23 agosto, 2011

retromania e a depreciação da música

"O passado não só não morreu, como ainda não passou", teria dito o escritor James Joyce. A moda de reviver os estilos musicais e performances do passado, o famoso "revival", confirma o que disse o autor irlandês. 

No Brasil, posso citar o atual revival da música sertaneja, que agora experimenta o sucesso popular que teve na virada dos anos 80 para os 90. Nos EUA, tem a Jennifer Lopez regravando uma antiga lambada do grupo Kaoma (Chorando se foi...) em ritmo de dance music. Só falta a Beyoncé gravar Pense em mim, chore por mim pra consolidar a globalização do brega!  

Por que temos a impressão de que um sucesso novo se parece com um sucesso antigo? O crítico de música Simon Reynolds acredita que todo movimento musical foi na fonte do passado buscar inspiração. Só que agora estaríamos num momento em que a inspiração é buscada num passado cada vez mais próximo. 

Reynolds também se mostra preocupado com a cultura digital, no sentido em que essa cultura facilita o acesso à música de graça. E o problema com a música grátis é que, na medida em que não há uma disposição física e financeira para conseguir ouvi-la, o ouvinte teria menos preocupação com o valor cultural da música.

Essas questões são levantadas no livro Retromania - Pop Culture's addiction to its own past, lançado recentemente por Simon Reynolds nos EUA, em que o autor examina o museu de grandes novidades da cultura pop, e vê essa cultura obcecada com seu passado. Reynolds comentou o assunto na entrevista concedida à Folha de S. Paulo (20/08/11, no caderno Ilustrada, por André Barcinski):

A escuta desatenta do público: "O problema de ouvir música via computador ou iPhone conectado à Internet é que o mesmo portal que está conectando você à música é também capaz de, simultaneamente, conectá-lo a milhões de outras coisas. Então, há uma tentação irresistível a clicar em outra coisa e fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo – checar e-mails, baixar mais música, etc. Então você raramente está imerso apenas na música.

Publicações na web são criadas para desestimular o leitor a terminar de ler qualquer artigo, porque elas têm uma série de links coloridos e que chamam a atenção. As publicações não querem que você termine o artigo, porque querem o maior número possível de cliques. Quanto mais você pular de uma parte a outra, melhor para eles".

A depreciação da música: "A equação é simples: se você gastou dinheiro num bem cultural, seja um livro, revista, disco, etc., você vai gastar tempo tentando extrair o máximo dele. Se você gasta dinheiro com um CD, vai prestar atenção nele quando tocá-lo, e vai tocá-lo mais vezes. Se você obtém um CD de graça, na forma de downloads, você fica mais propenso a ouvir poucas vezes e de uma forma mais distraída. Você vai ouvir a música enquanto faz outras coisas no computador (chamam a isso de “síndrome de atenção parcial”), e você muitas vezes nem vai ouvir o disco todo.

Além disso, se você vive baixando muita música, como as pessoas tendem a fazer quando conseguem música de graça, é matematicamente mais provável que você ouça cada canção menos vezes. E muitos discos só começam a se revelar totalmente depois de repetidas audições.

[...] eu diria que a cultura digital se fundamenta na facilidade, e que a facilidade de acesso e o custo mínimo de aquisição têm levado a uma depreciação no valor da música e à degradação da experiência audiófila".

3 comentários:

Alessandra Dias de Oliveira disse...

ahhh espero que essa "síndrome de atenção parcial", seja o motivo que meus vizinhos, as pessoas q. passam de carro, nas lojas ... estejam ouvindo músicas de um ritmo tão constante e letras repetitivas e vazias. Espero que o dia q. elas pararem para ouvir, possam perceber o quão ruim é aquilo q.elas chamavam de "música".

Alessandra disse...

Ainda no mesmo assunto: o pior é q. tais pessoas realmente acreditam q. todos gostem daquilo q. ouvem. Principalmente as de fones no ouvido nos ônibus, naquela altura, nem precisava de fone....

joêzer disse...

alessandra, parece que a pior música é aquela que nos obrigam a ouvir.