
Importa dizer que o programa que exibe a minissérie se chama “Faixa Comentada”, e antes de cada segmento apresentado há uma entrevista com os atores, cenógrafos, roteiristas e diretores da obra. Mas também há entrevistas com especialistas acadêmicos, professores e historiadores, como Eduardo Bueno, sobre costumes culturais e práticas comerciais e religiosas da época, o que acaba sendo bastante esclarecedor.
A reconstituição dos lugares do período colonial, situado no local de estabelecimento do que viria a ser a futura cidade de São Paulo, é cuidadosa, sendo que a taba dos índios foi construída por indígenas reais. Eles também interpretam alguns dos personagens indígenas (outros são interpretados por atores profissionais, como Stênio Garcia e Maria Maya - esta atriz faz ótimo trabalho ao reagir inopidamente e conversar empoleirada em baús ou batentes).
Brancos, mestiços, índios. Padres, judeus, comerciantes. Todos estão presentes não como personagens históricos, mas como portadores de dramas e tragédias pessoais, que sofrem, riem, amam, fazem planos que atolam no lamaçal da Vila de Piratininga. A Igreja Católica é retratada sem maquiagem, isto é, são discutidas desde sua coerção na conversão de judeus ao celibato dos padres, passando pelo seu posicionamento ao lado do poder econômico dominante. Os índios possuem sentimentos, não são meros figurantes como nos filmes americanos, alguns com mais senso de dignidade do que os colonizadores. Há mulheres que usam a sedução para conseguir favores (o que é mostrado de forma cômica) e há mulheres que procuram ser fortes, de grande nobreza de alma – sejam índias ou brancas. Há homens de firmeza e bravura, outros demonstram covardia e cobiça.
Não há o falso heroísmo dos antigos livros de história. As roupas estão sempre amarfanhadas, a pele das pessoas empapada de suor, alguns querem voltar para o reino de Portugal e deixar essa terra inóspita e nada hospitaleira. O preconceito contra índios, mulheres e judeus é contado sem romantização de vítimas. A violência e a exploração (comercial, eclesiástica ou sexual) são narradas sem a glorificação da brutalidade, ao contrário dos épicos do cinema.
A Muralha também ofereceu a Tarcísio Meira o maior papel de sua carreira na TV. Como Dom Jerônimo, um homem de enorme poder e maldade, Tarcísio dá grande complexidade a um personagem que teria tudo para ser retratado de forma unidimensional. Ele comunica ódio, hipocrisia, paixão e ambição com seus resmungos, gestos e olhares que ora expressam asco, ora transmitem compaixão.
A direção de atores soube tirar partido da qualidade do elenco, que nunca parece representar, mas simplesmente demonstra incorporar os personagens com seus muitos temores e breves alegrias. Ainda há a ótima trilha sonora de Sergio Saraceni, cuja música não tenta apenas recriar a sonoridade da época, mas é quase um personagem a mais, integrando-se às tramas da minissérie.
Seguramente, A Muralha está no nível (ou acima, arrisco a dizer) de clássicos globais, como O Tempo e o Vento ou O Primo Basílio. Pois não busca o entretenimento fácil e esquecível, mas procura marcar um retrato de um país que mudou mais na superfície do que em profundidade. Com as entrevistas de especialistas, a minissérie ainda contribui até para nos educar, algo que não seria papel das TVs, costumam dizer os defensores de um hegemônico e lucrativo reino da diversão.
O programa é transmitido às 21:30 no Canal Futura.
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