Pular para o conteúdo principal

cantai um cântico novo

O salmo 33, o salmo 40 e o salmo 96 nos conclamam a cantar “um cântico novo”. Mas a Bíblia está falando de uma nova música ou de um novo espírito para cantar uma música?

No salmo 40, Davi diz que o Senhor o tirou de um pântano de perdição, o colocou numa rocha firme e segura e lhe “pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor a Deus”. Então Deus não lhe teria dado uma música para cantar nos tempos da amargura? De modo algum. Davi também compôs salmos quando estava sendo perseguido por seus inimigos. E certamente não lhe faltou inspiração divina.

Davi escreveu uma música nova após confessar diante de Deus seu adultério com Bate-Seba: o salmo 51, no qual confessava o pecado, buscava o perdão e pedia de volta a alegria da salvação. O que Davi disse poeticamente é que a segurança da salvação lhe motiva a louvar ao seu Senhor.  Onde está a ênfase divina? Na música ou na vida? Lendo os salmos, vemos que uma nova vida produz um novo espírito de louvor. 
Uma vida renovada é, ela mesma, um hino de louvor a Deus.

Excluindo os exageros e deturpações que há em tantos estilos, uma nova canção não necessariamente tem que seguir os preceitos musicais e culturais de todos os indivíduos de uma mesma comunidade religiosa. O que para alguém pode soar simplista e pobre, para outro é a música que lhe dá sentido do poder e do amor divinos. O que para uma pessoa pode soar solene, para outro transmite formalismo vazio. Há quem prefira Arautos do Rei, outros o Novo Tom, uns Ron Kennoly e alguns Amy Grant.  

No entanto, essas diferenças de atitude quanto ao que faz sentido musical e religioso são de ordem bastante individual. Quanto toda a congregação está reunida e louvando coletivamente, essas diferenças mais atrapalham que ajudam, mais dividem que congregam.


Novos estilos de música fazem parte da dinâmica histórica da música sacra. Se inovações de estilo e música devessem ser proibidas completamente, a igreja deveria voltar ao canto judaico cheio de melismas e entoado apenas por homens no templo. De outro lado, se toda inovação de estilo e música for abraçada irrefletidamente, estaremos dando mais ênfase à diversidade musical do que à unidade congregacional.

Estamos rodeados de música por todos os lados. Peneirar as influências é o difícil trabalho do adorador. Mas ele não está sem um guia. Filipenses 4:8 orienta nosso pensamento para os valores do reino de Deus: tudo o que é verdadeiro, nobre, correto, puro deve ocupar sua mente. 

Alguns podem pensar que esse conselho de Paulo se refere à estética de um objeto. No entanto, fazendo uma distinção um tanto resumida, palavras como verdade, dignidade e pureza têm mais a ver com ética do que com estética. Algumas apreciadas óperas de Mozart têm muito de beleza e excelência estética, mas pouco de nobreza bíblica. E tem canção de Stevie Wonder (como Have a Talk with God) que apresenta uma verdade cristã. 

Por isso, outra boa orientação está em I Coríntios 10:23: "Todas as coisas são lícitas, mas nem todas  convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas edificam".

A escolha apropriada das formas musicais da adoração depende do que se escuta e também do que eu uso e descarto daquilo que eu venha a escutar. Depende ainda da função que se dá às músicas (liturgia, louvor congregacional, evangelismo). Surgem problemas bem visíveis e audíveis quando as referências culturais seculares são transplantadas para a música cristã sem uma reorganização dos elementos musicais (arranjo, mixagem, interpretação vocal) e extramusicais (postura, roupa, formas de divulgação).

Novas canções podem sensibilizar alguém para buscar uma nova vida. Uma nova vida tem poder para criar e recriar canções. Canções entoadas com um novo espírito.

* A frase da imagem acima diz: "Ele sempre está ali por mim e por isso sou sempre grato".

Comentários

André LuiZ disse…
Joêzer,

excelente artigo. Trouxe-me uma nova luz sobre esse tema, que ocupa muito a minha mente. Eu posso republicá-lo no meu blog? (com o seu nome na autoria e remetendo ao blog original, é claro).
joêzer disse…
pode, sim, meu caro.
Tell Procopio disse…
Wow... I'm so impressed!! Que vc sempre faça bom uso da inspiração Divina. O que li foi uma exposição clara, simples e cuidadosa de um tema que as vezes é tão judiado, pela paixão de pessoas bem intencionadas.
Seu link estará na minha página do FB. Que o Senhor te dê sempre um cântico novo no coração.

Tell Proc.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta