20 dezembro, 2009

entre o sagrado e o profano

Movido pela vontade de reparar as brechas do pecado alheio, não raro o escriba cristão descamba para a crítica de atividades mundanas que os sóbrios humanistas também rejeitaram. Percebendo, então, que a bebedeira, a micareta e a Britney Spears também são pedra de escândalo para agnósticos e ateus, vou rabiscar o que seriam alguns dos comportamentos de professos cristãos neste mundo velho com porteira e câmera de vigilância.

Antes, é preciso saber de que cristão vou falar. Sim, porque há quem se diga cristão não-praticante (censos apontam que sua maioria é composta de católicos. Ninguém ainda se diz evangélico não-praticante ou espírita não-praticante). O católico não-praticante seria como um torcedor que só vai ao estádio quando tem jogo da seleção.

De outro lado, há o cristão que pensa praticar o cristianismo, mas na verdade ele pratica o "igrejismo". O adepto do igrejismo é como aquela criatura que assiste a dez telenovelas diárias, ri, chora, dá ordens aos personagens e nunca se interessa por outro tipo de emoção. O adepto do igrejismo não vive como quem espera novos céus e nova terra; ele vive como se não houvesse nem a velha terra onde pisa.

Há o cristão da urgência. Ele tem boas-novas a anunciar e não tem tempo a perder com jogos de futebol, filmes e livros não-religiosos. Para ele, a música não tem outra função senão a de servir de atração evangelística ou acessório para os intervalos em que ele não está pregando. Os únicos livros não-denominacionais que ele aprecia são aqueles de desconhecidos autores que falam de uma teoria conspiratória político-empresarial para domnar o mundo.

Há o cristão da displicência. Ele tem boas-novas a anunciar, mas sempre tem um programa imperdível apra ver ou fazer no mesmo horário. Esse tipo se divide em:
fãs de futebol (criticam quem assiste novela enquanto se desesperam diante de um jogo na TV);
cinemaníacos (a diferença entre o cinéfilo e o cinemaníaco é que o primeiro já distingue temperos e cardápios enquanto o segundo no máximo saliva de um prato gorduroso);
e estetas ecléticos (esse esteta dá um boi para entrar numa discussão sobre o gosto e uma boiada para não falar de assuntos religiosos).

O problema desse meu grosseiro rascunho é que mal cobre uma dúzia de pessoas, que dirá milhões. Assim, prefiro dizer que somos cristãos, em diferentes ocasiões, tanto da urgência quanto da negligência. Não sei se algum leitor se sentirá à vontade para enxergar-se dentro de algum dos tipos que listei. Se assim for, bem-vindo ao clube.

O cristão moderno tornou-se um bom samaritano que vive a decidir se ajuda os semelhantes ou vai à exposição no museu. Ele ainda não aprendeu que há tempo para tudo debaixo do sol. Inclusive para ser uma pessoa melhor. Porém, na tentativa de viver para a igreja, vira um ermitão: querendo relacionar-se com a modernidade, ele negocia princípios.

Quero dizer que o cristianismo não é apenas mais uma religião do equilíbrio. Não é o Tao. Ao contrário, o cristianismo também é a religião da tensão. Não aquela tensão da culpa, do remorso sem fim e da ira, e sim a tensão que tem que conviver com virtudes e defeitos, arrependimento e irmão, mas que não busca conciliar vícios e benefícios.

Pra ficar nos exemplos da arte e da literatura: tal cristão pode ler Dostoievski e o livro de Daniel, Herman Melville e Chesterton. Um cristão assim pode se maravilhar ouvindo uma sonata clássica ou uma canção poética e também se emocionar com os Arautos do Rei (são só exemplos).

Esse é o cristianismo afirmativo, que nem se enreda na ilusão pseudo-intelectual de que toda expressão artística é positiva nem atribui negatividade a todas as manifestações culturais.

Alguns cristãos, diligentes trabalhadores, não puderam ou não quiseram desenvolver o pensamento crítico em relação a filmes e músicas. Como escreve Frank Gabelein, no livro The Christian, the Arts and the Truth:

"Eles... são devotos da visão televisiva de shows, cujos gostos de leitura são dominados por uma piedade sentimental, e que não são capazes de distinguir um tipo de arte religiosa da verdadeira arte. Para eles, padrões estéticos superiores não passam de teoria e são espiritualmente suspeitos".

Há pessoas que rejeitam a totalidade das expressões artísticas humanas. Sobre essas, despejam rancor e preconceito. Sem tempo, vontade ou oportunidade para distinguir o joio do trigo, põem fogo em ambos.

Joêzer Mendonça
(Texto publicado na revista Conexão JA do último trimestre de 2009, p. 24 e 25).

2 comentários:

Viviane Mila Rocha disse...

SE é que eu posso dizer alguma coisa sobre esse artigo, é "Show de Bola". Não tem coisa melhor do que, no afã de atender as demandas de um Cartório de Registro Civil, a gente poder parar tudo por um momento pra ler alguma coisa relevante, enobrecedora e engraçada (se é que se pode dizer isso, uma vez que eu me racho de rir das coisas que o Joêzer escreve). Parabéns, J.M. Deus te abençoe!

joêzer disse...

valeu, vivi!
quando puder, adquira ou assine a revista Conexão JA. não é porque publicaram meu artigo lá não, mas a revista é boa!