Pular para o conteúdo principal

a música que não deixa a gente trabalhar

“Não conheço nada mais grandioso do que a Apassionata. Gostaria de ouvi-la todo dia. É uma música maravilhosa, sobre-humana... Mas eu não posso ouvir música com muita frequência, ela me faz mal aos nervos, deixa-me querendo dizer coisas gentis, estúpidas, afagar a cabeça de pessoas que, vivendo nesse mundo tão vil, podem criar tamanha beleza”.

Sabe quem disse isso? Lênin. O comandante da revolução russa não podia ouvir música muito bonita. Se ouvisse, capaz que não fizesse mais revolução coisíssima nenhuma. O que teria sido muito melhor, convenhamos.

Mas dá pra entender o camarada Lênin. Outro dia de manhã cedo tentei trabalhar ouvindo o CD “La legende du piano”. Impossível. Não há escriba que se concentre com as lindezas melancólicas de Chopin. Fui olhar o encarte. O CD tinha um sonata do Scarlatti em fá sustenido menor, uma fantasia de Mozart em ré menor, um prelúdio de Chopin em mi menor, mais Chopin em dó menor, um Tchaikovsky em si bemol menor. Tudo em tom menor. Não era à toa que meu espírito já estava ficando sorumbático como o de um vampiro vegetariano.

Ouça Martha Argerich tocando o Prelúdio nº 4 em Mi menor, de Chopin:

Comentários

Victor Meira disse…
Animal esse som, Joezer. Até queria pedir (encomendar) um post: rola fazer um post de iniciação à música clássica, com umas referências, discos, peças bacanas pra começar a ouvir esse gênero?

Ouço bastante jazz, progressivo, postrock e math, (estilos de música popular moderna que não estão de brincadeira), haha. E é legal, o jazz tem uns discos bons pra recomendar pra quem tá iniciando o rolê e pra quem tá curioso, como o Kind of Blue, o Love Supreme, o Mingus Ah Um, o Time Out do Brubeck... É legal, dá um chão pra começar a explorar o estilo.

Com a erudita eu tô flertando ainda, e resolvi começar do topo pra baixo, com o Philip Glass, que eu acho chapadão, legal pra cacete. O minimalismo dele é super palatável, te põe num ambiente meio amortecido, de transe. Acho bem gostosa a música dele. Daí fui dar mais uns passos e acabei me deparando com o Pierre Boulez e com o Schoenberg, sons bem mais difíceis de ouvir. É difícil essa iniciação partindo dos sons seriais, do pessoal que propõe uma música fora das bases do tonalismo (e portanto, fora do código alfabético do nosso ouvido).

Acho legal ouvir música contemporânea, acho me interesso mais por isso do que pelos clássicos, apesar de reconhecer a beleza e a importância desses últimos. Mas a contemporânea tem algo muito atual a nos dizer, reflete uma coisa muito mais próxima, mais enraizada na realidade de hoje, no nosso zeitgeist (espírito do nosso tempo), e por isso tem uma atmosfera mais excitante, mais viva.

Gosto dos teus posts sobre música, Joezer, é sempre um papo bom. Fico feliz quando dou um pulo aqui no Nota e o post de capa é sobre música, hahahaha.

Ó, se eu puder recomendar aqui um som que me desconcerta, deixo um trio de jazz pelo qual sou apaixonado, o Bad Plus: http://www.youtube.com/watch?v=NrN0aMsFNgs&feature=related

Abração!
Victor Meira disse…
Joezer, escuta esse som aqui tb, me diz o que voce acha, ta? ;)

http://www.youtube.com/watch?v=m6ZgytCOBw8&feature=player_embedded
joêzer disse…
é rapaz, começar com os serialistas não dá. mas ouvindo mais de perto, conhecendo cada autor a gente passa a admirar a obra deles. talvez nem seja uma música pra gente "gostar". é uma música pra provocar, atiçar, diferençar, não se deixar pasteurizar.
não gosto muito do Schoenberg. do Boulez aprecio quando ele rege. fenomenal. do século XX vou de Stravinski, Shostakovich e Messiaen. deste último talvez pelas temáticas religiosas. ah sim, o Penderecki é fascinante.
valeu a sugestão de pauta para o Nota. rsrs. vou preparar algo sobre a música contemporânea.
assim que eu vou voltar de viagem eu dou uma escutada no link.
abs
Prof. Kelly disse…
Eu já comecei minha iniciação musical!! E é um universo completamente novo e surpreendente. A ideia do post é bem legal!
joêzer disse…
ô victor, os tais do omar rodriguez são meio jam-latin-rave-session? indefinível!

kelly, vou fazer uns copy-paste dos livros que vc anda lendo!
Victor Meira disse…
Hahaha, ultimamente tenho achado dificílimo botar uma label no que eu escuto... Quando me pedem explicação eu vou por aí, acabo sempre falando uns 4 ou 5 estilos...

É o caso também de Debout sur le Zinc (banda francesa que mistura a chanson com música tradicional irlandesa, jazz, rock, klezmer e música cigana), e de Bratsch (banda cigana/francesa que se apropria de tudo quanto é estilo tradicional do leste europeu)...

Por acaso eles já gravaram junto, veja só.... haha... http://www.youtube.com/watch?v=14tgKL7r274

Som fino também, divertido e muito melódico.

Curtiu o Bad Plus?
Abs!!

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta