01 outubro, 2012

liberdade de expressão: modo de usar


Um filme que satiriza Maomé e que mostra o islamismo como um câncer serviu de justificativa para o ataque de salafistas a embaixadas norte-americanas no Oriente Médio. Não é a primeira vez, e certamente não será a última, que o pensamento ocidental, pavoneando-se sob a égide da liberdade de expressão, provoca a fé muçulmana. Na cabecinha livre, leve e solta de editores de revistas e jornais ou de artistas e executivos da área cultural, qualquer pessoa pode expressar sua opinião sem ter que ser ameaçada de morte por isso. Aliás, editores e executivos sempre se defendem com a máxima que reza que “as opiniões aqui emitidas nem sempre expressam as convicções do corpo editorial”.

No artigo "Cruzadas, novamente" [Carta Capital], o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle demole a ideia de que a liberdade de expressão não tem limites:

[...], há de se fazer uma reflexão a respeito do filme que serviu de estopim para tais ações. Permitir um filme dessa natureza, onde seu realizador afirma querer mostrar como o islamismo é um câncer, nada tem a ver com liberdade de expressão. Pois nunca a liberdade de expressão significou poder falar qualquer coisa de qualquer forma. Em toda situação democrática, há afirmações não permitidas. Por exemplo, se alguém fizer um filme a fim de mostrar que os gays são seres promíscuos responsáveis pelo mal moral do mundo, que os negros são seres inferiores ou que os judeus estão por trás da crise econômica, que controlam tudo e que inventaram o Holocausto, tal indivíduo será, com razão, enquadrado em crime penal previsto por lei e a exibição do seu filme será proibida. A razão é simples: não se trata de uma questão de opinião, mas de preconceito e simples violência social. Se há algo que a democracia reconhece é o fato de que nem toda enunciação é uma opinião. Há enunciações que, por causa de sua violência e preconceito, são crimes.

É claro que temos o direito de criticar dogmas religiosos. Não se segue daí, porém, que se possa fazer isso de qualquer forma. Posso criticar o dogma católico da transubstanciação, mas não significa que eu possa entrar na missa e cuspir na hóstia. Da mesma forma, posso criticar, em minha aula, o Estado brasileiro afirmando que sua bandeira é hoje um pano velho sem sentido. Mas não se segue daí que eu possa entrar em sala e atear fogo à bandeira. Saber encontrar a forma adequada de crítica é o mínimo que se pode esperar no século XXI.

Por fim, normalmente há aqueles que afirmam que, se assim fosse, teríamos de proibir Voltaire e seus textos anticlericais. Contra esses, gostaria de lembrar um ponto: Voltaire era corajoso o suficiente para criticar sua própria tradição religiosa. Algo muito diferente é fazer profissão de fé esclarecida, ridicularizando as crenças religiosas de outros povos. Aqueles que não têm coragem de criticar sua própria tradição melhor fariam se silenciassem sobre as tradições do outro.

Um comentário:

Marcus Vinicius S. Oliveira disse...

Amigo Joêzer,

Sem dúvida, é algo muito importante a divulgação deste tipo de mensagem dentro de uma sociedade tão imersa em "liberalismos" e "conservadorismos" exagerados como essa em que vivemos atualmente.

Se, por um extremo, muita gente interpreta mera divergência de opinião como se fosse desrespeito ou ataque pessoal (a famosa ideia de que religião, política e futebol "não se discutem", por exemplo), por outro extremo, também existe quem pense que o tal princípio da "liberdade de expressão" legitima as mais absurdas manifestações de ódio e preconceito contra o semelhante.

Para tudo na vida, equilíbrio e bom senso são fundamentais.

Um abração,

Marcus