15 janeiro, 2010

dos que semeiam canções


Dia do compositor. Como faço parte da numerosa família dos compositores menores me resta aprender a compor melhor e falar dos compositores maiores. Foi estudando partituras de Villa-Lobos e Stravinski (vi numa foto) que Tom Jobim foi cada vez mais se tornando o maestro soberano. Se o Tom fez isso, que dirá nosotros, cheios de boa vontade e escasso talento.
Muita gente pergunta: “Como é que se compõe?” ou “De onde vem sua inspiração?” Os mais honestos responderão Não sei, só sei que é assim, para a primeira questão. Já a segunda pergunta tem uma resposta simples: a necessidade. Quando o credor bate à porta, o talento flui que é uma maravilha!
A inspiração não é uma ilha. E se for, é uma ilha com várias pontes para outras ilhas. A inspiração não surge do nada. Ninguém senta ao piano ou pega o violão e fica esperando uma voz soprar uma sequência melódica. A inspiração é precedida pelo estudo e, principalmente, pela escuta.
Em qualquer caso, nenhum compositor cria ex nihilo, do nada. Alguma influência ele deve ter. Como no título daquele livro do Harold Bloom, os criadores padecem (ou não) da Angústia da Influência.
Armand Machabey: Toda inovação está contida numa fórmula germinal pré-existente.
Jacques Chailly teoriza sobre o procedimento dos inovadores em composição musical: “Primeiro, assimilando a teoria dos seus predecessores e escrevendo com maior ou menor submissão, do mesmo jeito. Depois, enquanto cresciam em experiência, começaram a abandonar a teoria, e pouco a pouco, sua intuição ditava o que deveria ser descartado e o que deveria ser modificado ou acrescentado. Foi como Beethoven desenvolveu-se de Haydn, Wagner de Meyerbeer, Debussy de Massenet”.
Em outras palavras, compositores, seja Bill Gaither ou Jader Santos, procederam segundo a forma descrita acima. Após um período inicial em que assimilam os métodos dos compositores de sua preferência, os músicos passam a seguir seus próprios padrões de composição, modificando, reorganizando, renovando suas influências.
Asim, não existiria a voz pequena de João Gilberto sem o estilo vocal de Mário Reis e Anísio Silva. Chico Buarque é descendente de Noel Rosa. O compositor de trilhas sonoras John Williams bebeu na fonte de Erich Von Korngold.
Tomando a linha histórica do quarteto Arautos do Rei, nota-se que eles começaram com um estilo que repete o modelo inicial, os King’s Heralds. Nos anos 90, o quarteto assimila uma feição menos Wayne Hooper e mais Bill Gaither. Nos anos 2000, o padrão Jader Santos se consolida.
A linhagem da música adventista brasileira tem em Williams Costa Jr, nos anos 70, o ponto de diferenciação em relação ao passado de versões da hinódia norte-americana. Anos depois, Jader Santos renovaria o repertório de canções adventistas.
Flávio Santos, Lineu Soares e Valdecir Lima (este, letrista) elevariam a música cristã a um novo patamar tanto na inovação estilística (arranjo instrumental e harmonização vocal) como no conteúdo poético e teológico da letra. Sem falar em Ariney Oliveira e Silmar Correia, compositores dotados do recurso de fazer canções simples que escondem sofisticação.
Não posso omitir nesse dia, além dos que já esqueci até aqui, a nova geração de compositores. Daniel Salles, que une a riqueza da poesia à beleza da melodia e já pertence à fina estirpe dos compositores mencionados; Cândido Gomes, que foi meu coralista em priscas eras e hoje é um compositor em vistoso processo de maturação, mas já uma realidade musical; Suzane Hirle, uma das poucas mulheres reconhecidas na área da composição cristã; Cleverson Pedro e Felipe Tonasso, capazes de compor em diferentes estilos com vigor musical; e ainda, Fernando Rochael, Ricardo Martins (com um inesperado, para mim, letrista Fernando Iglesias), Wendel Matos,...
Para profetas maiores e compositores menores, cometi os seguintes versos:
Abençoado seja o poeta que não teme a pauta em branco
Bem-aventurado o músico que tece um acalanto
Quem semeia vento colhe temporal
Quem espalha canção, ajunta pessoas
Quem compõe com Deus, traz Deus pra mais perto da gente




4 comentários:

André R. S. Gonçalves disse...

esse é dos meus dias também, apesar da parte de composição ter se tornado um evento bisexto...
que este nosso dia seja dia de conscientização e novas metas... dia de sacudir a poeira e a preguiça escondida por trás de tantas tarefas...
long live composers...
e VIVA Mahler, Guinga e Morten Lauridsen!

JaelEneas disse...

Joêzer,

Eu me lembro-me de você, irrequieto a perguntar

Que compasso anotar, que escala assinalar.

Em seguida a cadência vinha à pauta preencher,

Que o poema seja livre para vidas soerguer.

Eu me lembro de você, ansioso a se indagar

Como faz pra escrever, como faz pra assim cantar.

O rompante criador vinha à mente seduzir

Que a música seja viva para cruz assim servir.

Continue sendo servo da escrita e da canção,

Que o ato de compor seja feito de emoção.

Go Ahead

Jael Eneas

joêzer disse...

opa, andré, a família gonçalves tem seu cadinho na história. há uns 5 anos participei de uma mesa redonda sobre os rumos da música brasileira junto com o grande Guinga.

my great teacher Jael, professor primeiro. obrigado por lembrar dos dias de lições de piano e de vida.

felipe tonasso disse...

joézer,
que lista infinita seria se houvesse justiça com os que aceitam apenas manusear a pena do Hábil Poeta!

textos sempre "acrescentadores" e ricos.

obrigado pelo "vigor" rs que na boca de alguns é "paulera" ;)

Deus contigo irmão!

abraço