“O Senhor é minha força e minha melodia; ... Ele é o meu Deus, portanto, eu O louvarei; Ele é o Deus de meu pai, portanto, eu O exaltarei”. São os versos de Êxodo 15:2 que abrem o DVD Novo Tom Ao Vivo e servem de epígrafe para esta produção artística de excelência musical e religiosa. As músicas cantam a esperança de salvação que está no “meu Deus”, o Deus do presente, e no “Deus de meu pai”, o Deus da tradição. Esta velha e feliz tradição é recontada em linhas modernas e em arranjos contemporâneos.A primeira música, Tudo em Louvor, já anuncia o que será a tônica dessa produção: a triagem de gêneros musicais para alcançar novos formatos de comunicação do evangelho. Essa canção extrai do baião a alegria e a leve descontração, sem descambar para o folclorismo e a cópia ipsis litteris do estilo nordestino. Isso acontece porque o figurino dos cantores não é folclórico e nem a interpretação vocal repete trejeitos estereotipados do forrozeiro comum. Além disso, as notas da melodia dessa canção desviam-se do percurso melódico do baião tradicional enquanto as dissonâncias da harmonia e o arranjo instrumental alteram a referência original de dança e distração popular.
Embora a letra da canção diga que “tudo o que nós temos dedicamos ao Senhor / tudo que nós somos transformamos em louvor”, isso que chama de “tudo” é reorganizado seletivamente e apresentado em contexto diverso do original. Os produtores musicais do DVD entendem que se o contexto é outro, a música não pode ser a mesma. Daí a necessidade de reformular o gênero musical (o baião) e lhe conferir novos valores, os quais não advêm apenas de uma nova letra (uma letra religiosa), mas de um novo percurso melódico e de uma nova configuração harmônica.
O DVD apresenta uma releitura de músicas de CDs anteriores do Novo Tom (inclusive dos tempos em que o grupo se chamava Tom de Vida). Esse remake musical nem sempre mantêm a força dos arranjos originais, como a faixa Não Tenho Palavras, cuja sonoridade inicial remete às introduções do rock nacional comum nos anos 80 (como a introdução de guitarras no contratempo e a virada inicial na caixa da bateria). Essa citação de estilo torna-se um tanto cansativa durante a música.
Já a releitura de Quero Ter Jesus conta com a iluminação e a disposição dos cantores no palco para criar uma atmosfera de intimismo de luau ou sarau gospel. Assim, Não Tenho Palavras e Quero Ter Jesus parecem destoar um pouco do restante do trabalho – uma parece deslocada no tempo e a outra parece deslocada no espaço. Embora tecnicamente impecáveis, ambas deixam entrever certa submissão a um virtuosismo maneirista (melismas em profusão, emulação de black music, estalos de dedos, coreografias e finais em suspenso). Porém, ambas também estão coerentemente ligadas a uma característica dessa produção: louvor em idiomas musicais distintos.
A canção O Amor é Jesus também ganha nova roupagem, sendo apresentada com outros elementos – percussão vocal (estupenda), coro a capella e melodia “cantada” pelo espantoso som de trompete vocal de Denis Versiani (que também assina o arranjo). Nossas expectativas também são surpreendidas pela desaceleração de A Esperança da Vida (rápida no original e lenta no DVD) e pelo toque de choro dado a O Meu Louvor é Ser Feliz.
Nessa última, os violões dão uma textura brasileira alegre e ao mesmo tempo reverente, e a orquestração da música é belíssima. Dessa vez, é a melodia originalmente do meio sacro que é relacionada a um gênero tradicionalmente secular como o choro (note que não se trata do chorinho veloz de “Brasileirinho”, mas do estilo terno de “Carinhoso”, para ficar em dois exemplares de choro apreciados em alguns círculos cristãos). A melodia e a respeitosa instrumentação, embora ainda possam causar associações culturais indevidas para alguns ouvintes excessivamente tradicionalistas, reforçam as temáticas de louvor cristão; jamais as anulam.
É certo que essa é uma produção que aceita correr certos riscos. Celebração ancora-se no pop apenas para transmitir a urgente necessidade de testemunho pessoal. Não preciso falar outra vez da genial recriação de melodia, harmonia e arranjo que caracterizou este trabalho do arranjador e maestro Lineu Soares. Nessa canção, há a descrição de atividade cotidianas (“leio o jornal, assisto a televisão, converso com o vizinho”), mas a letra não cai no coloquialismo banal. Antes, ela é a porta de entrada para falar de conteúdos mais densos. É um risco superado pela precisão do arranjo musical contemporâneo.
A canção Só Jesus extrai seu arranjo da fina estirpe dos compositores da bossa nova. Alguns poderão queixar-se de estar ouvindo um produto da MPB, mas não poderão dizer que não se trata de uma música que celebra com elegância e refinamento o encontro da canção protestante com uma das mais sofisticadas formas cancionais brasileiras, quando um estilo submerge no outro e cujo resultado estético e religioso está em delicado equilíbrio.
Porém, o maior risco que se corre está, paradoxalmente, no emprego que os admiradores do Novo Tom darão a essas músicas. Se os grupos vocais das igrejas não entenderem que determinadas canções desse DVD, embora boas e agradáveis, não foram feitas para uso litúrgico, todo o trabalho de triagem de gêneros e de reformulação de estilos só criará mais adversários (e não sem razão).
Esse dilema pode ter motivado a inserção da canção Usa-me, cantada no DVD pelo próprio compositor Lineu Soares. Como se fosse uma oração pessoal, ele canta do seu “labor dedicado a servir e a dar amor”, e que, para “falar claro da Tua graça”, diz que é preciso “conhecer sem sofisma a salvação”. Por isso, o compositor pede para Deus: “Dá-me a tempo e a hora o que deverei dizer”.
Durante uma homenagem bem-humorada a dois representantes da canção adventista, Luiz Cláudio e Sonete, Lineu fala que um compositor é fruto das próprias referências e deve ter consciência das “nossas raízes”. Essa expressão tem um duplo significado, pois o contexto musical do DVD esclarece uma tomada de consciência que reúna a tradição e a modernidade no sentido de reorganização ou reconfiguração da tradição musical pátria sob as lentes da ótica cristã.
O contexto geral é de celebração nobre e reflexão inteligente, o que é expressado pelos instrumentistas assentados, pelo trânsito sem sobressaltos dos cantores no palco, pela versatilidade impressionante dos cantores, pela enquadramentos de câmera elegantes, pelo roteiro que parte do louvor como resposta do homem até chegar na esperança de libertação divina. Seja pela brasilidade discreta de Tudo em Louvor ou pela obra-prima supracultural que é a canção O Pior do Homem, O Melhor de Deus, o ouvinte é musicalmente desafiado a ir além do seu território particular de música sacra e compreender como (ou se) as novas canções são capazes de atender as antigas demandas espirituais da cristandade moderna.



