18 fevereiro, 2009

a arte de ver

Por ocasião da morte do cineasta Ingmar Bergman (1918-2007), Paulo Coelho declarou, com o devido respeito, que “os filmes de Bergman eram chatíssimos”. Não se pode negar que quem estiver atrás de emoções em cascata, romances a granel e sensações em montanha-russa não as encontrará no cinema de contemplação de Bergman. Mas seguramente também não as achará nos livros de Paulo Coelho, nos quais não habita a literatura e nem a arte ali fez morada.

É claro que o cinema sempre foi um grande negócio, mas houve quem transcendesse o simples comércio e entregasse ao espectador um produto de alta qualidade estética e vigor intelectual inconteste. Ou seja, mais que vender rostos bonitos e batidas de carros, ainda há diretores e roteiristas que sabem tirar leite de pedra, quer dizer, extrair arte do comércio.

A idéia de cinema como entretenimento está presente desde o seu duplo berço na França, com os irmãos Lumière, e nos EUA, com Thomas Edison e sua turma (já andaram dizendo que o suor e até a inspiração eram mais da turma do que de Edison).

Daí os filmes de aventura e ação obterem tanto sucesso. Daí as aflições românticas, em forma cômica ou dramática, exercerem tanto fascínio. Daí que, se você junta ação e romance, tragédia e efeitos especiais, uma pitada histórica baseada-em-fatos-reais, um coadjuvante cômico e um casal loirinho falando inglês, você tem um sucesso de bilheteria como Titanic. É evidente que essa fórmula pode também revelar-se um tremendo fiasco, mas vá dizer isso aos produtores de Roliúdi.

Aqui também é preciso levar em consideração outros fatores como: a pujança econômica e americana que inunda as telas do mundo com a propaganda do seu estilo de vida e de suas celebridades; a atração humana por narrativas lineares, isto é, com começo-meio-fim, necessariamente nessa ordem; o desgaste físico cotidiano que leva a mente a pedir descanso e entretenimento leve; a massificação de uma única opção cultural: a arte como diversão; a ausência de uma educação estética nas escolas, que seria responsável por apresentar uma leitura da nossa Era da Imagem em Movimento e que capacitasse os estudantes a compreender que cinema, assim como a música ou a literatura, não existe apenas como passatempo de hiperestimulação hormonal.

O problema aparece quando, de tanto incentivo ao fluxo da adrenalina, a pessoa não consegue assistir a filmes que não sejam de suspense, terror, comédia besteirol ou paixões com finais felizes. Algo está sendo perdido quando apenas se assiste a um cinema que só quer contar uma historinha antes de você dormir.

Vão se perdendo chances de deparar-se com a arte capaz de reorientar nosso pensamento e desvelar novos modos de enxergar o mundo. Filmes que saúdam a inteligência do espectador e lhe despertam para um diálogo consigo mesmo.

Mas pergunte-se a você: que circunstâncias formaram meu gosto, meu juízo estético, minha compreensão da arte? Ou ainda: estou levando esse entendimento de arte somente como lazer e diversão para outros campos da vida, como o estudo, o trabalho, a religião?

4 comentários:

André R. S. Gonçalves disse...

tive que rir ao ver como vc descreveu o PC...
preciso conhecer mais sobre a sétima arte. depois de muitos anos só assistindo filmes europeus (e isso incansavelmente) a minha mente pediu clemência e hoje esta arte tenta me entreter de forma leve... gostei de vc ter incluso "o desgaste físico cotidiano que leva a mente a pedir descanso e entretenimento leve", pois assim não me sinto tão culpado e mais compreendido... ;)
forte abraço

joêzer disse...

amigo,
tem épocas que estou mais pra spielberg que pra godard (se bem que acho que nunca estive muito pra godard). e geralmente isso acontece quando o trabalho é muito e a paciência é pouca.

Anônimo disse...

Acho que a medida em que a informação vai ficando mais próxima de todos, em que essa nova geração que tem mais interesse por saber mais, tem mais contato com opiniões, acaba ficando mais crítica, com uma opinião mais apurada.

Cinema fácil, explosões, carros, humor pastelão, tem seu tempo enquanto as pessoas vão ficando mais exigentes com o cinema mais elaborado, histórias com pé e cabeça.

Slumdog Millionaire ganhar o oscar, tbm pode ser a aproximação de senso crítico de uma nova geração de espectadores com a "board" da academia que elege o melhor filme.

joêzer disse...

beleza de comentário.