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o twitter é o gatilho mais rápido da internet


Meses atrás, o cantor gospel André Valadão escreveu "evangelizar" com "s" no twitter. Não demorou para que o erro de gramática provocasse o súbito aparecimento de um exército de tuiteiros armados de "z" até os dentes. E não há bicho mais belicoso que um internauta ferido em sua honra gramatical. No twitter, não existe margem nem para as margens de erro. O espaço é para 140 caracteres, mas a tolerância é zero.

Quando digitou "cinismo" com "s", a apresentadora Glenda Koslowski também amargou a fúria dos templários que vigiam o jardim da última flor do Lácio. Não apareceu um cavalheiro para defendê-la com um clichê do tipo "quem nunca errou no twiter que atire o primeiro teclado". Muita gente acredita que seu programa Hipertensão, trash no último, foi um castigo que a Globo lhe impôs pelo crime de lesa-idioma.

Se a violência do tuiteiro ficasse só na esfera da palmatória virtual com fins educacionais, isso já seria classificado como bullying. Mas a coisa não para por aí. Ao contrário do provérbio do sábio contemporâneo Sua Excelência Tiririca, tudo sempre pode ficar pior. Aí estão alguns eleitores paulistanos de José Serra achincalhando os eleitores nordestinos de Dilma Rousseff, embora os números das eleições provem que Dilma seria eleita, com menor folga, mesmo sem os votos da região Nordeste. 

Mayara Petruso, uma moçoila mais avexada, apregoava no twitter: "Faça um favor a SP. Mate um nordestino afogado". Mal se declarava o resultado das eleições e rapidamente se começava a pedir a cabeça alheia. O twitter é o gatilho mais rápido da internet.  Infelizmente, não há banda larga suficiente para a vasta ignorância dessa gente.

Mesmo a reação dos nordestinos com a tag #orgulhodesernordestino foi criticada como autovitimização e preconceito ao avesso. Veja só: esse grupo, uma minoria paulista, promove a discórdia e a xenofobia e ainda se defende dizendo que o pobre é o culpado da própria pobreza e que a vítima é a culpada do preconceito que sofre. Por certo, o nordestino não tem orgulho da pobreza, culpa da histórica má distribuição de renda e dos "coronés" favorecidos, mas tem orgulho da sua vastíssima contribuição à arte e à cultura nacionais, tem orgulho da força com que supera as tragédias naturais.

Esses internautas cheios de ressentimento e soberba só certificam duas coisas: 1) A arrogância paulistana é tão míope que deixa de enxergar que seus cidadãos passaram a vida elegendo o Maluf, o Enéas e agora passam o cetro ao Tiririca; 2) O twitter é o divã dos ressentidos.

Comentários

Prof. Kelly disse…
Eu fiquei arrepiada quando li os comentários anti-nordestinos. E fiquei pensando no tipo de educação que um ser humano recebe pra chegar a fazer esse tipo de comentário.
Triste, muito triste.
Só quem já sofreu com isso sabe como é: Há dez anos morando em Curitiba, e com essa carinha linda de Iara... tenho alguns relatos para contar!!
jgois disse…
Sempre achei seus comentários muito pertinentes, mas dessa vez preciso opinar. Primeiro porque sou paulista, e segundo porque sou filho de nordestinos. É importante observar que uma grande parte, e penso que a maior parte dos paulistas, não tem ódio de nordestinos, paranaenses, ou quem quer que seja. Isso porque grande parte, se não for a maior parte dos paulistas, É APARENTADO com os brasileiros das outras regiões do país. Com isso, suas considerações finais ficam a desejar. Um grande abraço fraterno.
joêzer disse…
você está certo, jgois. não é a maioria dos paulistas que são assim, por isso escrevi que esse grupo preconceituoso é uma "minoria paulista".
valeu o comentário
jgois disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
jgois disse…
Oi Joêzer.
A expressão 'minoria paulista' dá margem a duas leituras diferentes: 1) uma minoria de pessoas do estado de São Paulo. 2) os paulistas são uma minoria do povo brasileiro, em especial considerando a frase anterior sobre a reação dos nordestinos. A segunda leitura é possibilitada em função das suas considerações finais (a arrogância paulistana é tão miope...). Não acredito que a sua intenção tenha sido a segunda leitura. Apenas estou alertando a possibilidade.
joêzer disse…
valeu, temos que atento na hora de pôr no papel. é só conferir que na resposta anterior eu escrevi "não é a maioria dos paulistas que SÃO assim", em vez de "a maioria dos paulistas não É assim".

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