Pular para o conteúdo principal

O gênero musical do novo século - II

No início do ano, postei um texto sobre o gênero musical do novo século, onde eu tomava como referência um artigo do site People Listen to it, escrito pelo musicólogo Gabriel Solis. O site americano é de estudantes, compositores e professores da área de música da Universidade de Illinois. Pois bem. Este site descobriu o meu artigo sobre o tema e fez uma atualização onde dá o link para meu texto no blog Nota na Pauta e diz que também aponto um processo de síntese de gêneros em algumas produções musicais brasileiras de hoje, à semelhança do que Solis percebe na música norte-americana. Abaixo, amplio alguns dos exemplos que citei no meu artigo.

As fronteiras entre a cultura erudita e a cultura popular parecem estar bastante atenuadas em um certo universo musical que comporta compositores do mundo todo, cujas experimentações sonoras expandem os limites da escuta. Um trabalho representativo no Brasil é o de André Mehmari, jovem compositor-residente da Banda Sinfônica de São Paulo. Seus arranjos de piano no cd Piano e Voz ressaltam ainda mais a interpretação refinada de Ná Ozzetti e a beleza das canções. Mehmari não acompanha, e faz mais que um dueto, em que contraponto, harmonia e citações musicais revestem seu piano de rara inventividade. Procure ouvir a delicada canção A ostra e o vento, que recebe uma introdução que rememora o tema de Nino Rota para o filme Amarcord.

Um dos trabalhos mais criativos dos últimos anos é Medúlla, da cantora Björk. O álbum não é fácil de se rotular: Pop? Erudito? Crossover? Björk emprega poucos recursos instrumentais além da voz humana manipulada digitalmente, estendida, multiplicada, recriada. E o resultado vale a pena ser utilizado como objeto de estudo nas classes de música de concerto contemporânea. E também nos seminários universitários de música popular.


Mesmo na pouco conhecida música religiosa moderna, cuja faceta mais famosa é o gospel, entendo que no Brasil esses processos de síntese de estilos têm seus representantes. No cd Viver e Cantar (analisado nesse blog), o cantor e produtor Leonardo Gonçalves e seu irmão, o compositor e arranjador André Gonçalves, inovam ao trazer para a música religiosa diversas expressões culturais e musicais, como o coro gregoriano, o estilo judaico, o arranjo pop ao lado das cordas eruditas, a variedade de interpretações vocais (da recitação poética ao canto mais suave).

O campo para a criatividade musical nunca esteve tão aberto, pois, em contraste com outras épocas, o final do século XX foi o tempo para convívio de todos os estilos. O moderno ao lado do arcaico, a bossa junto com a palhoça, Carmen Miranda com Beatles, a guitarra acompanhada de berimbau, e até mais que o convívio, a fusão, a síntese, o sincretismo estilístico, com os gêneros musicais aglutinados, entranhados, casando para dar como fruto um outro estilo.

Hoje, ninguém tem que seguir uma vertente de mão única, tipo ser dodecafonista ou pós-romântico, concretista ou nacionalista, sambista ou ou jazzista. Atualmente, se pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Importante é aprender a não cair na mera invencionice ou na mistureba tosca e sem personalidade, necessário é saber reorganizar, recriar os estilos para que surjam novas maneiras de fabricar sons e silêncios. Os músicos de hoje também podem dizer: "há muitos estilos. Preferimos todos".


Acima, obra de Fernando Botero: "Los músicos" (1991).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

o mito da música que transforma a água

" Música bonita gera cristais de gelo bonitos e música feia gera cristais de gelo feios ". E que tal essa frase? " Palavras boas e positivas geram cristais de gelo bonitos e simétricos ". O autor dessa teoria é o fotógrafo japonês Masaru Emoto (falecido em 2014). Parece difícil alguém com o ensino médio completo acreditar nisso, mas não só existe gente grande acreditando como tem gente usando essas conclusões em palestras sobre música sacra! O experimento de Masaru Emoto consistiu em tocar várias músicas próximo a recipientes com água. Em seguida, a água foi congelada e, com um microscópio, Emoto analisou as moléculas de água. Os cristais de água que "ouviram" música clássica ficaram bonitos e simétricos, ao passo que os cristais de água que "ouviram" música pop eram feios. Não bastasse, Emoto também testou a água falando com ela durante um mês. Ele dizia palavras amorosas e positivas para um recipiente e palavras de ódio e negativas par...

paula fernandes e os espíritos compositores

A cantora Paula Fernandes disse em um recente programa de TV que seu processo de composição é, segundo suas palavras, “altamente intuitivo, pra não dizer mediúnico”. Foi a senha para o desapontamento de alguns admiradores da cantora.  Embora suas músicas falem de um amor casto e monogâmico, muitos fãs evangélicos já estão providenciando o tradicional "vou jogar fora no lixo" dos CDs de Paula Fernandes. Parece que a apologia do amor fiel só é bem-vinda quando dita por um conselheiro cristão. Paula foi ao programa Show Business , de João Dória Jr., e se declarou espírita.  Falou ainda que não tem preconceito religioso, “mesmo porque Deus é um só”. Em seguida, ela disse que não compõe sozinha, que às vezes, nas letras de suas canções, ela lê “palavras que não sabe o significado”. O que a cantora quis dizer com "palavras que não sei o significado"? Fiz uma breve varredura nas suas letras e, verificando que o nível léxico dos versos não é de nenhu...

Bob Dylan e a religião

O cantor e compositor Bob Dylan completou 80 anos de idade e está recebendo as devidas lembranças. O cantor não é admirado pela sua voz ou pelos seus solos de guitarra. Suas músicas não falam dos temas românticos rotineiros, seu show não tem coreografias esfuziantes e é capaz de este que vos escreve ter um ataque de sonolência ao ouvi-lo por mais de 20 minutos. Mas Bob Dylan é um dos compositores mais celebrados por pessoas que valorizam poesia - o que motivou a Academia Sueca a lhe outorgar um prêmio Nobel de Literatura. De fato, sem entrar na velha discussão "letra de música é poesia?", as letras das canções de Dylan possuem lirismo e força, fugindo do tratamento comum/vulgar dos temas políticos, sociais e existenciais. No início de sua carreira musical, Dylan era visto pelos fãs e pela crítica como o substituto do cantor Woody Guthrie, célebre pelo seu ativismo social e pela simplicidade de sua música. Assim como Guthrie, o jovem Bob Dylan empunhava apenas seu violão e ent...