
O espetáculo de abertura da olimpíada de Pequim foi uma cascata de surpresas, um rio de encantamento que, dirigido pelo mestre cineasta Zhang Yimou, foi capaz de emocionar gente de qualquer parte do planeta. Quem conhece a obra de Yimou sabe que ele é criador de cenas que parecem tableaux vivant. É só lembrar de filmes como Lanternas Vermelhas, Herói ou o belíssimo O Clã das Adagas Voadoras. Ele é um cineasta que compõe cenas em que os gestos, os movimentos e o figurino dos personagens se juntam às cores e aos enquadramentos de câmera para formar um mosaico de grande plasticidade.
Observando a movimentação e a composição de luzes, cores e gente, vi a imensa capacidade que a arte e a tecnologia (e a dinheirama pra providenciar tudo aquilo) têm de nos deixar embevecidos. Posso resumir minhas impressões em três pontos:
1) A tecnologia a serviço da grande arte chinesa: a projeção de imagens no centro do estádio Ninho de Pássaro, como se o campo servisse de tela de cinema, e na parte superior da arena, onde o ex-ginasta Li Ning (foto acima) dava uma volta olímpica espacial para acender a tocha dos jogos; os fogos de artifício desenhando pegadas no espaço; o formidável aparato de luzes projetadas sobre os corpos dos bailarinos; pessoas andando de cabeça para baixo no globo representando o planeta.
2) A harmonia das coreografias: barcos, remos, a pomba da paz, o próprio Ninho de Pássaro (foto),tudo formado por um mar de gente sincronizada (no Ocidente, nos perguntamos do rigor da disciplina a que teriam sido submetidos os participantes). Porém, aquela construção humana de tipos móveis, de movimentos tão perfeitos que se poderia julgar que tudo não passava de projeções criadas em computador, foi uma visão de surpreendente e rara beleza. Os dez divulgados meses de ensaios proporcionaram cenas de maravilhamento.

3) O gigante e o herói: no desfile burocrático dos atletas nacionais, a comitiva da China, última a entrar no estádio, trazia como porta-bandeiras o gigante Yao Ming e, ao seu lado, o menino Lin Hao, de apenas 9 anos (foto abaixo). Yao Ming, de 2, 26 m, joga basquete nos EUA e é filho do casal mais alto da China (o casamento de seus pais teve a “coordenação” e a benção do Partido Comunista do país). O pequeno Lin Hao tornou-se herói nacional durante o terremoto que abalou a província de Sinchuan ao ajudar no resgate de seus colegas soterrados cantando enquanto esperavam socorro, voltando ao local destroçado para resgatar outros dois amigos e andando com a irmã por 7 horas até encontrar a família. Enquanto o famoso jogador representava (in)voluntariamente as estratégias chinesas para entrar na arena esportivo- econômica mundial, o menino traduzia o heroísmo da vida comum.
Embora ouçamos os relatos das derrotas sociais da história chinesa (e que a China nomeia de ‘período da vergonha’), o espetáculo, evidentemente, saltava essas épocas e celebrava a invenção da pólvora, do papel, dos tipos móveis e da bússola. Afinal, foram 100 milhões de dólares genialmente usados para o show - um grãozinho perto dos 40 bilhões gastos para incrementar e maquiar a cidade.
Embora ouçamos os relatos das derrotas sociais da história chinesa (e que a China nomeia de ‘período da vergonha’), o espetáculo, evidentemente, saltava essas épocas e celebrava a invenção da pólvora, do papel, dos tipos móveis e da bússola. Afinal, foram 100 milhões de dólares genialmente usados para o show - um grãozinho perto dos 40 bilhões gastos para incrementar e maquiar a cidade.
Se operários foram mandados de volta ao campo para não poluir mais a cidade, se o comércio da falsificação é feito sem pudor nos shoppings, se há um uso do confucionismo para obediência irrestrita à política do partido, o espetáculo e os jogos irão, além de nos emocionar, camuflar as trevas sociais e oferecer por algumas semanas a doce ilusão da tolerância e da paz na terra e aos jogadores e torcedores de boa vontade.

E viva o espírito olímpico!
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