18 janeiro, 2010

avatar e a espiritualização da natureza

O filme mais caro da história. A segunda maior bilheteria de todos os tempos. Marco tecnológico. De todos os ângulos, Avatar é um superlativo.

Mas o que tanto atraiu a atenção das pessoas?

A história? Duvido. Vejamos num resumo: um soldado semi-inválido e cansado de combates acaba indo para um mundo distante e lá ele descobre a harmonia de um povo em contato com a natureza, se apaixona por uma nativa e enfrenta preconceitos e tensão bélica. Isso faz de Avatar uma versão em 3-D de Dança com Lobos, como estão dizendo.

Para o crítico Renato Silveira, Avatar é “a vanguarda da tecnologia oposta ao lugar-comum de um modelo narrativo típico de filmes de fantasia”. Assim, todo mundo sabe de antemão que o herói ficará encantado com uma nova cultura pura, encontrará um amor puro, uma forma de vida pura em contraste com a ganância dos terráqueos e com o vilão que ele mesmo terá que enfrentar. O enredo é, digamos, puro lugar-comum.

O que não é comum é a inovação tecnológica desenvolvida para esse filme, que teria avançado na criação de softwares para a tecnologia do efeito tridimensional no cinema.

O senão de Avatar me parece ser de outra ordem. Não está na tecnologia nem no roteiro. Está no subtexto ideológico-religioso do filme. Para o professor de cinema Rodrigo Carreiro, “Cameron se certificou de incluir uma boa dose de preocupações ambientalistas (um tanto rasteiras, aliás), para dotar o filme de atualidade e fazê-lo politicamente relevante”.

Até aí, nada de mais. A ecologia faz parte da agenda política e social de países e organizações e tem agregado um componente de religiosidade à ideologia ambientalista. Vou dividir essa questão em duas partes:

A romantização da natureza: o filme transcorre no planeta Pandora, onde os seres nativos (os Na'vi) são gigantes de 4 metros de altura que habitam numa espécie de Éden e vivem em plena comunhão com a natureza. Eles se relacionam com o meio ambiente em um mundo idealizado, o que pode significar uma utopia inatingível para uns ou uma realidade por vir para outros, como para os que acreditam nas promessas bíblicas sobre o céu, "onde o lobo e o cordeiro pastarão juntos".

Nunca houve, porém, na história das sociedades humanas, um povo que tenha vivido em “harmonia” com a natureza. Avatar recicla o mito do “bom selvagem”, com o adicional ecorromântico de que o homem serve à natureza. Claro que é preciso analisar com cuidado a lógica do capital disfarçada de progresso que ergue e destrói coisas belas, mas não é a natureza que existe para servir ao homem?

A espiritualização da natureza: os cientistas do filme descobrem que a natureza, em Pandora, é uma força viva e atuante. Os Na’vi invocam a natureza para ajudar na luta contra a invasão dos seres humanos. Como uma entidade autônoma, a natureza assume poderes próprios para controlar as ações dos animais, por exemplo. Aqui, a natureza não é a criação e suas criaturas, o que denota uma deificação da natureza.

A espiritualização da natureza é uma faceta das religiões da chamada Nova Era, uma reelaboração de práticas místicas antigas que têm fascinado as multidões contemporâneas que desgostam dos monoteísmos organizados e apreciam o pacifismo ambientalista. A mãe Gaia, como denominam a Terra, está representada pela atividade e interatividade de Pandora.

Em meio a tudo isso, há outro aspecto que toca os espectadores: a colonização de um povo imposta por outro. Os humanos, como vilões principais no filme, seriam os mesmos humanos que devastaram civilizações para fazer andar a roda do progresso. Tanto em Pandora como em tempos distantes e terras próximas de nós, a ganância humana aterrorizou, escravizou, assassinou e atirou uns contra os outros, sem distinção de credo, cor e lugar.

15 comentários:

André R. S. Gonçalves disse...

caro Joêzer,
não assisti ao filme e tudo indica que não terei condições de assistí-lo em 3D por razões que você consegue imaginar.
mesmo assim permita-me discordar de algumas colocações:
1) a natureza foi feita para viver em simbiose com o ser humano e não para somente serví-lo. é uma ato de 'reciprocidade', sem querer dotá-la de personalidade. o ser humano, afinal, tem como principal trabalho o cuidado com a Natureza, portanto ele é cabeça e servo.
2)o ambientalismo moderno está partindo explicitamente para a deificação da Natureza, acreditando que desta forma panteista o cuidado da Natureza é mais do que um dever do ser humano... é um ato religioso. Uma vez instituindo o ambientalismo como um ato religioso, quem transgride as leis da natureza transgride crenças... esse pensamento vai longe, mas acredito que dê bastante 'food for thought'. Isso já foi antecipado pelo grande filósofo cristão Francis Schaeffer.
forte abraço

joêzer disse...

andré,
o homem pode ser servido pela natureza? se natureza, aqui, é entendido como uma força autônoma com capacidade raciocínio, sim, a natureza é um garçom do homem.
mas se a natureza é a criação, e não uma criatura, então é o homem que se serve da natureza.
se o ser humano respeita o código natural do meio ambiente, ele não será um predador irracional disfarçado de empreteiro que alavanca a roda do progresso, como eu disse.
esse respeito pela vida e sua atuação consciente contribui para que haja uma "simbiose". não sei se simbiose é um termo adequado.

escrevi num texto aqui no blog, "a religião ecológica", sobre esse processo de deificação da natureza. há filmes que romantizam o mundo natural (com predadores caçando em câmera lenta, geleiras ruindo) e outros espiritualizam a natura.
abraço

André R. S. Gonçalves disse...

Joêzer,
o ser humano serve à natureza porque é mandamento e ela o serve, pois está assim nas lei natural que Deus criou... nós expiramos CO2 e ela a transforma em O2, só para dar um exemplo rudimentar... não consigo imaginar palavra melhor do que simbiose... a natureza é, na verdade, um aglomerado de criaturas que vivem em simbiose com o ser humano...
forte abraço

Kelly disse...

Simbiose ou não... o filme é a "sessão da tarde" mais cara de todos os tempos. Efeitos visuais fantásticos, diálogos e atores medíocres. O que me deixa realmente triste é saber que os Bastardos de Tarantino podem perder o Oscar para o J. Cameron e seu Avatar, assim como perdeu o Globo de Ouro... so sad!!

Viviane Mila Rocha disse...

"As always", os comentários do Joêzer estão sempre fascinando pela originalidade e lucidez (afinal ele não tem o mal de Alzheimer - Deus o livre!), especialmente a espiritual. Gente jovem, prest'atenção, porque eu não prestei: à semelhança de filmes como "O Código da Vinci", por exemplo, esse "Avatar", ao qual assisti um tanto mesmerizada, contém realmente mensagenzinhas aparentemente inofensivas, que têm um cunho religioso (não criacionista, em primeira instância, e nem adventista, em segunda instância, note-se bem), que soam talvez como um doce e melodioso (hum?) veneno - se é que um veneninho pode ser melodioso. Acho que depende das vias por onde entra, sei lá...
O fato é esse! Os comentários do J.M. me fazem pensar, meditar, raciocinar, refletir sobre o que faço com minha mente no que sempre concerne à minha filosofia de vida, ora adventista!
Valeu, mano, por abrir meus olhos!

joêzer disse...

andré,
fui consultar meu pai Houaiss e ele me respondeu que simbiose quer dizer uma associação de dois seres com benefícios recíprocos. nesse caso, a palavra é mesmo correta para definir a reciprocidade desejada numa vida em comum, do homem com o meio ambiente. é só uma questão de termos, mas gosto de "coexistência", vidas interrelacionadas mas independentes.

vivi,
ver não nos deve levar necessariamente a concordar com tudo. por isso, refletir sobre o que se vê nos ajuda a não aceitar qualquer coisa que nos mostram. prefiro gostar do todo e desgostar de algumas partes.

kellinha,
"sessão da tarde mais cara de todos os tempos". muito boa.
Hitchcock, Chaplin e Stanley Kubrick nunca ganharam o Oscar. Tarantino, que ainda não é do mesmo naipe dessa turma, vai ficando em boa companhia.

marcio disse...

Avatar, que (corrigindo o meu amigo sem corrigir) será a maior bilheteria de todos os tempos dentre de uma ou no máximo duas semanas, está sendo visto como um filme esquerdista.
Gostaria de acrescentar à discussão que o filme é tudo menos esquerdista. Como em "Dança com Lobos", o homem (branco) é superior. Torna-se apenas uma questão de quem vai liderar os "indígenas" - um homem branco bom ou um homem branco mau. Mas fica a mensagem subliminar que sem homem branco eles não conseguem sobreviver - eles precisam de um líder de fora!

joêzer disse...

marcio, my friend,
será que esse james cameron ganha do james cameron do titanic? mesmo atualizando valores?

disseram que é filme esquerdista?! caramba, os camaradas andam a ver coisas!
tudo é perspectiva mesmo. o filme pode ser sobre o líder "branco" que faltava para os "índios" ou sobre o líder branco que aprende com os indios sobre coexistência e paz.

eu já acho que a "mensagem" mesmo é de teor ecoespiritualista.
abraços

Daniella disse...

Esse seu post foi o comentário mais equilibrado que li desse filme até agora. Nem elogios em demasia, nem satanização em demasia. Gostei!

joêzer disse...

nem tanto ao mar nem tanto ao rio. valeu, daniella.

Viviane Mila Rocha disse...

J.M. eu sou completa e perfeitamente a favor do "tudo me é lícito, mas nem tudo me convém", embora também goste de provar e gostar do todo, e desprezar algumas partes. Mas o fato é que os que não leem sobre a verdade, nada sabem sobre ela, não é mesmo? E quando você não conhece a verdade, é praticamente impossível poder fazer uma seleção daquilo que é bom, puro, amável e agradável para a mente.
Cara, nem posso fazer apologias à perfeição porque ainda leio romances em detrimento da Palavra, mas sei o que é a verdade, e por isso tenho que fazer seleções, SEMPRE!

joêzer disse...

vivi,
enganoso é o nosso coração para selecionar a verdade. há quem, mesmo sem conhecer a Deus "formalmente" (é o máximo que se pode conhecer por enquanto), faz rigorosas seleções do que é bom e justo, embora suas escolhas éticas estejam permeadas pelo mais profundo humanismo histórico cristão ocidental.
para uns, Avatar será um filme a mais e só e pronto vamos trabalhar.
para outros, incluindo alguns da fé, o filme será O FILME da vida, o que revela que o indivíduo não tem nem critérios estéticos nem religiosos, por assim dizer.
vlw

Elyson Scafati disse...

Joezer e demais blogueiros:

Embora Avatar seja apenas um filme, ele reflete bem o que é o ser humano; uma criatura destrutiva que não dá a mínima para nada, desde que ganhe dinheiro.

As cenas do filme aconteceram muitas vezes aqui mesmo na Terra, todas as vezes que uma cultura tecnologicamente superior encontra outra mais inferior neste quesito. Isso é fato, basta ler um pouco de história.

A ganância humana tem levado nosso mundo a se tornar um moribundo, pois muitas espécies já foram extintas e outras estão a caminho desse trágico fim.

A natureza não tem de servir ao homem em hipótese alguma.

Essa idéia estúpida de serviência da natureza a nós não se trata de lei divina coisa nenhuma, mas de lei puramente humana.

Metam isso na cabeça, não temos nada de especial; somos animais como quaisquer outros. Estamos por aqui só de passagem. Quando a nossa hora chegar ninguém virá aqui nos levar para o além. Nos tornaremos, na melhor das hipóteses, fósseis.

O único diferencial entre o homem e os demais animais é a sua consciência (é faltante ainda em muitos humanos) e inteligência (esta, infelizmente, pra os que a possuem, tem sido usada, na maioria das vezes, para o enriquecimento próprio e para fazer o mal).

Seres humanos não se importam com os outros, tratam mal aqueles que são diferentes, possuem preconceitos, não respeitam a água que bebem, pois a transformam em esgotos, não respeitam os mares, pois os tornam depósitos de lixo, destroem florestas, matam animais por esporte, praticam pesca predatória, poluem o ar que respiram, envenenam o solo com lixo orgânico e lixos tóxicos, fazem armas para matarem uns aos outros, envenenam os alimentos e matam em nome de suas crenças religiosas.

Preocupo-me com a espécie humana onde ela irá chegar e o que acontecerá com ela.

Como toda a criatura o homem poderá enfrentar sua extinção, o que seria uma benção para este planeta, para os 5 bilhões de anos que lhe restam de Sol.

Quanto ao Eden, este nunca existiu.

É apenas uma interpretação de nossa infância (Gênesis - Bericht quer dizer começo), pois antes de provar da árvore do conhecimento, nossos pais nos guiam, Após isso devemos andar com nossas próprias pernas.

Na natureza é viver ou morrer, ou seja, é comer ou ser comido. Assim, a desgraça de um é a vida para o outro. Isso tem sido dessa forma nos últimos 3,8 bilhões de anos, desde que a primeira molécula replicante deu as caras por aqui.

Quanto às figuras que surgem ao longo do Gênesis (os patriarcas), elas são tudo aquilo que jamais deveríamos ser. Ao menos servem como péssimos exemplos de seres humanos em toda sua gama de imperfeições.

É assim que se deve ler o Gênesis não literalmente como fazem os fundamentalistas.

Para Viviane: os seres de Pandora seriam o mais puro exemplo de uma evolução com ancestral comum entre todas as espécies, pois temos um mundo onde tudo se conecta por uma ligação corporal e mental.

Aqui, na Terra, a analogia é o DNA: seja um humano, um tigre, uma serpente, um ganso, uma rã, um marisco, uma medusa ou uma bactéria, todo ser vivo é feito da mesma coisa: fosfato, desoxirribose e base nitrogenada (A, T, G, C).

Basta mexer aqui e ali, usar um certo número de cromossomos, ligar e desligar este ou aquele gene e, em vez de um gorila, temos uma lacraia.

Quanto à mensagem, não há nada de veneno, muito pelo contrário: é um "humano, caia na real, pois é isso que vc sempre fez com o seu mundo. Aprenda a respeitar a natureza antes que ela própria acabe com vc (degelo de calotas, desertificação, recuo de florestas, chuvas em excesso, liberação de metano na atmosfera, furacões superdimensionados, morte de recifes de coral, redução de peixes no mar, mangues secando, pragas de insetos, doenças que sequer conhecemos).Viva e respeite os demais seres viventes, pois este mundo não é só seu. Cuide-se porque não existe segunda chance, (pelo menos esta ainda está fora de nossa realidade)".

joêzer disse...

outro leitor atento discorda da minha frase "a natureza deve servir ao homem".
mas o que eu estou dizendo é que a destruição do meio ambiente muitas vezes se disfarça de progresso para destruir coisas belas. tirante isso, o ser humano, se tiver sabedoria para servir-se da natureza, este terá "vida longa e próspera".
caro elyson, você entende do riscado, como notei no seu blog. será um privilégio tê-lo por aqui mais vezes.

Elyson Scafati disse...

Obrigado Joezer.

Vc também será sempre bem vindo, pois noto que vc não é um alienado radical como muitos que surgem por ai, mas vc se trata de alguém que me parece querer aprender.