17 outubro, 2012

melancolia e depressão na música pop

A música popular de hoje está depressiva? As melodias têm maior inclinação melancólica do que antes? 

A música triste e melancólica não é uma atribuição do pop contemporâneo. No século XIX, Chopin compôs peças de caráter nostálgico e melancólico, o que seria um reflexo de sua própria personalidade. Isso nos leva à pergunta: a música reflete o estado da alma de seu compositor?

O ato de composição é complexo. Por isso, o que vou dizer a seguir é algo bem simplificado. Uma música pode expressar uma experiência dolorosa que um músico pode estar vivenciando; o compositor procurou somente representar musicalmente uma emoção ou sentimento. Ou ainda, não é o compositor que está buscando representar uma determinada emoção em forma musical, mas o ouvinte é que tenta encontrar na melodia um significado emocional.

Ouça o movimento poco alegretto da 3ª Sinfonia de Brahms [ouça o 1º minuto]:


Essa música é melancólica? Depressiva? Ou é o ouvinte que associa certas sonoridades a certas emoções? Essa peça pode ter um caráter associado à melancolia, porém, penso que ela está mais bem associada ao sublime. Ela convida à contemplação da beleza plácida e contrita. 

A melancolia pode ter um tom de saudade, uma sombra de tristeza ou de sentimento elevado. Kant aponta como as coisas sublimes convidam à melancolia. "É uma emoção complexa com aspectos de dor e prazer que se baseia em uma série de emoções, tristeza, amor e desejo – todos vinculados a um estado de espírito reflexivo e solitário" [ver o estudo de Emily Brady e Arto Happala, "Melancholy as an Aesthetic Emotion"].

Essa natureza sublime também está no Op. 67 nº 4, de Chopin, no Adaggieto da 5ª Sinfonia, de Mahler, no Estudo em Dó Sustenido menor, de Scriabin.

A música para cinema opera, quase sempre, no reforço expressivo de uma cena ou de uma ideia. O futuro sorumbático da ficção científica Blade Runner ganha tons melancólicos na trilha sonora feita por Vangelis. Mesmo John Williams, um compositor que opera na linha da música épica e triunfante (Star Wars, Indiana Jones, Superman), escreveu um tema musical que reflete a melancolia trágica de um povo no filme A Lista de Schindler. [ouça apenas o começo]



A música popular brasileira é vista como alegre e festiva. Mas há um lado nem sempre lembrado da canção popular: sua tristeza e melancolia. Desde as modinhas dos séculos 18 e 19, passando pelo samba-canção de “dor-de-cotovelo” dos anos 1940-1950 e chegando à bossa nova, os compositores expressaram a ausência, a solidão e a saudade.

Vejamos, por exemplo, o tema da felicidade. Como é mais fácil estar alegre do que ser plenamente feliz, a felicidade, na música popular, é retratada como algo fugidio, passageiro. Por isso, as canções que falam de “Felicidade” têm uma melodia que, assim como a letra, tende à melancolia. “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito” e assim a música continua com a melodia sempre descendo as notas da escala. “Tristeza não tem fim, felicidade, sim / A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor / Brilha tranquila, depois, de leve, oscila / E cai como uma lágrima de amor”, nos versos de Vinícius de Moraes.

No entanto, não são músicas com teor depressivo, mas canções cujo modo lento e contemplativo convida à reflexão sobre o caráter efêmero da felicidade humana.

Depressão não é o mesmo que melancolia. A depressão deixa a pessoa desmotivada, incapaz de completar as tarefas mais simples e sem interesse ou força para sair desse estado emocional. É um estado de doloroso pessimismo. Por outro lado, a melancolia não envolve um dor tão debilitante. Ela está ligada ao prazer obtido na reflexão e na contemplação. Esse aspecto reflexivo ou pensativo se traduz em um fazer produtivo.

Se os músicos estiverem passando por depressão, eles dificilmente serão capazes de ir ao estúdio encarar um longo processo de gravação ou de sair em turnê. Ou nem mesmo conseguem completar a composição de uma música. Assim, enquanto a depressão emperra a força produtiva, a melancolia poderá se traduzir num fazer criativo.

E o pop contemporâneo, então, está mais triste, depressivo?

A partir dos anos 1980, nota-se um desencanto individual e coletivo que resultou num pop melancólico, com tendências depressivas (Joy Division, The Cure, The Smiths, entre outras bandas). Os fãs do rock dos anos 70, por exemplo, costumam dizer que a banda Nirvana trouxe a depressão para o rock. O rock, que antes era considerado caso de polícia, agora seria um caso para psiquiatras? Hits entusiásticos, como “Jump” ou “Final Countdown”, foram sendo substituídos por um rock macambúzio, tristonho, um rock jururu.

O número de bandas que fizeram sucesso com canções soturnas, cabisbaixas, melancólicas e depressivas aumentou consideravelmente: Evanescence, Linkin Park, Sonic Youth, Arcade Fire, My Bloody Valentine, Coldplay, Green Day, Radiohead.

Como essa melancolia se expressa na música? Por meio da estrutura musical e do padrão de performance.

A estrutura rítmica é mais lenta, a estrofe tem uma linha melódica sem grandes saltos e é cantada na região médio-grave da voz. Há bastante espaço vazio entre os versos, o que cria uma sensação de longa espera pelo próximo verso e aumenta a sensação de incompletude. A guitarra não faz solos virtuosos, contentando-se com notas esparsas e arpejos lentos. No refrão, os instrumentos entram com mais peso e a voz fica mais aguda e forte. Ao final do refrão, volta-se ao clima soturno e reflexivo de antes, como se o refrão fosse uma tentativa de superação e o retorno à estrofe fosse uma forma de resignação ou, então, de pessimismo.

As letras falam de sentir-se estranho, esquisito ou deslocado no mundo, falam de solidão, de desilusão com a sociedade. Na comparação das músicas da banda Radiohead com as canções mais antigas do pop/rock, não é difícil perceber o aumento da tendência melancólica ou depressiva na música popular. 

Numa lista de canções mais melancólicas do pop, a maioria tinha sido composta nos últimos 30 anos: "Love will tear us apart", Joy Division; "Creep" e "No Surprises", Radiohead; "How soon is now", Cure; "Over", Portishead. Do lado oposto, uma canção dos Beatles, "Because", é de caráter musical melancólico, mas sua letra, não. Ou seja, é reflexiva, mas não deprimida. [ouça apenas o 1º minuto]




Nos anos 80, entre as bandas brasileiras que seguiram a rota melancólica figura a Legião Urbana. Vento no Litoral, Será?, Há Tempos, Pais e Filhos, e outras canções em que Renato Russo expressava as dores e anseios de sua geração. 

Ainda assim, canções como Pais e Filhos, descrevem os conflitos e infortúnios familiares, mas traziam uma mensagem de mútuo entendimento [você diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais] e o amor como solução para os conflitos afetivos [é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã].

Como se vê, alguns do hits melancólicos dos anos 80 e 90 podem ter descrito a ansiedade e o desespero, mas costumavam oferecer uma esperança de conforto, uma luz no túnel, como "Everybody hurts" (R.E.M.). Outras, afundavam no próprio desânimo. 

Diante do acúmulo de sucessos pop de teor depressivo, fica a pergunta: a escuta contínua de canções melancólicas e reflexivas pode aumentar a mágoa, a culpa,  a sensação de vazio? É claro que a simples audição de músicas mais alegres não é uma saída, já que o problema é de ordem psicológica e não musical. Mas a quantidade de canções de teor melancólico ou depressivo diz muito sobre uma geração autocomplacente e ansiosa. E muitas canções mais recentes não estão dispostas a oferecer conforto. 


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E na música cristã contemporânea, há músicas melancólicas? A melancolia é um estado de espírito adequado para transmitir as mensagens de esperança e salvação proclamadas pelo cristianismo? Isso fica para a próxima postagem.

Um comentário:

Paz amor e empatia. disse...

"Os fãs do rock dos anos 70, por exemplo, costumam dizer que a banda Nirvana trouxe a depressão para o rock" como os fãs de rock dos anos 70 falavam da depressão do Nirvana sendo que Essa badna teve seu auge nos anos 90?