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a fábula de Sir Ney

Trabalhei em São Luís por alguns anos e vi de perto o sentimento de “gratidão” que os ludovicenses têm pelos governantes que deram continuidade aos índices mais baixos de desenvolvimento do país (e olha que o Estado do Maranhão era a 4ª potência econômica no Brasil Império). Depois do recente caso do senador que utilizou helicóptero da Polícia Militar para passear com a família, depois "de tanto ver prosperar a injustiça", resta-nos contar mais uma fábula menor de moral mínima.

As fabulosas façanhas do fidalgo Sir Ney

Em tempos imemoriais, vivia o fidalgo Sir Ney, barão das províncias de Big Maranha, lorde de MacApah. Sir Ney jamais foi visto com o péssimo hábito de criticar a realeza. Tal cousa espantosa se dava pelo simples fato de que Sir Ney sempre estava ao lado de quem detinha o cetro, amparando os monarcas, ele que monarca já havia sido, com suas academicamente imortais palavras de philantropia e lealdade.

O apreço de Sir Ney era tido em alto preço entre os membros da nobreza, cada qual desejando auxiliá-lo desinteressadamente em suas necessidades de locomoção, às vezes por meio do empréstimo de uma singela carruagem movida à hélice.

Com o nobre dever de assegurar a sobrevivência de sua nobre casta, Sir Ney tinha o nobiliárquico costume de partilhar cargos e terras. Um castelo para o mais moço, uma ilha para a princesa herdeira, uma corte para o genro mais chegado que um irmão.

Por causa disso, alguns de seus detratores dizem que vem daí o termo nepotismo, do original “neypotismo”.

Entretanto, estimado webleitor, não caia em tais artimanhas que ensejam apenas e tão-somente o opróbrio de tão rico homem. Pois veja que, em louvor às incontáveis benfeitorias à população, os logradouros públicos receberam o privilégio de ostentar o brasão e o nome da casa de Sir Ney. Em muitas terras cristãs, mantêm-se a tradição de rezar em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Nas terras de Sir Ney, porém, reza-se em nome do pai, do filho, da filha, do irmão, do genro...

Mas isso não passa de ironias afônicas dessas deturpadas invenções modernas, como a internet e a imprensa, que andam a espalhar que Sir Ney fez muito para a pobreza, mas pouco pelo pobre.

Moral mínima: ouviste que os antigos falavam em “dar a César o que é de César”. Pois desde os antigos já se fala em “toma lá o que não é meu, dá cá o que é de César”.

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