
As fronteiras entre a cultura erudita e a cultura popular parecem estar bastante atenuadas em um certo universo musical que comporta compositores do mundo todo, cujas experimentações sonoras expandem os limites da escuta. Um trabalho representativo no Brasil é o de André Mehmari, jovem compositor-residente da Banda Sinfônica de São Paulo. Seus arranjos de piano no cd Piano e Voz ressaltam ainda mais a interpretação refinada de Ná Ozzetti e a beleza das canções. Mehmari não acompanha, e faz mais que um dueto, em que contraponto, harmonia e citações musicais revestem seu piano de rara inventividade. Procure ouvir a delicada canção A ostra e o vento, que recebe uma introdução que rememora o tema de Nino Rota para o filme Amarcord.
Um dos trabalhos mais criativos dos últimos anos é Medúlla, da cantora Björk. O álbum não é fácil de se rotular: Pop? Erudito? Crossover? Björk emprega poucos recursos instrumentais além da voz humana manipulada digitalmente, estendida, multiplicada, recriada. E o resultado vale a pena ser utilizado como objeto de estudo nas classes de música de concerto contemporânea. E também nos seminários universitários de música popular.
Mesmo na pouco conhecida música religiosa moderna, cuja faceta mais famosa é o gospel, entendo que no Brasil esses processos de síntese de estilos têm seus representantes. No cd Viver e Cantar (analisado nesse blog), o cantor e produtor Leonardo Gonçalves e seu irmão, o compositor e arranjador André Gonçalves, inovam ao trazer para a música religiosa diversas expressões culturais e musicais, como o coro gregoriano, o estilo judaico, o arranjo pop ao lado das cordas eruditas, a variedade de interpretações vocais (da recitação poética ao canto mais suave).
O campo para a criatividade musical nunca esteve tão aberto, pois, em contraste com outras épocas, o final do século XX foi o tempo para convívio de todos os estilos. O moderno ao lado do arcaico, a bossa junto com a palhoça, Carmen Miranda com Beatles, a guitarra acompanhada de berimbau, e até mais que o convívio, a fusão, a síntese, o sincretismo estilístico, com os gêneros musicais aglutinados, entranhados, casando para dar como fruto um outro estilo.
Hoje, ninguém tem que seguir uma vertente de mão única, tipo ser dodecafonista ou pós-romântico, concretista ou nacionalista, sambista ou ou jazzista. Atualmente, se pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Importante é aprender a não cair na mera invencionice ou na mistureba tosca e sem personalidade, necessário é saber reorganizar, recriar os estilos para que surjam novas maneiras de fabricar sons e silêncios. Os músicos de hoje também podem dizer: "há muitos estilos. Preferimos todos".
Acima, obra de Fernando Botero: "Los músicos" (1991).
Comentários