21 janeiro, 2009

casa de vidro, vida de ficção

Dentro, eles vão de um lado para outro, fazem gracinhas, se exibem por todos os cantos. Fora, uma platéia acena, sorri das brincadeiras, se diverte e fotografa, mas não pode dar comida a quem está dentro.

Cena de um domingo no zoológico? Na verdade, são 4 candidatos disputando uma vaga no concurso mais concorrido do início de cada ano: o de entrar na casa do Big Brother Brasil. Embora, se bem comparando, qual seria mesmo a diferença entre os gorilas do zoo e os concorrentes do BBB? Maíra, uma das duas distintas moçoilas disputantes diz, meio constragida: “É, me sinto como um macaquinho”. O constrangimento é menor do que a frase e ela logo volta ao seu papel de... bem, ela que disse!

A jaula lhes permite ver quem está de fora, quem está fora acena pedindo uma gracinha, os de dentro respondem tirando parte da roupa, a malta se agita querendo ver o espetáculo dos homens ocos e das alegres comadres da casa de vidro. Tudo por um milhão? Ajuda, mas para eles basta a glória de aparecer, mãe, eu tô na Globo!

Hoje, se promete mundos e fundos para sair do anonimato, para deixar de ser um invisível social. O anônimo parece necessitar do reconhecimento nacional para ser alguém, pois a invisibilidade o perturba, o entedia, ele se sente um ninguém. A platéia, em rede nacional, não deixa de ser esse invisível que quer se tornar visível também, seja quando vai levar pipoca aos macacos, digo, aos nobres concorrentes, ou quando liga para escolher qual o bichinho de estimação que mais aprecia.

Alguém dirá que tudo é apenas brincadeira (e que foi crescendo, crescendo e absorvendo milhares de fãs). Mas um teórico de cenho franzido vai dizer que vivemos na era do simulacro, da vida representada como se fosse real e da vida real contada como se fosse ficção. Descontando o cenho franzido, ele está certo. O espécime BBB entra na casinha de bonecas do Bial para representar um papel e no fim já não sabe se ele está atuando para viver ou se sua vida já é uma atuação, um ato teatral sem the end. Do lado de cá da telinha, o público, cansado das novelas da vida, quer assistir agora a vida como se fosse uma novela.

No grande O Show de Truman, o Truman do título vive numa cidade de vidro filmada 24 horas por dia. Truman não sabe, mas já nasceu célebre e sua vida é uma representação diária. Todos que interagem com ele são coadjuvantes e figurantes. Como o ser humano vive de pão, liberdade e curiosidade, Truman vai tentar sair da redoma que chama de casa, não sem antes perceber que está enjaulado, embora não se sinta num zoológico simplesmente porque não sabe que existe uma ávida plateia que acompanha sua odisseia.

Truman é alguém fora de sintonia em relação ao seu lugar (de ficção) e tempo (a era do simulacro). Seu nome, algo como “homem verdadeiro”, diz muito sobre a época da aparência em que vivemos: Truman é o homem de verdade cuja vida é mentira. Ele quer sair para a vida real como ela existia antes da ficcionalização virtual da vida. Ao contrário dos bigbrothers, que anseiam viver uma vida em eterna representação da vida.

Truman não quer mais aparecer como se fosse Truman, ele apenas quer ser Truman sem mentiras aparentes. Ele quer deixar de ser o célebre visível e misturar-se aos simples anônimos; já os bigbrothers e congêneres desejam sair da invisibilidade social e alcançar a fama perene enquanto dure.

O fã que hoje beija, mais tarde apedreja com o esquecimento. Restará ao ex-big e esquecido brother cantar que a casa que tu me deste era vidro e se quebrou e o amor que tu me tinhas...

Na foto acima, há uma inscrição numa camisa que fala por si: professional vagabond. Carece tradução?

Leia também "a casinha de bonecas do Bial".

8 comentários:

Rdriigo disse...

Muito bom o post.

Gostei por lembrar de Truman, é como dizem, a verdade dói, e o ser humano não gosta de sofrer, prefere morrer pobre e ignorante pensando que rei do mundo.

Lux disse...

Gosto de vir aqui, embora tenha descoberto esse cantinho bom só há pouco tempo. Seus textos são muito gostosos de ler, mesmo quando falam sobre... macaquinhos desinteressantes, hehehe. Abraço.

Nika disse...

Fico pensando o que motiva tantas pessoas a irem tão longe, e o que mais poderiam se propor a fazer por fama e dinheiro.
E afinal o que é fama e dinheiro?
Por que é tão importante ser conheçido e querido por todos, ter um elevado poder aquisitivo?

Vejo isso como simples carencia, carência de amor do próximo, por que temos a necessidade de mostrar como estamos aos outros, se não por isso?
Tem uma musica do "Cd entre elas" que diz:
"PARE UM MINUTO, OLHE AO REDOR, EXISTEM PESSOAS QUE PRECISAM DE VOCÊ! DÊ UM SORRISO A ALGUÉM VC NÂO SABE O QUANDO ISO FAZ BEM..."

Somos a luz do mundo, não devemos nos esquecer disso, nossa missão é iluminar a todos. Mesmo que estejam em jaulas de vidros. São pessoas enganadas, não passam disso.

Gostei muito do post!
Parabéns!

joêzer disse...

rdriigo (é assim que está escrito),
o show dos truman e das trugirls não pode parar.

lux,
pior é que pra cada macaquinho desinteressante tem mil fãs superinteressados votando.

Anônimo disse...

acordou meio Jean Baudrillard hoje? hehe

joêzer disse...

rsrs. eu tinha acordado meio guy debord, mas lembrei que ele levou seu pessimismo tão a sério que se suicidou. aí optei pelo baudrillard.

abs

coisasdestavida disse...

Parabéns!

Ótimo texto!

Como sempre...

Lídia

Thiago Ferreira disse...

E Ai Joeser, sou o Thiago la da igreja. Falei com no culto da ultima quarta, sobre o meu blog que mantenho com Daniel Freitas. O link é:
www.impactojovemiasd.blogspot.com

vamos conversando por ai, da uma olhada nos post de lá e prepara algo pra gente. [rsrsrsr]
Valew.
Abrassss