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Globo e Record: a novela da vida irreal

O mais recente capítulo da disputa via satélite entre Globo e Record foi ao ar na semana passada. Como de costume, uma das redes de televisão sentiu-se ofendida e, machucada em seu ego continental, partiu para o contra-ataque. O conflito entre ambos as redes começa em tom jornalístico, mas no fim das contas, toma feitio de folhetim. Mas o que foi que aconteceu mesmo?

Na novela Duas Caras, da Globo, há um núcleo evangélico do “mal” (segundo o autor da novela, há outro núcleo, o do “bem”). Pois este grupo de crentes, liderados por uma fanática, se insurgiu num dos capítulos contra um triângulo amoroso formado por um homossexual, uma ex-drogada e um garçom. A tal evangélica, liderando a turba, fez soar as trombetas de Jericó, invadiu uma casa, atirou pedra na ex-drogada como se não tivesse pecados, depredou uma cama, ameaçou matar uma grávida que carregaria a própria besta do Apocalipse. Enfim, foi um Baal-nos-acuda, um cruzamento de A Profecia com As Bruxas de Salem.

A reação da Record? Queixas de ofensa moral contra os evangélicos, retratados como um bando de dementes. Mas, recentemente, a novela Vidas Opostas mostrava um grupo de policiais extremamente violento e corrupto. Como o Capitão Nascimento e sua tropa de elite ainda não estavam na moda, a quadrilha passou vários meses exibindo brutalidades no vídeo. Alguém lembra de algum batalhão ter reclamado do retrato “realista” de policiais? Que havia policiais do “bem”, havia. Mas o glamour, o enquadramento vistoso, a grande interpretação fica para os bandidões, para o bonde do “mal”. Entre o bem e o mal, assim caminha o tosco maniqueísmo dos roteiristas. A desculpa rota e maltrapilha é a de sempre: é isso que o público quer ver. É mesmo, cara pálida, perdão, cara parda?

E a Globo, favorável aos católicos mas que nunca teve nada de santa? Aliás, santidade só dá audiência na visita no Papa. Bem, ninguém pode acusar o canal da família Marinho de construir uma imagem idealizada dos católicos. Nos anos 70, a novela Roque Santeiro não teve autorizada sua exibição, pois além de desagradar os militares no poder, ainda passava uma idéia menos hipócrita de padres e fiéis. E, veja só, naquela década, a Globo amaciava com os generais no Jornal Nacional (proibida que estava de veicular notícia ruim dentro do Brasil), mas mostrava metáforas bem explícitas do autoritarismo, da hipocrisia e da corrupção na novela que vinha em seguida, O Bem Amado.

Anos depois, o mesmo Dias Gomes voltou à carga na minissérie O Pagador de Promessas, em que um fiel católico do campo tenta entrar com uma cruz dentro de uma igreja, mas é proibido pelo padre local de cumprir sua promessa. O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, também apresentava um contexto bastante crítico das autoridades católicas. Algumas novelas fazem lá seu gracejo: ora é um padre chegado ao álcool, ora é um bispo autoritário ali, ora é uma falsa beata acolá.

De fato, o evangélico, em especial o neopentecostal, cada vez mais imerso numa cultura de vale-tudo na adoração e de sacralização do consumo, está conseguindo atrair para si mais um sentido de banalidade e alienação do que de força moral e intelectual. O pragmatismo segue quase ensandecido em busca de novos membros, com muitos desses “apóstolos” cheios de convicção e pouca boa-fé.

A Record, tão sensível quando se trata de investigar os líderes da Universal e tão surda ao estudo doutrinário e teológico mais sério, imita a Globo até nos cenários de telejornal, utiliza seus programas domingueiros como palco de “defesa da fé”, enquanto suas novelas seguem o mesmo caminho fácil da busca de audiência. A Globo, cujos telejornais não se cansam de mostrar a fé popular nos "santos", finge-se de moderna e sem preconceito, mas vem oferecendo um cardápio musical decadente, um tradicionalismo estético na programação e, sim, um retrato enviesado e unidimensional de quem não professa a fé de seus executivos e autores.

Às vezes, se pergunta onde está o retrato de cristãos que fazem campanhas de doação de sangue, que pesquisam nos espaços acadêmicos com seriedade, que trabalham com afinco, que não gritam nem entram em transe nos cultos, que se vestem com discrição e elegância (mas sem parecer que tiraram os trajes de um baú do século XIX), que procuram equilibrar a fé e a ciência, que amam e são amados, se divertem, fazem planos dignos, que têm suas falhas também, que são tradicionais mas não arcaicos e liberais mas não libertinos.

Estou porventura criando algum personagem absurdo? Idealizado? É demais para a criatividade de um escritor, de um cineasta? Pois há muitos desses cristãos, talvez ocultos demais por conta própria, certamente ocultados demais pela TV e o cinema. Por isso, parece que os versos de W. B. Yeats, no poema The Second Coming, ainda estão valendo:“Falta convicção aos melhores/ enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”. Mas também pode ser que os bons mantêm a retidão e a esperança, mas infelizmente parece que isso dá cada vez menos audiência.

Leia também: a igreja eletrônica e a fé no mercado

Leia trechos do livro da jornalista Elvira Lobato sobre a Ig. Universal

Comentários

Jayme disse…
Joêzer,

Uma pequena correção: o título do poema citado ao final é "The Second Coming" e o seu autor não é T. S. Eliot (aliás, um autor de raízes cristãs), mas o irlandês W. B. Yeats, que, ao lado de Eliot, é um dos maiores poetas do século passado.
JSM disse…
Corretíssimo, Jayme. Quando fui a revista Bravo (em tempode wikipedia!)conferir a fonte o poeta é mesmo WB Yeats, mas o poema foi intitulado na revista como The second advent.

Valeu a atenção!
Joêzer

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