23 janeiro, 2009

ateístas, graças a Deus

Pode ser qualquer dia, porque todo dia é dia de sair e irradiar a verdade. Eles vêm de dois em dois, irmanados num só ideal: o de falar do que descobriram. Eles batem na minha porta e me desejam bons dias e entregam panfletos e me perguntam da verdade e me dizem até mais ver e me deixam perdido em meus pensamentos.


Não sou profeta nem filho de profeta, mas não vai tardar e os ateístas protagonizarão essas cenas. Tal e qual um evangelista que apregoa de porta em porta, eles irão até sua casa lhe anunciar as novas da inexistência de Deus. O IDE deles já circula nos ônibus londrinos (foto): “Provavelmente não há Deus. Agora pare de se preocupar e aproveite a vida”.

Faltou colocar que “agora seus problemas acabaram”. O avivamento ateísta já não dispensa nem as táticas evangelísticas de publicidade nos veículos e logradouros públicos. Mas o “provavelmente” da frase deixa o destinatário da mensagem um tanto confuso. Afinal, o transeunte pode parar na rua para elocubrar sobre a função desse "provavelmente". Se provavelmente Deus não existe é porque estão lhe dizendo ao mesmo tempo que provavelmente Deus existe. E, sendo a rua o local onde circulam carros, motos e até ônibus com propagandas ateístas, o pensante se arrisca a sofrer um acidente e ainda culpar os organizadores do anúncio.

O mote ateísta inscrito nos ônibus generaliza os grupos religiosos como um bloco monolítico de infelizes que não aproveitariam a vida (enjoy the life). O que seria esse aproveitar a vida? Festas sem fim, baladas intermináveis, sexo casual, falar palavrões, assinar a Playboy, ir comprar pão usando o abadá do Chiclete com Banana, trespassar o nariz com piercing, se vestir como a Mulher-Melancia, gabar-se de dirigir alcoolizado na madrugada, gritar uhuuu por qualquer coisa?

Se isso for aproveitar a vida, obrigado, não.

Mas, para alguns, é muito conveniente que Deus não exista. Os hedonistas não teriam prestar contas de suas obras e de seu caráter e os humanistas não teriam a intromissão de um Deus pessoal em suas confortáveis vidas. No fundo, os ateus até aceitariam a existência de Deus, desde que Ele não lhes desse a carga do livre-arbítrio, mas somente paz e um cadinho de sofismas sobre os quais conversar.

Às vezes, os descrentes (e os crentes também) se assemelham àqueles adolescentes que fingem que seus pais não existem e se envergonham de apresentá-los aos amigos. Por isso, se diz que o adolescente é a vingança de Deus sobre as criaturas: "Farei um ser à imagem e semelhança do homem e que mais tarde negará a existência dele".
Atualização:
Alguns comentários abaixo expandem o pensamento contido nessa postagem, inclusive contestando alguns pontos do texto. Recomendo.

13 comentários:

coisasdestavida disse...

Muito bom!

Gosto muito da forma como você escreve, perfeito.

Parabéns!

Feliz Semana!

Lídia

joêzer disse...

agradeço a gentileza, lidia.

Anônimo disse...

Satirizando um pouco...

Chances de um ateu acreditar em Deus:

0% - Discutindo com alguém
20% - Atrasado para o trabalho
40% - Natal
60% - Sendo seguido pela polícia
80% - Quando não estudou para a prova
100% - Vendo futebol

sergio maia disse...

rsrs.
como diz um amigo (candidato a agnóstico), na hora do perigo não existe ateu.

Talvez... disse...

Lembre-se que o "aproveite a vida" não precisa ser necessariamente ações negativas... aproveitar a vida pode ser se sentir livre da culpa eterna, ter um relacionamento homossexual (talvez alguns ainda considerem isso algo negativo), dar uma educação laica aos filhos, usar roupas comuns, doar e receber sangue e apoiar a pesquisa com células tronco... e o melhor, acabar com todos os conflitos de origem religiosa. Seria demais, não acha?

joêzer disse...

amigo,
acho que poucos classificariam o debate sobre células-tronco como um "aproveitar a vida".
e os homossexuais talvez se ressentissem de apontarem seu modo de viver como "aproveitar a vida" (frase que tradicionalmente se usa para chamá-los de hedonistas incorrigíveis).
usar roupas comuns é aproveitar a vida? talvez vc se refira, como no caso de doar sangue ou não, à denominações religiosas extremamente sectárias e punitivas.

o problema talvez esteja no sentido que damos à expressão aproveitar a vida. O individualista exagerado diz que pdoe fazer tudo o que quiser e não dar conta a ninguém pois só está aproveitando a vida.

mas, certamente, como você bem mencionou, há ações positivas no que chamam de aproveitar a vida.

um abraço

Anônimo disse...

Excluindo os exemplos, é claro.

joêzer disse...

ainda penso que alguns dos exemplos que vc usou não estão relacionados a 'aproveitar a vida'.

entendo que a preocupação está relacionada principalmente ao fato da culpa, essa senhora desprezível.

mas o 'aproveitar a vida' para os cristãos é repleto de ações positivas assim como o "aproveitar a vida' dos ateístas inteligentes rejeita o hedonismo e a extravagância.

claro, sempre há ateístas/humanistas que desprezarão os valores morais e a liberdade de pensamento, quando deveriam ser os últimos a fazê-lo. e também há quem, em nome de Deus, despreze princípios e liberdades, quando devia ser o primeiro a conserva-los.

um cristão honesto dirá que após sua conversão é que realmente começou a viver uma vida livre e sem culpa. um ateu sério não dirá que a descrença na existência de Deus é que o leva a viver a vida sem culpa.

seu precioso comentário me levou hoje a escrever um outro texto no blog. dessa vez, alguns cristãos podem incomodar-se.

Tatsu disse...

Na verdade eu até acho engraçado agora essa abordagem, quem sabe daqui a pouco teremos programas ateístas na TV aberta, aí ao invés de ficar assistindo o R.R.Soares ou a "Nação dos 318 pastores" eu não passe por Atheist Existence (http://youtube.com/watch?v=JJxCFa8YmbQ) em meio a vinhetas com Dawkins chamando a galera para "sair do armário" (http://youtube.com/watch?v=gYdUcJQba2I).
Se não há ao menos deveria haver espaço para todos, não acha?
Sem necessidade de se desesperar e partir para loucuras do tipo: "Mas o “provavelmente” da frase deixa o destinatário da mensagem um tanto confuso. Afinal, o transeunte pode parar na rua para elocubrar sobre a função desse "provavelmente". Se provavelmente Deus não existe é porque estão lhe dizendo ao mesmo tempo que provavelmente Deus existe."
(Deus de Schrödinger ?)
=))

Quem sabe daqui a pouco não começamos o domingo de manhã assim: http://youtube.com/watch?v=WxvjMxDtuAQ

Abrindo espaço para todos, podemos não somente ensinar criacionismo nas escolas, talvez devamos ensinar tb Kardecismo, quem sabe as crianças não deveriam ler junto com Darwin, Exilados da Capela e o Livro de Urantia.

Aí cada um poderia escolher a teoria/religião/não-religião que mais lhe agradasse.

Só para concluir, não acredito que ensinar criacionismo na escola vá melhorar alguma coisa, acho que a qualidade do ensino tem mto a melhorar antes sequer de ensinarem teorias científicas decentemente, e qdo digo científica excluo o criacionismo, pois não vejo como dissociá-lo da religião, e religião, é religião, ciência é ciência.

;)

See ya

joêzer disse...

tatsu,
não partí para o desespero na minha frase, nem no texto. no máximo, consegui fazer uma ironia sem graça.
a sua, sobre ateístas na tv no lugar de rr soares (why not?) é bem melhor. mesmo.

Zázu disse...

Não sou ateu, mas vou tomar parte ante ao elogio da loucura...

Primeiro: “Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender por que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá por que rejeito o seu.” Stephen Henry Roberts

Segundo: “Os crentes não acreditam nas religiões e nos deuses dos outros. Os ateus também não.”

Ou seja, não percebem a si mesmos e ficam ambos os lados a degladiar-se ridicularmente. Um capricho pacional e carregado de preconceitos (dos dois lados), mas um lado que conheço bem, dada a minha obrigação (livre-arbítrio?) de aprender a olhar o outro como ímpio e pecador nos primeiros 16 anos da minha vida. Mas isso ainda merece meu respeito e admiração, pois é justo que sejamos ensinados na fé de nossos pais. Só esqueceram de ensiná-los que um filho é um indivíduo que tem cérebro e pode fazer escolhas diferentes das de seus pais.

Desafio aqui a quem quer que seja, que faça uma visita ao pai da garota que foi jogada pela janela do apartamento. Vá até a frente da delegacia, junto àquela turba de pessoas que querem linchá-lo. Entreviste as pessoas porque estão ali e pergunte a elas: você é ateu?
Não há ateus lá com pedra na mão para fazer a justiça de Deus. Se houver, qual será a proporção? de 100 pra 1? muito "PROVÁVEL". Está aqui o desafio, e posso ir junto para entrevistar. Espero estar errado, mas acho difícil.
Nas baladas aproveitando a vida?
A mesma proporção 99 católicos e etc(cristãos que creem em Deus) pra um ateu, no máximo.

Esse aproveitar a vida que você citou, aquela listinha de safadesas desapropriadas dá-se a ateus e não-ateus, e garanto que encontrarás a quantidade de não-ateus na proporção que eu mencionei. Vamos nas baladas pra provar? (está lançado o desafio)
Da próxima vez que encontrar um bêbado na rua pergunte a ele: Crês em Deus? (é triste)

Principalmente ao intelectual, não é possível que não se aperceba que a lei moral é válida para todos os homens, independente de sua religião ou não-religião. Como por caso eu li Kant, vou transcrevê-lo aqui.

"...Toda a gente tem de confessar que uma lei que tenha de valer moralmente, isto é, como fundamento duma obrigação, tem de ter em si uma necessidade absoluta; que o mandamento: "Não deves mentir", não é válido somente para os homens e que outros seres racionais se não teriam que importar com ele, e assim todas as restantes leis propriamente morais; que, por conseguinte, o princípio da obrigação não se há de buscar aqui na natureza do homem ou nas circunstâncias do mundo em que o homem está posto... ...preceitos baseados em princípios da simples experiência, e mesmo um preceito em certa medida universal, se ele se apoiar em princípios empíricos, num mínimo que seja, talvez apenas por um só móbil, poderá chamar-se na verdade uma regra prática, mas nunca uma lei moral.
...Pois que aquilo que deve ser moralmente bom não basta que seja conforme à lei moral, mas tem também que cumprir-se por amor dessa mesma lei.
...o valor do caráter, que é moralmente sem qualquer comparação o mais alto,consiste em fazer o bem, não por inclinação, mas por dever.
Ponhamos, por exemplo, a questão seguinte: - Não posso eu, quando me encontro em apuro, fazer uma promessa com a intenção de a não cumprir? ... ou seja, se é prudente, ou se é conforme ao dever, fazer uma falsa promessa...
...para resolver de maneira mais curta e mais segura o problema de saber se uma promessa mentirosa é conforme ao dever, preciso só de perguntar a mim mesmo: - Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima (de me tirar de apuros por meio de uma promessa não verdadeira) tomar o valor de uma lei universal (tanto para mim como para os outros)? E poderia eu dizer a mim mesmo: - Toda a gente pode fazer uma promessa mentirosa quando se acha numa dificuldade de que não pode sair de outra maneira? Em breve reconheço que posso em verdade querer a mentira, mas que não posso querer uma lei universal de mentir; pois, segundo uma tal lei, não poderia propriamente haver já promessa alguma, porque seria inútil afirmar a minha vontade relativamente às minhas futuras ações a pessoas que não acreditariam na minha afirmação, ou, se precipitadamente o fizessem, me pagariam na mesma moeda. Por conseguinte a minha máxima, uma vez arvorada em lei universal, destrui-se-ia a si mesma necessariamente.
Não é preciso pois de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venha a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: - Podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? Se não podes, então deves rejeitá-la, e não por causa de qualquer prejuízo que dela pudesse resultar para ti ou para os outros, mas porque ela não pode caber como princípio universal."
(Kant)

Logo, a frase do ônibus "aproveite a vida" não é nada dos absurdos que você citou. Porque?

É o ponto que insisto. A lei moral vale para todos. Demonstre isso para um crente e um ateu e ambos hão de concordar que há um princípio moral universal.
Logo, a sua lista para "aproveitar a vida" é carregada de preconceito ignóbil ensinada doutrinariamente na igreja (disso eu sei porque lá estive). E ainda tem coisas na sua lista que são mais de gosto pessoal do que propriamente ações imorais. Esse julgamento é detestável. Porque não gosto de sorvete de chocolate, quem gosta é um pilantra safado? Não, de jeito nenhum.
É urgente uma revisão espiritual para que o homem alcance Deus com o seu espírito e lave a alma de juizos aterradores e inocentes.

Deus é criador e mantenedor. É a providência estabelecida por uma lei perfeita. Um Deus individual eram os faraós e nabucodonosor. Estes, cheios de complexos exigiam louvor e adoração. Deus, o Deus mesmo que tudo criou não tem desses complexos, louvá-lo é compreendê-lo, é estar com ele numa relação sublime entre seres distintos e morais. Curvar-se a Deus (com o mesmo propósito dos súditos de um rei) caracteriza a falta de entendimento da natureza de Deus. Um Deus individual não é garantia de cumprimento de lei alguma, há um princípio moral!

O princípio moral é para todos. Antes do fato de Deus ser ou não ser, o homem precisa mesmo é de vergonha-na-cara. Não me venha com esse "aproveitar a vida" distorcido. Kant demonstra isso claramente. Creia ou não creia Nele, estamos todos sob um fundamento moral puro, racional e universal (e porque não inspirado por Deus?).

Raulison Mendonça

joêzer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joêzer disse...

raulison,
acima deixei o seguinte comentário que talvez ficasse melhor no corpo da postagem. mas isso possivelmente evitaria os diálogos na caixa de comentários.

"entendo que a preocupação está relacionada principalmente ao fato da culpa, essa senhora desprezível.

mas o 'aproveitar a vida' para os cristãos é repleto de ações positivas assim como o "aproveitar a vida' dos ateístas inteligentes rejeita o hedonismo e a extravagância.

claro, sempre há ateístas/humanistas que desprezarão os valores morais e a liberdade de pensamento, quando deveriam ser os últimos a fazê-lo. e também há quem, em nome de Deus, despreze princípios e liberdades, quando devia ser o primeiro a conserva-los".

inseri agora no final do texto uma recomendação para que os leitores se animem a ler os comentários que, contestando alguns pontos do texto (ou mesmo todo o texto), relevam o debate.