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Meninos, eu ouvi


Meu apreço pela arte musical (desde a infância) e pela sétima arte (desde a pós-adolescência) é do tipo que leva a ler a respeito. Conhecer a história de músicos e suas músicos, como elaboravam suas obras, como a sociedade as recebia, tudo isso me levava a um outro patamar de conhecimento. Não superior, apenas mais abrangente. Com o cinema foi a mesma coisa. Eu queria entender o funcionamento de tudo aquilo, do roteiro à edição, da fotografia à cronologia. E claro, entender a música e sua função nos filmes.

Por isso, não entendia como alguns colegas de faculdade ou professores de artes ou de música apreciavam a música brasileira ou americana mais sofisticada ao mesmo tempo em que preferiam os filmes de entretenimento mais simplório. Em poucas palavras, eles diziam apreciar as canções de Chico Buarque, Tom Jobim ou João Bosco, e revelavam preferência pela série Rocky e não gostavam de filmes em preto e branco.

Compreendi que se tratava de uma simples questão de acesso. Eles desenvolveram uma apreciação crítica em relação à música popular, mas nunca tiveram uma educação – formal ou informal – sobre cinema. Não tenho bases empíricas para o que contei. Foi uma experiência que se deu com colegas ou pessoas mais próximas na profissão.

Pode ser uma falha do conteúdo das aulas de educação artística ainda no colégio (a coordenação escolar os vê como animadores e decoradores de eventos). Eu tive sorte e curiosidade. Aí vai uma lista não de melhores, mas de sons e imagens que ofereceram a oportunidade da elevação do espírito e da reflexão – não importa se temperada com narrativa simples ou metáforas complexas.

Meninos, eu vi

Sangue Negro (2007), de Paul Thomas Anderson – o embate e a sociedade entre mercado e religião nos Estados Unidos mostrados com um trabalho de fotografia único e uma trilha sonora fabulosa. Os primeiros vinte minutos não têm um diálogo sequer e são grande metáfora da civilização construída com o domínio da natureza e, infelizmente, com o uso da violência.

Ratatouille (2007), de Brad Bird – poucos filmes possuem um monólogo final tão precioso, aquele em que a soberba se rende à simplicidade (não ao simplório e mal-feito) e se aprende a olhar além das aparências.

O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin – eu já conhecia, mas meus filhos ainda não tinham sido apresentados a um dos grandes criadores da humanidade em qualquer tempo.

A Maçã (1998), de Samira Makhmalbaf – não sou fã do cinema iraniano, mas este é um exemplar que apreciei bastante.

Tempo de Glória (1989), de Edward Zwick – a nobreza de caráter e a firmeza de propósitos não têm cor e nem etnia. A história do primeiro batalhão formado por negros durante a Guerra Civil americana é contada com eficiência, emoção e ótima trilha sonora.

Nashville (1975), de Robert Altman – uma sátira devastadora do culto à celebridade, da vida artificial das estrelas da música e da falta de interesse político dos americanos em plenos anos 70.

Meninos, eu ouvi

Novo Tom ao vivo – arranjos, canções e vozes num sopro de excelência artística.

Cantata Herói da Fé – uma cantata que mereceria aplausos dos espectadores da Sala São Paulo acostumados à erudição musical das obras sacras.

É Proibido Pensar, de João Alexandre – referências pouco sutis à mercantilização da religião e pensamentos de paz e devoção envolvidos por arranjos sóbrios e delicados.

Lida, de Yamandú Costa – com a companhia do violino de Nicholas Krassik e do baixo erudito de Guto Wirtti, o excepcional violonista Yamandú confere virtuosismo às tradições musicais gaúchas.

O site medici.tv oferece concertos gratuitamente por trinta dias (depois, só comprando) . Pude ver a magnificência da lenda viva Pierre Boulez regendo a Orquestra Nacional da França em O Pássaro de Fogo, de Stravinski; assisti também a Sinfônica de Berlim, sob a regência de Simon Rattle tocando a Sinfonia nº 3, de Brahms – não vou esquecer o terceiro movimento, lento e belíssimo, tocado pelas cordas enquanto os outros instrumentistas da orquestra o ouvem com solene comoção.
Abertura Concertante e Sinfonias 2 & 3 de Camargo Guarnieri – álbum prodigioso da OSESP. a qual teve a honra de entrar para o quadro das 20 melhores orquestras do mundo em lista elaborada pela revista especializada Gramophone em fins de 2008.

Sinfonia nº 15, Shostakovich – da irônica citação à abertura da ópera Guilherme Tell ao final fantástico, esta sinfonia é Shostakovich em altíssimo nível (como se ele não operasse sempre em nível alto).

Sinfonia dos Salmos – ao fazer as pazes com o cristianismo, Igor Stravinski entregou uma obra nem sempre fácil de ouvir, mas que certamente expressa sua profissão de fé musical e religiosa.

Happy new year, happy new ‘ears’!

Acima, O celista, de Robert Doisneau

Comentários

Jayme Alves disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Jayme Alves disse…
O fato de você apontar o projeto "Novo Tom Ao Vivo" e a cantata "Herói da Fé" como duas experiências auditivas marcantes de 2008 (também foram para mim, embora preferisse que a cantata tivesse um registro mais digno da sua grandeza) oferece mais uma prova da posição de destaque do UNASP-EC como um dos pólos de excelência na produção da música cristã nacional.

Além do Novo Tom (provavelmente o melhor grupo vocal evangélico em atividade) e de Lineu Soares (com a maturidade presenteada pelos anos e as ótimas parcerias na criação e produção - Valdecir Lima, Mário Jorge, Regina Mota, Edison Sopper... - tornou-se talvez o músico adventista com o trabalho mais relevante desta década), lá estão abrigados os ótimos CORAL UNASP e CORAL JOVEM DO UNASP (para comprovar, basta ouvir álbuns como "Eu Acredito" e "Juntos Pra Sempre") e uma promissora constelação de jovens compositores e músicos que ainda estão ou já estiveram vinculados à instituição , tais como: Daniel Salles, Cleverson Pedro, Cândido Gomes, Delmar Reis, Felipe Tonasso, Willian "Todynho" San'Per, Tiago e André Arrais... cujo trabalho tem vicejado em vários CD's.

Também vale destacar as aventuras solo de talentos que foram lapidados lá: Riane Junqueira e Tiago & André Arrais lançaram, em 2008, CD's nos quais mostraram inegável competência e, para 2009, já estão prometidos, pelo menos, os CD's de Joyce Carnassale e Laura Morena...

Imagino que essa é apenas a ponta audível de tudo o que lá acontece musicalmente, assim como tenho consciência de que outras grandes intituições de ensino (IANE e IAP, por exemplo, também acenam com grupos e projetos de qualidade) guardam muitos talentos (alguns dos quais compôem hoje a constelação do UNASP-EC), mas não possuem condições para colocá-los numa vitrine nacional.

Cabe a nós pedir a Deus que continue a abençoar tais lugares com a unção musical e que Ele desbrave trilhas pelas quais a riqueza sonora neles produzida possa ser distribuída a um número cada vez maior de ouvidos.

Obs.: Apesar de toda a admiração, deixo registrado que nunca fui aluno do UNASP.
joêzer disse…
Também lamento o fato da bela cantata Herói da Fé não ter recebido um suporte de aúdio e vídeo à altura.
Talvez a complexidade e a erudição da obra não lhe garantam a popularização merecida.
Matheus Siqueira disse…
Acredito que sua observação quanto a inacessibilidade da sétima arte foi muito preciso! São raríssimas as exibições, fora dos grande centros urbanos, de filmes que merecem realmente o status de arte.

A internet nesse quesito ajuda muito aquele que quer conhecer mais a respeito e assistir aos filmes que de outro modo não estariam disponíveis (aqui dá para entrar na discussão de pirataria x distribuição de produtos culturais, mas é melhor deixar de lado..rsrs.)

Abraço!

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