24 maio, 2011

o grão da voz

Luiz Tatit. Aprendi muito no mestrado com esse professor da USP. Uma das frases do Tatit nunca me saiu da cabeça: "Se você não gosta de uma música, experimente ouvi-la na voz do seu cantor predileto".

Eu nunca fui fã da dupla Zezé di Camargo e Luciano e do esforço para gritar "É o amoooor, que mexe com minha cabeça lalaiá lalaiá...". Até o dia em que assisti o biofilme Dois Filhos de Francisco e ouvi a mesma música na voz de Maria Betânia. Não, também não sou fã de Betânia. O que gostei, na verdade, foi da voz sem berreiro, em voz mais grave, dita sem afobação, no arranjo sem a batidinha repetitiva e efeitos de teclado Casio. Percebi que a música tinha prumo, tinha uma melodia boa. De fato, aprecio vozes femininas mais contidas e arranjos mais intimistas e sem grandiloquência. Enfim, gosto do famoso "menos é mais".

Talvez aconteça de pessoas gostarem mais da música da Maria Betânia se a ouvirem na voz de Zezé di Camargo. Conheço pouco de ambos os cantores, mas isso não desautoriza minha afirmação, baseada no que disse o Tatit, de que gostar do estilo vocal de um cantor nos leva a preferir músicas naquele estilo.

Outros exemplos: há pessoas que não gostam do estilo e da voz de Chico Buarque, mas apreciam a mesma música desse compositor quando a ouvem na voz de uma cantora de sua preferência. Não sei se esse fenômeno se dá com todo e qualquer estilo. Prefiro não experimentar. Mas talvez seja possível tirar leite de pagode.

Um exemplo possível na música cristã: as músicas dos Arautos do Rei ou do Gaither Vocal Band talvez sejam apreciadas quando são cantadas na voz dos grupos Novo Tom e Take 6. Esses grupos não cantarão aquelas músicas da mesma maneira que os dois quartetos, pois as apresentarão com seu jeito peculiar, idiossincrático de cantar e fazer os arranjos.

Roland Barthes chamava essas particularidades vocais de "o grão da voz". O modo de cantar equivaleria ao modo de dizer as coisas. E, assim como cada indivíduo possui um jeito único de falar, cada cantor demonstra sua singularidade vocal ao cantar. E percebemos vozes especiais quando ouvimos o timbre e o modo único de dizer as coisas pela voz de Silvio Santos, William Bonner, Lula. Ouvimos esse "grão da voz" ao notar a distinção vocal de Elis Regina, Diana Krall, Roberto Carlos, Tim Maia. A canção parece adquirir a personalidade de quem a está entoando. 

Além disso, às vezes essa mesma canção vem apresentada em estilos diferentes de arranjo instrumental, com uma forma peculiar de usar banda e/ou orquestra.  

Não gosta de uma música? Experimente ouvi-la na voz do seu cantor predileto.

6 comentários:

Jayme Alves disse...

Dois exemplos admiráveis de como o sabor de uma canção pode mudar quando ela é temperada por novas vozes e arranjos:

- Diego Moraes transmuta "Garçom" (sim, o hit do Reginaldo Rossi!): http://www.youtube.com/watch?v=jt-fgNGNV5Y

- Jamie Cullum remodela "Please Don't Stop The Music" (hit planetário da Rihanna): http://www.youtube.com/watch?v=kYhT7oCDoqM

Vários outros experimentos da culinária musical poderiam integrar esse menu...

joêzer disse...

bons exemplos mesmo, jayme. quando caetando regravou aquele "brega" do peninha ("às vezes no silêncio da noite...) muita gente gostou.

Preto disse...

"é o amor" não saiu da minha cabeça, quando vi o filme. pra mim, parece que ela só existe na voz de maria betânia. ficou linda.
tem um exemplo bacana no meio gospel que é a música "com cristo é vencer ou vencer", lançada no estilo pentecostal de Cassiane. virou um hino, todo mundo cantava. mas nunca gostei desse estilo. um dia ouvi uma cantora baiana, que já fez vocais pra ivete sangalo e hoje é adventista, não lembro o nome dela, cantando essa música com uma voz doce e num estilo bem mpb. sensacional!

Jayme Alves disse...

Mais um exemplo interessante: nos anos 70, João Gilberto, o papa da bossa nova, surpreendeu sua audiência sofisticada ao depurar boleros e outras canções popularescas("Besame Mucho","Eclipse", "Estate"...).

joêzer disse...

jayme, não ouvi a regravação do João Gilberto, mas aposto que ele estragou os originais. hehe

Prof. Kelly disse...

Adorei esse post...