Pular para o conteúdo principal

a esperança em forma de música

Jader Santos é um perito em músicas sobre a volta de Jesus – Eu não me esqueci de ti e Chegou a hora. Na canção Eu quero olhar, gravada pelos Arautos do Rei, Jader propõe um tipo de música que não tem a sequência estrofe-côro e na qual praticamente cada verso possui uma melodia própria. O compositor não fez concessões nem à rima fácil nem ao típico refrão.

Eu quero olhar pra cima e ver aquela nuvem aparecer um pouco escura, mas não de chuva, só uma mancha a mais no céu

E se eu olhar com atenção verei ainda que há uma luz assim brilhante que num instante vai se tornar bem maior

O desejo de quem espera a volta de Jesus pode ser nublado por sinais que são a contrafação do advento real de Cristo: uma nuvem parecida, prodígios “em nome de Deus”, falsos cristos. A atenção ao que diz a Bíblia é o melhor preparo para não ser confundido.

Em seguida, cada verso descreve características do Esperado:

Sim, é Jesus que triunfante e exultante vem como Rei / Sim, é Jesus, o Pai amante que os seus filhos vem receber / Sim, é Jesus, o humilhado, o que foi morto e reviveu / O que foi homem e que foi Deus, e que voltar nos prometeu

Os dois primeiros versos contrastam com os dois últimos – o Rei triunfante é mencionado também como Deus humilhado. Jesus é o líder-servo e homem-Deus. O mesmo “que foi morto” é o mesmo que "reviveu", Aquele “que foi homem” também é Deus. A letra faz o contraste entre a morte, própria do estado atual do homem, a ressurreição, própria da divindade, e a capacidade de Jesus de transcendê-las. Ele não apenas vive, mas é A Vida.

Tremam diante dEle todos os povos / Reinos, nações e línguas, todos O adorem / O Grande Juiz voltando está: Justiça haverá afinal!

Alguém pode entender que nesse trecho, o letrista parece manifestar que teme a Deus pelo medo, que Deus manipula as pessoas para O adorar. Mas não é uma questão de manipulação, e sim de motivação. Nós O adoramos por causa do Seu amor (“O amor de Cristo nos motiva”), por causa do que Deus fez, faz e está fazendo por nós. Adoração é “o transbordar de um coração grato, impulsionado pelo sentimento do favor divino” (Anônimo).

Na música, o trecho anterior é cantado em fortíssimo, como num clamor. A partir de agora, a música é suave, com um lirismo que expressa que a bendita esperança se realiza e que a esperada volta de Cristo será de forma visível e audível:

Enfim chegou Quem nós aguardávamos, Quem nossa alma almejou / Quem nossos olhos sonharam ver, Quem os nossos ouvidos sonharam ouvir

Quando os anjos vieram confortar os atônitos discípulos que viam Cristo ascender ao céu, disseram: “Esse mesmo Jesus que vistes subir, voltará outra vez”. Os discípulos o reconhecerão, assim como nós, porque Ele será o mesmo, dessa vez com grande glória e majestade:

Filho de Maria, Leão de Judá, Estrela da Manhã, vem enfim brilhar

A seguir, a música retoma o tom triunfal ao mesmo tempo em que fala da esperança de vida eterna, de uma vida sem os males terrenos, de uma vida de fato em íntima comunhão:

Quero pra sempre contigo morar, Não mais viver a tragédia do mal / Quero em Teus braços me aconchegar / Quero Teu nome pra sempre louvar.

Von Hügel dizia que “grandes realidades, ainda invisíveis, requerem para sua apreensão uma incorporação figurativa na imaginação”. Cantar a esperança do retorno de Jesus é meditar e incorporar em nossa mente a grande realidade divina que em breve se verá face a face.


Comentários

Zaine Sá disse…
Parafraseando um tal de Joêzer, eu complemento o post com o seguinte comentário:

Vídeouça: http://www.youtube.com/watch?v=KSEQudjUiwk
joêzer disse…
boa, zaine!
Carslile disse…
Eu sei que é um pouco tarde, já faz um bom tempo que essas considerações foram postadas. Apenas passo por aqui para deixar um abraço ao Joêzer, a quem tive o privilégio de conhecer, recentemente. Ainda não encontrei pessoa mais "analítica" ao passar por alguma das minhas obras. Descobrindo coisas lá que eu nem mesmo sabia que existiam! Deus te abençoe, irmão. Sua capacidade de raciocínio e interpretação são impressionantes.
joêzer disse…
Obrigado pela leitura e pela gentileza de suas palavras, maestro.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta