
Vê-se que a paixão futebolística não tem nada de lógica. Enquanto essa paixão está dentro dos limites de rivalidade sadia, que não declara guerra campal contra o adversário nem dentro nem fora do estádio ou de casa, torcer não é problema algum.
Problemas começam quando torcer vira sinônimo de distorcer, quando se pretende a vitória a qualquer custo, inclusive com o uso de expedientes ilícitos como gol de mão, gol impedido, ou qualquer armação de bastidores. Os problemas se tornam ainda mais sérios quando a paixão clubística age como uma força embrutecida, que prefere ofender em vez de incentivar, que depreda, destrói e, não raro, mata.
O torcedor típico é capaz de trocar de cônjuge, de profissão e até de sexo, mas nunca trocará de time. Substitua o nome do time nos versos iniciais da música de Lamartine Babo, “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo, Flamengo sempre eu hei de ser”, pelo clube de sua preferência e você verá uma prova de fidelidade eterna.
Após essa experiência, alguns mais afoitos decerto farão gargarejo de uma hora com o Listerine mais ardido a fim de descontaminar a boca que fui induzida a cantarolar o hino do rival.
Ateus menos convictos chegam a rezar agora e na hora do pênalti. Religiosos mais sectários não resistem a uma espiadinha no jogo do Brasil na Copa do Mundo. Ricos prometem generosas doações a orfanatos e abrigos quando seu time precisa sair da zona do rebaixamento. Pobres (e os ricos menos liberais) prometem supliciantes procissões quando seu time precisa vencer na última rodada.
Até aí, trata-se de um caso, de fé e desprendimento das coisas materiais, ainda que, muitas vezes, por vias deturpadas e interesseiras. O fator complicador está na ambição, na vitória a qualquer custo, mesmo que a custo da honra. Farsas são montadas pra torcedor inglês e brasileiro verem. Negócios escusos são tratados antes de partidas decisivas, o futebol quase se torna um jogo de cartadas marcadas, em que não vale a pena torcer.
De outro lado, o torcedor pode se tornar semelhante ao fã: espera horas por um autógrafo, fica depressivo quando seu time perde, chora por não conseguir ingresso, não permite críticas ao time (a não ser aquelas que ele mesmo faz). O fanatismo é cego pela própria natureza e incapacita o indivíduo de perceber que a mesma mão que acaricia o clube na vitória acaba sendo a mão que apedreja na derrota.
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