10 agosto, 2010

a Pixar e a crítica da razão cínica

Até os anos 1980, o cinema de animação vivia uma longa fase de príncipes encantados, princesas suspirantes, animais falantes e músicas marcantes. Branca de Neve, Pinóquio, Bambi, Dumbo, A Bela Adormecida e Mogli são personagens da infância de quase todo mundo. Todos inocentemente divertidos. Todos excessivamente fantasiosos.

Houve uma mudança de consciência no final do século XX. A chegada de novas tecnologias de computação gráfica se aliou a ideias arejadas sobre o comportamento dos personagens de animação. A princesa à espera do beijo de um príncipe não fazia mais sentido. Felizmente.

Aí veio a animação Shrek e suas três sequências fazendo uma “dessacralização” da pureza e do heroísmo dos desenhos animados. A série começou subvertendo os chamados contos de fada. Depois, sem o recheio de uma boa história, virou franquia comercial com paródias preguiçosas. De infantil, sobrou pouca coisa.

Shrek dispara suas sátiras e nenhum personagem famoso dos contos infantis resiste à inversão de estereótipos e clichês. Pena que a maioria das crianças que assistiu à série nem conhecia O Gato de Botas, Cinderela ou Pinóquio. As crianças pouco perceberam a paródia e a ironia. Primeiro, por ainda não estarem psicologicamente preparadas para isso. Depois, porque não conheciam as histórias originais. Infelizmente, as crianças estão conhecendo a paródia antes do original.

Nesse barco da razão cínica a Pixar não entra. Ser crítico é se achar superior aos outros? Em Ratatouille, há aprendizado e delicadeza. O personagem do crítico de gastronomia enfrenta sua arrogância e cinismo pessoais e se rende à simplicidade e à humildade.

A família tradicional está sob fogo cruzado? Com Os Incríveis, vemos que não existe mais recompensadora aventura do que a convivência familiar.

O casamento não é mais pra sempre? Up-Altas Aventuras tem os 20 primeiros minutos mais tocantes do cinema dos últimos anos. Sem diálogo, só com uma trilha sonora maravilhosa, vemos um casal se conhecer na infância, tornarem-se namorados na juventude, casarem-se, compartilharem a construção da casa, a perda da dor de um filho, a saúde, a doença, a maturidade, a velhice, a morte. Tudo com uma ternura comovente.

A amizade e o amor são vistos com desconfiança? A série Toy Story não tem vergonha dos bons sentimentos.

A ecologia grita aos quatro ventos? O apelo de Wall-E é silencioso e cativante. A natureza merece cuidado. Mas o apelo é ao amor entre as pessoas. A tecnologia de última geração está ligada à tradição de um cinema humano e fraterno.

O cinema se torna cada dia mais violento, mais sexista, mais cinicamente juvenil. Ainda bem que há filmes em busca da delicadeza perdida.


Tem mais: A mais incrível aventura da família


5 comentários:

Daniella disse...

Gosto muito do Nemo e do Wall-e, mas também amo Bela Adormecida e Pinóquio! hehehehe.... O post está bem legal :)

joêzer disse...

isso eu também chamo de bom gosto, daniella!

Anônimo disse...

Good post and this post helped me alot in my college assignement. Gratefulness you as your information.

André R. S. Gonçalves disse...

Joêzer,
amei o post. belo insight. também acho a Pixar tudo de bom.
forte abraço

joêzer disse...

então somos dois, amigo.