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Whitney Houston e o maior amor de todos

"I believe the children is our future / ensinem-nas e deixem-nas liderar o caminho / mostrem toda a beleza que elas possuem dentro de si"

Se terminasse aqui, a letra da canção “Greatest Love of All” seria um guia para a educação de crianças.

No último dia de janeiro, Bobbi Kristina Brown, 21 anos, única filha de Whitney Houston e do rapper Bobby Brown, foi encontrada inconsciente dentro de uma banheira. Alguns jornais chegaram a noticiar sua morte cerebral. 

A coincidência trágica é que, em fevereiro de 2012, a mãe Whitney foi encontrada morta numa banheira num hotel em Beverly Hills. Ainda mais coincidentemente sinistro é que, um dia antes da morte de Whitney, a filha Bobbi teria sido encontrada inconsciente na mesma banheira. 

A garota sofria de grave depressão e impulsos suicidas. Vivendo num turbilhão emocional incessante, parece ter faltado adultos que seguissem aqueles versos da canção.

"Nunca encontrei alguém que preenchesse minhas necessidades / Então eu aprendi a depender de mim / Não importa o que eles tirem de mim / eles não vão tirar minha dignidade"

Se terminasse até aqui, a canção seria um grito da autoestima que não se abate com solidão e preconceito.

Cantora de dotes excepcionais, Whitney tinha pedigree vocal – sua mãe era cantora gospel, sua prima era a estrela Dionne Warwick e sua madrinha era Aretha Franklin. Sucesso fenomenal aos 20 anos, do qual faz parte o disco com a canção “Greatest Love of All”, suas necessidades de artista foram todas preenchidas pelo produtor Clive Davis. Em 1992, ela estrelou o filme O Guarda-Costas e cantou mais um hit mundial, a canção “I Will Always Love You”.

Ainda em 1992, Whitney se casou com Bobby Brown e não saiu mais dos tabloides sensacionalistas, tanto por sofrer agressões do marido quanto pelo envolvimento com drogas. Nos anos 2000, admitiu que passou os anos 90 afundada nas drogas. Estava falida financeiramente. Após sair da clínica de desintoxicação, Whitney namorou o rapper Ray J, que se revelou péssima companhia para uma mulher que estava tentando reconstruir a carreira e a dignidade.

Faltou a Whitney um companheiro como o seu par romântico no filme O Guarda-Costas. Infelizmente, ela não encontrou alguém para preencher suas necessidades. Pior, acabou perdendo a dignidade que cantara em letra e música.

"I found the greatest love of all inside of me [eu encontrei o maior amor de todos dentro de mim] / O maior amor de todos é fácil de descobrir aprendendo a amar a si mesmo"

Esse refrão parece um hino à autoconfiança para enfrentar desafios e temores, e gosto de pensar que seja. Por outro lado, não deixa de ser uma espécie de canção para a geração selfie, que em seus piores caracteres é narcisista, egoísta e sofre de ilusão de independência.

O refrão soa como peça de autoajuda, que não é descartável se não for tida como a solução dos problemas. O refrão parece descartar mesmo é a ajuda do Alto. Ao dizer que o maior amor de todos é o amor por si mesmo, a canção se encontra em polo oposto à proposição cristã: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a vida por seus amigos” (João 15:13).

Mas quem são esses amigos? Verso 15: Vós sereis meus amigos se fizerem o que vos mando. E o que Ele manda? Verso 17: Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros

A circularidade do pensamento de Cristo em conversa com seus discípulos leva à constatação segura de que o maior amor de todos está em esvaziar-nos de nós mesmos para amarmos uns aos outros. Há muitas músicas sobre o amor ao próximo, embora não se veja tanto esse amor em ação por aí.

Mas há poucas músicas sobre a ação de dar a vida em favor dos outros. Se esse "maior amor de todos" é raro na música e no cotidiano dos seres humanos, não preciso ir mais longe para perceber Quem foi capaz de um amor assim.


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