07 dezembro, 2009

comer, rezar, enganar

Uma das cenas mais vergonhosas do ano, senão a mais, é a da "oração da propina", que é como andam chamando a oração fervorosa dos irmanados pela corrupção Durval Barbosa, Leonardo Prudente (deputado e presidente da Câmara Distrital do DF) e Rubens César Brunelli (deputado do PSC (ou do DEM, segundo o site da Câmara).

Após a partilha do montante ilícito, os três senhores se unem em compungida petição aos céus. Com uma cajadada só, eles quebram a lei de Deus e a dos homens. Enquanto se aguarda o misericordioso mas justo juízo divino, já se poderia ir cumprindo a lei e os profetas da justiça civil. Quem lê (a oração a seguir), entenda:

“Pai, quero te agradecer por estarmos aqui, sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos, mas é o teu sangue que nos purifica. Pai, nós somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele, contra nossas vidas. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham, Senhor, armas para nos ajudar essa guerra. Acima de tudo, Senhor, todas as armas que podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha ...Nós precisamos do livramento da vida do Durval, dos seus filhos, dos seus familiares. O Senhor é a nossa Justiça.”

Mais incrível é que o imprudente deputado Prudente aparecia em vídeo recentemente removido do YouTube tendo sobre sua cabeça as mãos e a benção de apologistas da prosperidade como o deputado-bispo Rodovalho. Já o deputado Brunelli recebeu uma Moção de Louvor concedida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, pela defesa do povo evangélico no Distrito Federal. Políticos no púlpito sendo investidos de benção por pastores e proclamados "autoridades constituídas" têm transformado orações públicas em votos secretos. Alguns, escandalosamente secretos.

Falsos evangélicos são tão comuns quanto falsos políticos. Isso quer dizer que tanto o verdadeiro cristianismo quanto a verdadeira democracia acabam sendo enlameadas: a Bíblia ensina a orar e vigiar, aqueles evangélicos ensinam a cobrar e orar; a democracia sugere um governo transparente no uso da verba pública, aqueles políticos escondem a verba pública no seu terno privado; Jesus ensina a oração do Pai-Nosso, os falsos evangélicos recitam a oração da propina.

A prática política admite que uma parte correta conviva com outra parte cujos paletós, meias e cuecas são andrajos de imundície. A prática religiosa permite que uma parte fiel conviva com outra parte cujos atos são a desonra do evangelho.

No entanto, isso não significa que tanto o jogo político quanto o ambiente religioso devam ser extintos pela força e pela vontade de outros homens. Nem estes outros homens podem se achar mais justos que seus semelhantes, pois não o são.

Ao contrário, pesquisemos os votos partidários e reforcemos os votos de aliança com Deus, pois o eleitor aguarda novas eleições em que o cenário político será pouco modificado e o cristão aguarda novos céus e nova terra em que a forma divina de governo oferecerá tudo restaurado.

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