociais que outras igrejas têm mais dificuldade para atingir.

Traduzindo as nomeações do papa: ele claramente se posiciona contra o envelhecido eurocentrismo e se direciona às periferias do mundo, tanto para enfrentar a miséria social quanto para competir com o avanço pentecostal.

Foto: Francisco e Bento XVI durante a cerimônia de nomeação de cardeais.

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