Pular para o conteúdo principal

A moderna canção cristã e a bossa nova

O que a canção cristã feita no Brasil poderia aprender com a cinqüentenária bossa nova? Vou responder indicando os traços de seletividade estética que caracterizaram a consolidação do estilo bossa nova. O estudioso da canção popular Luiz Tatit aponta o processo de “triagem” como uma das marcas centrais do processo que gerou a bossa nova (daqui em diante chamarei de BN). A “triagem” consiste em filtrar elementos cancionais (como melodia, arranjo, interpretação) e conteúdos de tradição e modernidade a fim de estabelecer um outro parâmetro de composição e performance musicais. No caso da BN, veremos como tradição e renovação foram assimiladas e dali se extraiu componentes de indelével qualidade.

1) Valorização equânime dos parâmetros musicais

Na BN, a integração entre melodia, harmonia, ritmo, arranjo e interpretação não sobrevaloriza nenhum desses aspectos em detrimento do outro. Se na música popular anterior à BN o componente melódico-rítmico era comumente realçado através do vozeirão, da orquestração pomposa e da “cozinha percussiva”, na BN instrumentistas e cantores não prevalecem uns sobre os outros, o que deixa pouco espaço para estrelismo e exibicionismo técnico. Segundo Rocha Brito , a valorização do cantor acontece na medida em que ele co-participa da elaboração musical, seguindo o conceito de que ele existe em função da obra e não para afirmar sua personalidade sobre ela. A performance na BN é uma maneira de assegurar a realização coletiva em vez do brilho individualista.

2) Recusa do efeito grandiloqüente e do arroubo operístico

Ao contrário da maior parte do pop/rock, que se caracteriza pela busca de virtuosismo e de efeitos de arrancar suspiros, a BN renuncia ao arrebatamento vocal e aos efeitos de forte contraste. Não há pianos velozes, guitarras em disparada, viradas homéricas de bateria, cantores em rodopios, cantoras em figurinos extravagantes. O intérprete não se opõe à banda. E mesmo o arranjo não se sobressai, acompanhando a proposta de contenção de sons e gestos da BN.
O operismo virtuosístico das obras do Romantismo eram bastante reproduzidos na música popular brasileira até o surgimento da BN. Os reis da voz carregavam nas tintas melodramáticas e no “canto soluçado”, na “lágrima na voz”. Embora Elis Regina levasse esse estilo de cantar quase ao paroxismo, uma boa leva dos cantores populares abraçou a proposta da BN de cantar sem afetação, sem malabarismos, sem a busca do efeito dramático (nos anos 60 e 70, Roberto Carlos fazia o estilo BN de cantar em suas canções românticas).

3) Integração não-ideológica da canção nacional com os estilos internacionais

O pensamento de revitalização dos estilos típicos nacionais esteve em questão no período pós-bossa (1965-1979). Ai dos pianistas e guitarristas, ai das melodias sob a influência estrangeira. Essa orientação musical xenófoba, herdeira do pior da ideologia nacionalista, ressaltava que nosso céu é mais azul e nossa música regional era a mais bela, não porque fosse intrinsecamente bela, mas simplesmente porque pertencia ao que chamavam de ‘povo brasileiro’. Ainda bem que essa demagogia cultural, que adentrou as portas de igrejas católicas e protestantes por um bom tempo, não ocorria com tanta força nos anos 50 e hoje caiu na obscuridade.

Na BN, a importação de procedimentos musicais (harmonia jazzística, interpretação cool) coexistiu com a adoção de estilos regionais brasileiros. Assim, a tradição melódica/rítmica do samba de Noel Rosa, Geraldo Pereira e Dorival Caymmi se integra à modernidade harmônica/vocal de Gershwin, Chet Baker e Mel Thormé. Os inventores da BN foram, durante os anos 50, agregando material local e internacional sem, contudo, redundar em mera mimetização de estilos já consagrados ou da moda recente. O processo de triagem eliminou características que não se conformavam aos seus princípios de elaboração musical, o que resultou na “batida diferente”, num estilo diferenciado. Foi, portanto, reduzindo a canção e sua interpretação ao essencial melódico, rítmico, instrumental e interpretativo das experiências musicais que conheciam e optando pela simplicidade expressiva que a BN deu um “salto qualitativo” reconhecido aqui e no exterior.

* * *

Podemos lembrar da aparente simplicidade das letras da bossa nova, do romantismo respeitoso de Vinicius aos poemas metalingüísticos de Newton Mendonça passando pelo engajamento de Carlos Lyra. Mas fica pra outro texto.

Antes de concluir, quero deixar claro que, embora a BN seja o estilo mais elegante e comedido da música brasileira, não é intenção do meu texto discutir que gênero é bom ou não para as denominações cristãs. Considerei aqui princípios norteadores de seleção de parâmetros musicais. E ainda, lendo que a BN pautou-se pela contenção lírica e pela renúncia ao efeito virtuoso, posso até ouvir dois ou três leitores reunidos apontando esse texto como crítica pessoal a alguns cantores cristãos. Mas basta clicar no link da seção ‘gospel’ do meu blog e ler as análises de cds para entender meu pensamento em relação ao assunto ‘performance’.

As letras da BN focalizavam o “o amor, o sorriso e a flor” em temas melódicos suaves e ondulantes como o “macio azul do mar” em que um barquinho deslizava. Mesmo ao dizer “que tristeza não tem fim, felicidade sim”, a melodia não era um pote até aqui de mágoa. A sinuosidade melódica e a dissonância harmônica restringiam o exaspero por parte do cantor. Porém, mesmo a BN capitulou quando o golpe militar fez com que alguns compositores e cantores percebessem que a leveza da BN não rimava com os anos de chumbo que viriam e aumentaram o volume do protesto. Infelizmente, a flor dava lugar ao fuzil.

Na música cristã, os temas falam não apenas de conversão e comunhão, temas estes que podem ser cantados sem maiores arroubos. Porém, os conteúdos que rememoram o sacrifício de Cristo na cruz ou que antecipam cenas da segunda vinda de Jesus dificilmente podem ser cantados sem o extravasamento emocional que perpassa pela voz. Pode-se desgostar de certos exageros e trejeitos chamativos, mas é preciso levar em conta a tentativa de transmitir o sentimento e a mensagem do verso cantado.

Voltando à pergunta inicial, “o que a canção cristã feita no Brasil pode aprender com a bossa nova?”, a resposta está nas entrelinhas das características que citei acima. Para ser uma música relevante, a canção cristã não precisa desprezar a tradição em favor do modismo mais imediatista, nem tampouco rejeitar a musicalidade moderna invocando uma discutível pureza das tradições musicais.

Os músicos cristãos precisam saber o que e por que escolher os elementos da tradição sacro-musical e como introduzi-los em seus hinos e canções. Não é o caso de somente regravar o consagrado em nova roupagem, mas de dar continuidade à história da música protestante orientando-se por princípios gerais e não por modelos circunstanciais. A triagem, para a música cristã, se faz necessária porque essa música pretende divulgar uma mensagem de clara oposição ao pensamento secular. O pensamento de que o componente melódico-rítmico é apenas um meio de apresentar letras religiosas é um equívoco. A canção é também a performance vocal e instrumental, a poética e o estilo, além de ser representativa do contexto em que se manifesta.

Sabemos que compor ou cantar sem ser alcançado pelos “disparos do front da música pop” é tarefa inexeqüível. Mas cabe aos compositores, cantores e produtores a procura por filtrar as informações e experiências musicais, submetendo-as ao estudo e à triagem, a fim de construir canções e interpretações que, ao mesmo tempo, façam sentido para sua geração e expressem novidade de valor e diferença à altura dos conteúdos cristãos que prezam.




Luiz Tatit, O século da canção.


Rocha Brito, em O balanço da bossa, de Augusto de Campos.

Comentários

André disse…
Joêzer, meu caro
Mais uma vez um artigo interessante e, acima de tudo, intrigante e polêmico. Sugerir uma triagem consciente dentro de estilos musicais para ser aplicado à canção religiosa contemporânea requer bastante conhecimento não somente de história da música, mas também um conhecimento aprofundado da definição dos estilos musicais à disposição (algo semelhante que vc fez com bastante propriedade em relação a Bossa Nova neste artigo). Exigir isso de músicos cristãos ou qualquer músico não me parece ser apropriado, pois seria postura elitista confinando a criação artística somente aos músicos intelectuais. Isso parece neglicenciar que a maior parte da criação musical popular baseia se mais na intuição do que na formação técnica. Acredito ser a função dos intelectuais e historicistas conscientizar os músicos em geral, mas não vejo necessidade de exigir isso da criação 'a priori'.
Coincidentemente acabei de postar uma faixa no meu multiply que vc poderá considerar interessante tanto musicalmente como em relação ao estilo musical escolhido.
Saiba que neste caso, a escolha da música e do arranjo foram feitos de forma bastante consciente.
Sua opinião lá será bastante bem-vinda.
shalom
André

PS: É interessante notar que o cristão brasileiro adventista não tem dificuldade em aceitar propostas estilísticas do pop/rock, mas quando se trata de influências populares nacionais as próprias associações ligadas aos estilos polemizam bastante o uso dos mesmos.
JSM disse…
é verdade que a triagem estética na bossa nova parece uma atitude consciente, quase um manifesto cultural como a tropicália.
tipo "vamos escolher esse e aquele elemento, rejeitar isso e aquilo outro".

mas essas decisões não são assim esquemáticas. a questão é que as escolhas são, de fato, intuitivas, mas não casuais ou fortuitas. E tb são movidas por decisões conscientes. o compositor, popular ou intelectual/erudito, sabe o que está reproduzindo. O arquivo sonoro do compositor vem à tona no momento mesmo da composição. mas após a elaboração musical inicial, por vezes (se não sempre) aquele pensamento básico sofre alterações e intervenções que, em geral, escapam às intenções ou habilidades do compositor. é quando entram em cena o intérprete e o produtor do estúdio, que tornam-se co-autores da canção ao reformatá-la por adição ou subtração de elementos musicais e extramusicais.

quando trabalhei na universidade federal do maranhão, pude observar o contexto da triagem intuitiva que os compositores populares realizavam. em conversas com o prof. Ikeda, etnomusicólogo da unesp, falávamos (digo: eu compreendia) do quanto subestimamos a capacidade de filtragem de parâmetros musicais exercida pelos cancionistas populares.

e ainda: não exigir a triagem do músico cristão não seria subestimar sua capacidade de percepção do que seja apropriado, além de um exercício de demagogia, de mera troca de hierarquia (o cantar da "elite" pelo cantar do "povo")?

e tb digo que é sempre bom poder dialogar com vc a respeito desses assuntos.
André disse…
não acredito que esteja subestimando o compositor... na verdade só me referia a ele e não necessariamente ao processo de arranjo, gravação e produção
fato é que o compositor, apesar de talentoso, pode não conscientemente compreender as sutilezas da estética que ele está criando, mesmo que ele tenha todas as intenções de criar algo para Deus e para elevação do seu povo ou outros ideais religiosos.
mesmo levando em conta toda a linha de produção da música só em casos ideais haverá alguém de fato consciente da história e forma da estética de cada canção que estará sendo gravado... seria bastante 'naive' pensar ou supor o contrário
tive a sorte de ter participado somente de produções onde existia uma imensa consciência de cada passo, mas isso é exceção e posso falar de poucos casos da música religiosa ou popular (dentro da minha esfera de conhecimento) que possam se gabar deste tipo de procedimento de forma consciente...
vai ser bastante 'food for thought' e para discussão também...
forte abraço
shalom
douglas reis disse…
Do ponto de vista do Cristianismo, esta triagem deveria levar em conta o propósito, além de um conhecimento técnico-histórico que André tão bem salientou.

Durante a Reforma Protestante, o aspecto enfatizado pela cultura protestante era o redentivo:

"A noção comum entre poetas, literatos, cientistas e filósofos do século XVII sobre cultura é a de que ela compreende atividades que objetivam a anulação das conseqüências do pecado, ou seja, concebe-se nesta época um aspecto redentivo à cultura." Paolo Rossi, “A ciência e a filosofia dos modernos: aspectos da revolução científica” (São Paulo, SP: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992), p. 61

Este tipo de compreensão de propósito do século XXVII é um herdeiro da Reforma Protestante, que unificou o pensamento humano, colocando todas as àreas sob a Revelação.

Ao lidar com as diversas contribuições musicais, os músicos influenciados pela Reforma procuraram combinar os elementos que tinham, visando glorificar a Deus (Ver o comentário de Schaeffer sobre Bach, em "Como viveremos?", livro cuja indicação devo a André).Este é um grande exemplo para nós.

A questão da consciência da estética deve preocupar nossos músicos a ponto de se dedicarem a compreender o que estão fazendo (e nisto pode haver uma colaboração positiva entre artistas e teológos, que, na prática, não tem rendido bons dividendos nas atuais conjunturas...)

Infelizmente, uma das consequências de não seguirmos estritamente a Praxe bíblica de um sacerdócio remunerado totalmente voltado para a música é a dicotomia entre a esfera do músico e a do pastor, que, por suas formações e visões diferentes acabam medindo forças e não cooperando para produzir uma música cristã contemporânea e sacra, espiritual sem deixar de ser relevante.

Espero que Deus use textos como este para provocar o debate, no sentindo de procurarmos melhorar cada vez mais a qualidade da música que, na condição de povo escolhido por Deus, temos produzido.
douglas reis disse…
Do ponto de vista do Cristianismo, esta triagem deveria levar em conta o propósito, além de um conhecimento técnico-histórico que André tão bem salientou.

Durante a Reforma Protestante, o aspecto enfatizado pela cultura protestante era o redentivo:

"A noção comum entre poetas, literatos, cientistas e filósofos do século XVII sobre cultura é a de que ela compreende atividades que objetivam a anulação das conseqüências do pecado, ou seja, concebe-se nesta época um aspecto redentivo à cultura." Paolo Rossi, “A ciência e a filosofia dos modernos: aspectos da revolução científica” (São Paulo, SP: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992), p. 61

Este tipo de compreensão de propósito do século XXVII é um herdeiro da Reforma Protestante, que unificou o pensamento humano, colocando todas as àreas sob a Revelação.

Ao lidar com as diversas contribuições musicais, os músicos influenciados pela Reforma procuraram combinar os elementos que tinham, visando glorificar a Deus (Ver o comentário de Schaeffer sobre Bach, em "Como viveremos?", livro cuja indicação devo a André).Este é um grande exemplo para nós.

A questão da consciência da estética deve preocupar nossos músicos a ponto de se dedicarem a compreender o que estão fazendo (e nisto pode haver uma colaboração positiva entre artistas e teológos, que, na prática, não tem rendido bons dividendos nas atuais conjunturas...)

Infelizmente, uma das consequências de não seguirmos estritamente a Praxe bíblica de um sacerdócio remunerado totalmente voltado para a música é a dicotomia entre a esfera do músico e a do pastor, que, por suas formações e visões diferentes acabam medindo forças e não cooperando para produzir uma música cristã contemporânea e sacra, espiritual sem deixar de ser relevante.

Espero que Deus use textos como este para provocar o debate, no sentindo de procurarmos melhorar cada vez mais a qualidade da música que, na condição de povo escolhido por Deus, temos produzido.
André disse…
Eu diria que a pura observação empírica da música Adventista brasileira remonta cada vez menos a uma “triagem” ou seleção intencional e muito mais à repetição inconsciente de elementos musicais, trejeitos vocais e musicas superproduzidas.

Isso pode ser verificado pela pletora de Cds produzidos hoje em que não se verifica a mínima variação de linhas melódicas, pontuação rítmica ou abordagem de instrumentação. Ouviu um, ouviu todos.

Concordo que a triagem seja um elemento inegável a músicos profissionais ou "intelectuais". O processo envolve uma busca pela excelência pessoal que não é imediatamente alcançada no que ouvimos hoje porque ela preenche a lacuna da necessidade e não necessariamente da excelência.

Talvez o maior exemplo dessa triagem seja Bach, que compôs estritamente no estilo da época e usou seu intelecto inexpugnável para produzir composições que são imediatamente reconhecidas como "Bachianas".

E, como vocês falaram por eufemismos acima, existem muito mais amadores produzindo e compondo música hoje no Brasil do que músicos treinados. O zelo religioso suplanta a técnica e a busca pela estética original. Com isso, é impossível esperar qualquer esforço consciente referente à técnica envolvida, linhas melódicas ou elementos intangíveis da música e o resultado tende a cair na mesmice.

Um biproduto disso é que essa música aliena os músicos intelectuais que não se satisfazem com a “pobreza” de elementos da música “cristã-pop”. Outros que são alienados são aqueles que se apegam a leituras afuniladas da revelação e rejeitam o novo como subversivo e pecaminoso. Eu sempre digo que e órgão de tubo foi um escândalo quando foi introduzido na igreja e hoje eles se empoeiram em catedrais vazias.

Do ponto de vista ministerial, porém, a ausência da infame “triagem” não exclui o elemento sucesso: se a música atinge alguém com o Evangelho, ela alcançou seu objetivo, esperneiem os conservadores. Esse fato joga areia no argumento tradicionalista de que temos que compor dentro de certos parâmetros técnicos, quase sempre da época clássica-romântica, para sermos aceitáveis como músicos.

Talvez a discussão da música nos meios adventistas precise enveredar mais para o lado de um novo entendimento da Revelação bíblica e EGWhite antes de elementos musicais, até porque a IASD continua sendo extremamente hierárquica e sectária. A coronelice come solta por aí…

Um último elemento que quero mencionar é que a qualidade e eficiência musicais são elementos imediatamente reconhecidos e assimilados pelo ouvido humano, treinado ou não. A 5a Sinfonia de Beethoven, por exemplo, contém emoções universais inafiançáveis.

Sendo assim, um ideial seria a música adventista brasileira atingir o ser humano em todas as suas facetas, emocionais, intelectuais, físicas. Será que tem como??

Sobre o que Douglas falou acima, é óbvio que o propósito da música Cristã é alcançado primeiramente pela sua mensagem tangível: a letra teológica. Exigir que certos acordes ou elementos musicais se encaixem num parâmetro de total consonância com a mensagem da letra é tarefa titânica, afinal, do ponto de vista sonoro, não existem acordes “doutrinariamente” corretos, ou intervalos melódicos “demoníacos”. (A Igreja Católica Medieval tentou banir o intervalo si natural e f natural porque formavam a tríade satânica. A dissonância era mais do que eles podiam agüentar, na época. Parece que já ouvi isso em alguma IASD do interior…)

Finalmente, acho que Deus se utiliza da cultura imediata para envolucrar sua mensagem. Os Israelitas aprenderam música com os Cananeus. Onde foi parar a triagem nesse caso? Deus pode e usa o Louvor Rural e o Rebanhão para alcançar pessoas que vivem às margens no reino de Deus. Sejamos mais pragmáticos para alcançar alguns e menos dogmatizantes.

Enquanto isso (na sala de justiça…), vou pegar meu CD de canto gregoriano para meditar um pouco…
arsg disse…
suponho que o André que acabou de postar seja o André Reis... temos que dar um jeito de nos identificar a diferença dos autores para que os leitores consigam distinguir entre os múltiplos Andrés... ;)
não que eu esteja discordando ou concordando, mas 'honour (or wrath) bestowed upon whom is honour (or wrath) is due'
shalom
JSM disse…
aos amigos que melhoram o debate,
a) a consciência estética não é apanágio de músicos formalmente treinados. os diversos grupos socio-culturais, de um modo peculiar, tomam decisões estéticas que sejam as mais adequadas aos seus prpósitos;

b) mesmo a famigerada 5ª de Beethoven só exercerá algum poder de atração sobre um determinado grupo socio-cultural e em determinadas circunstâncias.

c) decorre do item b que um gospel que se vale do hip-hop para 'atingir' os aficionados do gênero só causará desconforto ao ser deslocado do lócus cultural com o qual está associado.

d) músicos cristãos que abraçaram o contexto pop acriticamente cada vez menos dão valor à operação do Espírito Santo na conversão de pessoas e enfatizam cada vez mais um papel sobrenatural da música. É o que Magali Cunha (em A explosão gospel - tese uspiana lançada como livro) chama de sacralização de elementos pop - em outras pesquisas e entrevistas é possível perceber o limite rarefeito entre a intenção pragmático-missionária e mero comércio.

d) O que os inventores da BN fizeram não foi mimetização simplória do jazz: não havia lugar para o improviso virtuosístico ou para o vocal exuberante; os americanos é que acrescentaram naipe de sopros; o banquinho e o violão e a temática poética mais contida convidavam mais à audição do que à dança; no fim dos anos 50, as letras da mpb estavam cada vez mais aboleradas e chorosas e vinicius e newton mendonça introduziram a poética mais simples e natural (como no swing e no fox, mas em carioquês). A música cristã pode também (e não obrigatoriamente em todos os casos) assimilar essas lições. Extrair das inevitáveis influências alguns parâmetros que a tornem diferente. se a IASD prevê um regime nutricional diferente, se a semana lhe é diferente quanto á importância dos dias, se a liturgia é diferente. talvez seja o caso de pensarmos em apresentar algo diferente do que o evagelicalismo mais imediatista e rasteiro anda apresentando.

e não me tomem por definitivo. gosto e cultura se discutem, sim, e só temos a crescer no diálogo.

abs
joêzer
André disse…
André, a fotinha ajuda a diferenciar... hehehe
arsg disse…
rapaz,
aqui não aparecem as fotos.. só nesta página onde se digitam os comentários
:)
André disse…
andré, a foto minha e a do Douglas aparece aí, não sei se entendi o que vc falou...

abraço
JSM disse…
vou ver se o blogspot oferece esse modelo de postagem de comentário com foto.

mal saí do web-analfabetismo e não posso garantir muita coisa. agradeço ajuda.

joêzer
André R. disse…
Oi jsm, tem que ir em

configuracoes > comentarios >

Mostrar imagens de perfil nos comentários? > SIM

Eu pensava que ele mostrava automaticamente... mas no seu perfil tem que ter uma foto pra ele mostrar, é claro, vai ver que é isso...

outra coisa que seria legal é tirar essa verificacao de palavras antes de postar comentários que é bem irritante. Isto está em >CONFIGS> comentários também... só uma sugestão...
andre
André R. disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
André R. disse…
Joêzer,

Estamos falando de música ocidental certo? então o exemplo da 5a de Beethoven continua a expressar emoções universais, dentro do contexto ocidental. E elementos de qualquer música occidental passa a exercer influência naqueles que foram criados nesse meio, independente de sua experiência de vida.

Agora, se vamos falar de música oriental, que sequer usa a escala de 12 tons que nós usamos, aí, só desejo boa sorte pra quem quiser esmiuçá-la... Debussy conseguiu incorporar alguns elementos dela com sucesso mas não foi muito longe não.

Ainda nessa veia, elementos do hip-hop ou até do rap acoplados à mensagem sacra passam por um período de dessensibilização e podem chegar a ser compreendidos e apreciados mesmo por aqueles que não fazem parte do contexto cultural original. Como disse, não há como provar que haja algo intrinsicamente pecaminoso ou subversivo em elementos musicais. O contexto e a intenção talvez estejam abertos a discussão mas mesmo assim, é fácil cair no julgamento e “vãs suspeitas.”

É exatamente esse processo de dessensibilização que trouxe a música sacra através da história ao que é hoje, do canto gregoriano, a cappella, para as obras de coral de Mozart e Mendehlsohn ao Black Gospel.

Sobre a música suplantar o trabalho do Espírito Santo acho que os dois vão de mãos dadas e não podemos criar tabelinhas pra determinar quando o Espírito pára de trabalhar e quando a música entra em cena como aspecto principal de conversão ou coisa que o valha.

Como músicos sabemos o poder de certos artifícios musicais (como um dueto de sextas na mão direita no piano) para acalmar o espírito ou evocar certas emoções, sentimentos e levar a decisões. E tudo isso de uma maneira ou outra é usado pelo Espírito no momento da entrega.

Mas existe também o elemento orgânico da música como efeito puramente sonoro sobre as células do corpo humano que não pode ser desprezado. Acho que é por isso que a música é chamada de MUSA, porque suas incursões na psiquê não são totalmente compreendidas. Isso é tão profundo, mas continua sendo banalizado pelos empunhadores de livros vermelhos e pretos...

Sendo assim, acho que, como adventistas precisamos abrir o leque de possibilidades musicais na expressão da condição humana e do plano divino, levando em conta que nossa música não deve fazer parte de um pacote de salvação pelas obras que varre a IASD por aí.
JSM disse…
andré r.,
valeu pelas dicas sobre o blogspot.

veja peter winkler (in 'reading pop', p. 31) falando sobre a canção popular: o significado de um elemento musical particular não reside tanto no "QUÊ" ele é quanto no "ONDE" ele está - seu alocamento particular dentro de várias linhas de associação e diferenciação.

talvez aí esteja uma razão para vermos que os elementos musicais dependem não apenas do material sonoro mas do contexto em que estão inseridos. descarto a questão da origem do estilo como fator de adoção ou rejeição do mesmo estilo (teríamos que abandonar o natal, não comprar mais ovos de pascoa para os filhos, nem ver filmes).

importa o que estão fazendo com esse estilo. o hip hop gospel (vou falar do Brasil) só apresenta conteúdo de letras apreciáveis. o estilo literário pode lá não ser aquele da gramática escorreita, mas fala a uma classe socio-cultural à margem do 'bom-gostismo'. as letras recomendam o amor casto, o sexo exclusivamente marital e heterossexual, a tolerância e o amor ao próximo; falam sobre os perigos da dependência química e sobre o cotidiano de criminalidade.

o estudo das subculturas musicais (os diversos estilos adotados por grupos/comunidades dentro da esfera mais totalizante da sociedade) revelou que certos elementos musicais funcionam melhor para certos grupos sócio-culturais.

se universalizamos o poder da música (e o termo 'ocidental' é abrangente demais) podemos continuar utilizando nosso estilo (já nem tão tradicional assim) para evangelizar com a ajuda da música. se especificarmos o poder da música dentro de limites de atração e recepção(buscando aproximar-se das subculturas), podemos empregar novos meios musicais para outra forma de evangelismo.

minha crítica em relação ao gospel neopentecostal se dirige principalmente às táticas de marketing para o consumo dos produtos (musica, roupas, loções, programas de tv e radio) e a sua notória mistura de "templo, teatro e mercado" (título de um livro do prof/dr leonildo campos, da univ. metodista - grande nome aqui no brasil das ciências da religião).

vou levar essas opiniões para um próximo texto

joêzer

por que não é aceito pelas igrejas tradicionais? por ser um estilo ainda muito associado à marginalidade e à vulgaridade
André R. disse…
Olá Joêzer,

Não poderia discordar mais da premissa de Winkler. Se esse fosse o caso, não poderíamos apreciar a música de Mozart porque ela é fruto de um momento histórico bem como um contexto cultural local, profundamente Europeu e aristocrático. No entanto, conseguimos entender a linguagem e os elementos porque se tratam de uma linguagem universal, dentro do contexto occidental-afluente, como falei antes. Adiciono o afluente porque de fato muitas culturas africanas embora sejam ocidentais, não se relacionam com nossa abordagem musical germânico-Européia.

Outro exemplo do problema com a premissa de Winkler é a ascensão dos elementos do Black Gospel Americano na música evangélica brasileira. O Black Gospel surge diretamente da experiência negra Americana de escravatura, luta e libertação e mais recentemente (anos 60) dos direitos civis de Martin Luther King Jr. A maioria dos que querem imitar os trejeitos vocais, instrumentais e coralísticos no Brasil não são negros e nem de longe se relacionam com a narrativa, pelo menos de forma objetiva. No entanto, a música é eficaz e alcança o objetivo em relatar a odisséia divino-humana.

Nessa linha, discordo quando vc diz que :
o estudo das subculturas musicais (os diversos estilos adotados por grupos/comunidades dentro da esfera mais totalizante da sociedade) revelou que certos elementos musicais funcionam melhor para certos grupos sócio-culturais.

Acho que o argumento da dessensibilização a esses elementos é uma maneira melhor de explicar porque certos estilos alheios a certas culturas passam a ser aceitos e apreciados. Exemplo, a Bossa Nova como estilo profundamente original e até certo ponto anti-jazz, ganhou espaço na América do Rock’n Roll dos anos 60 porque a linguagem era consoante e acessível.

O “certos elementos” abre uma caixa de Pandora a meu ver. Isso porque teríamos que aceitar ou rejeitar os mesmos de forma arbitrária sem levar em conta experiências pessoais. Talvez aí esteja o maior problema da teologia Adventista, querer ditar qual minha experiência pessoal. Como vamos criar tabelinhas para controlar o poder da música?

Continuando, a Bossa Nova como subcultura musical brasileira só recentemente foi adotada como mais um veículo ao Evangelho por cantores mais arrojados. Embora a BN seja música estritamente brasileira, chegando a ser regionalista (Rio), por que então ela não atraiu músicos cristãos? Talvez por que os elementos musicais não são lá tão acessíveis num primeiro momento à musica sacra. A meu ver, isso vai de frente ao argumento de Winkler.

Vc disse:
minha crítica em relação ao gospel neopentecostal se dirige principalmente às táticas de marketing para o consumo dos produtos (musica, roupas, loções, programas de tv e radio) e a sua notória mistura de "templo, teatro e mercado"…

Sinceramente, não vejo problema com a indústria Gospel, a menos que seja corrupta ou fraudulenta, como nos dias de Jesus. Se hoje gastamos nosso dinheiro com tanta banalidade que não me leva a pensar em Deus, por quê não apoiar aqueles que vivem do Evangelho?

Abraço,
André
www.igrejaadventista.com
JSM disse…
acho que vc deslocou um pouco a citaçõ do winkler. vc continua generalizando o fator grupo social. não se trata da aceitação de um estilo da aristocracia pela 'plebe'. e tb a adoção de estilos nas subculturas não exclui países diferentes. o movimento hippie, a cultura gospel, a cultura hip hop, cada uma encontrou um nicho social em diferentes lugares.

não se pode negar é que há características econômicas e sociais que ligam os aficionados de cada grupo (fãs do U2, fãs do Third Day, fãs da Sandi Patti). esta é a teoria do filósofo michel maffesoli - ele usa o termo 'neotribalismo' para explicar esse fenômeno (o termo não tem sentido negativo).

é claro que a música de mozart possui elementos de aceitação em diversas sociedades. mas ela não irá falar tanto à comunidade rap ou aos aficionados de pagode ou axé-music. por isso, não posso criticar o emprego de gêneros pop para alcançar certos grupos socio-culturais (as subculturas).

no trem da marginal pinheiros: ouve-se algum concerto clássico e vários grupos preferem outro estilo. eu prefiro música nenhuma nos trens. mas é visível que o "QUÊ" está fora do "ONDE" ou no mínimo do "QUANDO".

creio que a citação do Winkler nos dá base para aceitarmos os novos estilos musicais e introduzirmos nas canções cristãs novos formatos.

note que Winkler não anula o fator o QUE, mas dá importância também ao ONDE.

quando digo que certos estilos musicais funcionam melhor para certos grupos socio-culturais estou defendendo o ponto de vista que utiliza certos gêneros para alcançar indivíduos que, talvez, não teriam sua atenção chamada para os valores cristãos.

quando ouço rodolfo abrantes tocando seu pop/rock gospel e diversas pessoas modelando seus valores por aquilo que ele canta, como pode alguém criticar? quando
carman utiliza a 'formula' entretenimento-evangelização para atrair a juventude para valores dignos, como criticar?

só um fariseu ou cínico pode criticar destrutivamente esses cantores. duvido que a IASD um dia chegue a tanto - talvez por levar até longe demais o conceito de 'separação do mundo' e 'ser diferente'. e ainda cada igreja tenha sido erguida/chamada para atrair a Cristo um público diferente com formatos e intenções de boa-fé.

quanto a minha crítica ao consumo:
não desfaço da indústria gospel enquanto modo de operação dentro do sistema capitalista em que vivemos. porém, o que está acontecendo ~exageradamente são fatos como: "o 1º cd foi um sucesso, um 2º uma benção, o 3º vai bombar geral"; empresas como a beltty associarem seus produtos a versos bíblicos como forma de sacralizar o que vendem; o cristianismo "100% Jesus" nas camisetas; é o sectarismo dos consumidores em relação a produtos seculares; é o cartão de crédito gospel, é o cosmético 'embelleze' usando versos salomônicos para vender beleza em potinhos; é o oficina g3 que faz pop/rock gospel de qualidade e já cria uma marca de roupas; é o rick warren e o bispo macedo dispararem seus slogans de auto-ajuda e prosperidade sem limites (como se diz: 'Deus é ilimitado...as compras podem ser ilimitadas')

minha crítica não é para a experiência individual, mas a forma como as lideranças e grupos musicais estão apressadamente abraçando práticas de simples pragmatismo comercial. além disso, há tb (sem generalizar) uma crença numa suposta neutralidade das formas de comunicação, em que transparece uma perspectiva utilitária cujo valor da forma comunicacional é determinada pelos fins que almeja (o que tb me lembra a luta por números de conversos e os subterfúgios empregados para).

por último, de fato, é difícil criticar uma indústria e as estruturas que ela desenvolveu, se só as atitudes dos corações dos indivíduos são consideradas importantes. essa abordagem irreleva a possibilidade de que práticas 'anti-cristãs' tenham sido embutidas nas estruturas da indústria.

esse artigo rendeu boas idéias e gerou o diálogo. agradeço por tb aprender com quem se dá ao trabalho de ler o blog.

joêzer
douglas reis disse…
Vale notar um detalhe: não há subsídios para se afirmar quer os judeus aprenderam sua música com os cananeus - Dornelles afirma o contrário; baseando-se na expriência do êxtase presente em outras religiões primitivas (cf.: a atuação extática dos profetas de Baal em I Reis 18), ele apresenta argumentos mostrando que Deus queria que seu povo, ainda que se encontrasse influenciado pela cultura egípcia (por causa do longo período antes do Êxodo), tivesse uma compreensão diferente da música sacra, porque serviam a um Deus diferente dos demais deuses.

Quanto à música produzida por e para determinadas tribos urbanas, surgiu uma reportagem na revista Galileu, a qual critiquei (o que escrevi se encontra no endereço http://questaodeconfianca.blogspot.com/2008/02/cano-e-vida-coerncia-necessria-entre-o.html)

Não podemos nos esquecer de que os fariseus se apegam às regras, enquanto Deus não trabalha com regras. Ele nos dá princípios através de Sua Revelação.

Nossa compreensão e envolvimento com a Revelação nos dará condições de praticar as orientações divinas dentro de nossa cultura. Daí que a música sacra não tem que ser igual a de Bach. No entanto, B. B. Beach afirma que o culto (e a música sacra por extensão, diríamos) é transcultural, ou seja, extravasa os elementos primários da cultura.

Nossa obrigação diante da divindade é apresentar-Lhe música agradável e não simplesmente tentar impressionar os incrédulos, como Ellen White afirma:

"Vi que todos devem cantar com o espírito e com o entendimento também. Deus não Se agrada de algaravia e dissonância. O correto é sempre mais agradável a Ele que o errado. E quanto mais perto o povo de Deus se puder aproximar do canto correto, harmonioso, tanto mais é Ele glorificado, a igreja beneficiada e os incrédulos favoravelmente impressionados." (Evangelismo, p. 508).

Creio que textos como este, estudados por todo músico adventista consciente e disposto, fornecerão os paradigmas adequados para nortear a nossa produção musical.
André R. disse…
Douglas disse:

“Não podemos nos esquecer de que os fariseus se apegam às regras, enquanto Deus não trabalha com regras. Ele nos dá princípios através de Sua Revelação.”

Concordo. O nosso maior problema é inventar as tabelinhas e levá-las para a igreja no sábado de manhã. Em se tratando de música, porém, os princípios são escassos e as abordagens diversas como a criação. Seria próprio dizer que uma planta é mais divina do que outra? Apesar dos espinhos, Deus a criou. Tenho certeza de que nenhuma diaconisa se recusaria de enfeitar a igreja com rosas que têm espinhos.

Assim a música, apesar das imperfeições inerentes à nossa realidade, esse é o meio que Deus usa e prefere que usemos ao adorá-lo, não importa quão imperfeita e aquém da música dos anjos.

Sobre a música de Israel, aqui vão algumas citações de arqueólogos sobre a música israelita sendo influenciada pelos cananeus. Desculpe mas não tive tempo de traduzir:

"There is incontrovertible archaeological evidence for the antiquity of the musical guilds themselves. The Phoenicians (Canaanites) outshone their contemporaries in music, and the Israelites were early influenced by them. "Musical guilds of the Hebrews may be traced back in some instances, to old Canaanite families whose designations, such as Hemen the Ezrahite (I Chron. 2:6), became a part of later Hebrew family names." (Unger, Merril, Archaeology and the Old Testament, Zondervan, P. 216-7)

“Although we know too little of prevailing musical techniques to make definite statements, Israelite music under Phoenician influence probably soon reached standards of excellence as high as any in the contemporary world." (Bright, John, A History of Israel, p. 198).

Se Deus quis ensinar outro tipo de música a Israel, não há evidência bíblica nem histórica para isso. Lembre-se também que a música daquela época era muito mais simples do que hoje, os instrumentos eram limitados e as noções de ritmo etc., que temos hoje são muito mais recentes, do século 15-16 AD. Se você quiser falar de elementos extra musicais, aí tudo bem.

Nossa obrigação diante da divindade é apresentar-Lhe música agradável e não simplesmente tentar impressionar os incredulous…

Discordo. Nossa obrigação é oferecer um louvor genuíno, que seja consoante ao caráter divino em seus atributos comunicáveis de amor, pureza e justiça. A qualidade da música é secundária ao que vai no coração, embora não seja indispensável. O termo “agradável” é extremamente subjetivo e qualitativo e atrapalha mais do que ajuda. O que eu acho que é agradável, é entediante e monótono para outros, ou ofensivo a outras culturas. Acho que devemos fazer o nosso melhor, esse é o segredo. Os incrédulos serão impressionados se amarmos uns aos outros.

Sobre a dissonância citada acima por EGWhite, acho que temos que estudá-la mais a fundo. Quando ela disse: "Deus não Se agrada de algaravia e dissonância" ela não está (e não pode!) se referindo à dissonância como elemento musical. Não existe música sem dissonância, só existem graus de dissonância. É um princípio básico de composição que a música deve criar tensão e liberar essa tensão. A dissonância é o instrumento ideal para se criar tensão, juntamente com ritmo e dinâmica. Qualquer exemplo dos grandes clássicos vai mostrar isso.

Sendo assim, EGWhite só pode estar se referindo à dissonância como ruído, e não como música. Nesse caso, a citação acima deveria ler, traduzida:

“Deus não se agrada de bagunça e ruído.”

Lembre-se também que o contexto aqui é a adoração congregacional e não técnica musical.

Continuando: “O correto é sempre mais agradável a Ele que o errado.”

Sem dúvida, mas notem que essa é uma afirmação extremamente ampla que não nos permite criar as infames “tabelinhas” do que eu acho que é correto musicalmente e o que não é.

“E quanto mais perto o povo de Deus se puder aproximar do canto correto, harmonioso, tanto mais é Ele glorificado, a igreja beneficiada e os incrédulos favoravelmente impressionados."

Ok, só que isso não me dá necessariamente nenhum desdobramento do que é o canto correto. Seria a técnica vocal? Nesse caso, uns poucos estão oferecendo a Deus louvor “correto”. Qual seria o canto correto então? Aquele que não é “Ruidoso”, mantendo a consistência da citação.

“harmonioso” …

Existe muita música secular que é harmoniosa, e agora? Por outro lado existem muitos irmãos que não têm a minima idéia de que nota estão cantando num hino e o seu canto está longe de ser harmonioso.

Ainda bem que eu acredito que EGWhite foi sempre equilibrada, o problema está com as compilações.

Continuemos a tentar nosso melhor.
arsg disse…
Nossa! Quanta informação! E quanta dificuldade e compreender as estruturas musicais representadas aqui, pois tudo depende da minha leitura do que cada um de vcs escreveu. Todavia, quero tentar colocar algumas idéias aqui, concordando com algumas e discordando de outras que eu penso ter encontrado nestas respostas anteriores.
Primeiramente, não creio que música seja uma linguagem universal. Havia uma língua universal sim, mas desde a Torre de Babel e, por causa dela, a diferenciação dos povos se tornou mais clara através das diferentes línguas, criando manifestações étnicas mais distintas. Isso levou à quase extinção de semelhanças entre as mesmas, unidas somente por paradigmas muito genéricos e, mesmo assim, polêmicos. É possível, e a meu ver até provável considerando o gosto de Deus por tanta variedade sem aparente função a não ser servir ao Seu prazer e das Suas criaturas, que houvesse variações lingüísticas mesmo em um mundo sem pecado, mas definitivamente não teria sido da forma com que ocorreu em Babel, tanto em termos de processo como de resultado.
Penso que tenha sido semelhante com a música. Ela existia originalmente como uma (excelente) opção à disposição do ser humano para expressar louvor a Deus, como as demais artes e ciências. No entanto, com o pecado, ela também procurou existir para satisfação própria e, portanto, perdeu o rumo, como já havia perdido com Lúcifer. Futuramente, em Babel, ela se dividiu de vez, perdendo com muito mais velocidade características da época do Éden, da mesma forma que a língua e a diminuição da longevidade humana, entre outras coisas.
Afirmar hoje em dia que o hebraico está mais próximo da língua original da época pré-diluviana do que outras é tão ingênuo quanto afirmar que a música semita ou hebraica é a herdeira musical do Éden. Desta forma nos livramos da necessidade de defender a música do Antigo Testamento, que por sinal não era igual durante todo o período do mesmo e que com certeza também continha falhas. Como resultado não precisamos ver argumentos arrastados pelos cabelos para dizer que não existiam instrumentos de percussão, sendo que vários deles eram bastante barulhentos (pois existiam) e também não preciso fingir que não haviam movimentos corporais acompanhando a música litúrgica, algo que hoje nós chamamos de DANÇA. Toda essa informação pode ser bastante interessante do ponto de vista de um historiador da música e estudantes de música sacra (no sentido técnico), mas ela não nos afeta muito, pois a música daquela época não serve como padrão. Ela não era um modelo perfeito e estava inserida em outra época.
Por outro lado usar Arqueologia moderna para afirmar que os Israelitas se apropriaram da música dos Fenícios e a incorporaram não somente no dia-a-dia, mas também na liturgia pode ser um tiro no pé. Existe esta possibilidade e pessoalmente não teria problema algum com isso. É método da argumentação em si que me parece inapropriada, pois da mesma forma posso afirmar que na verdade a Mitologia Bíblica, tanto do Antigo como do Novo Testamento, foi emprestada das mitologias de vários países com os quais os Hebreus em diferentes épocas tiveram contato. Eu prefiro pensar que havia uma Realidade, hoje considerada metafísica que, no entanto, na época era bem palpável e visível. Acredito que esta foi sincretizada e deturpada em todas as culturas, mas pela intervenção do Espírito Santo foi re-estabelecida e corrigida em meio ao povo Hebreu e em todos que aceitaram esta Realidade, não porque este era culturalmente superior, mas porque ele se submeteu, apesar de inúmeras falhas, à influência divina para ser moldado. Sei que isto não é nem um pouco politicamente correto, mas creio que a manifestação desta Realidade Espiritual está contida na Palavra de Deus, a Bíblia. Racionalmente pode se constatar a realidade de semelhanças de crenças, costumes, arte e muitas outras coisas em culturas próximas em geografia e época, mas baseado em cronologia afirmar quem influenciou quem e em que área só é possível se tirarmos o componente espiritual, neste caso o Espírito Santo, da jogada. Para mim é mais do que óbvio que a influência é uma via de duas mãos e não necessariamente negativo do ponto de vista espiritual, mas a única forma de afirmar o que é segundo a vontade de Deus e o que não é o “assim diz o Senhor” explícito ou implícito e onde este não existir eu também me calo.
Com estas declarações quero dizer que não existe música que esteticamente agrade a Deus per se, pois nossa condição de pecado nos limita drasticamente. A música humana que agrada a Deus é simples de definir: ela a) O louva e exalta de coração (algo que só Ele pode avaliar) e b) auxilia na salvação do nosso próximo (que também não é fácil de avaliar). Se qualquer um destes dois princípios for ferido esta música não é da vontade Dele, independente de estilo.
Faço minhas as palavras de Paulo, que, a meu ver não entendia bulhufas de música, mas que era um grande classificador e foi usado pelo Espírito Santo quando ele dividiu Salmos (música santa) em duas categorias: hinos e cânticos espirituais (Cl 3:16; Ef 5:19). O primeiro se refere ao cântico feito em conjunto, o Louvor Congregacional, música com o intuito de louvar a Deus como Corpo, como Unidade e o último se referindo a canções que tratam de temas religiosos, de experiências com Deus, de afirmações de crenças com o objetivo de fortalecer o próximo. Vejo o maior dilema em nossas congregações e nas demais denominações também no QUANDO usar QUAL dos dois tipos e em que circunstâncias. Creio que conhecimento de causa, mas acima de tudo, comunhão com Deus e um espírito de humildade para aceitar circunstâncias contrárias a nossa sincera vontade fazem a grande diferença ao lidar com música cristã.
Acho que fica claro que discordo de B. B. Beach a não ser que estejamos falando da música que será feita na época pós-pecado no Céu a na Nova Terra e mesmo assim teria as minhas reservas.
Tenho também dificuldades em concordas com a forma com que você, caro xará, interpretou a palavra dissonância da nossa irmã Ellen, mas concordo que ela não pode ser entendida como uma expressão técnica que nós utilizamos no século XX ou XXI. Dissonante é algo que destoa, que é discordante, o oposto de consoante ou consonante. Se olharmos para o texto notamos que ela está falando sobre “cantar com o espírito e com o entendimento”, portanto está falando de fim ou propósito. Algo dissonante em relação a isso, dentro deste contexto, são coisas que destoam e discordam do objetivo principal que é “cantar com o espírito e com o entendimento”. Querer interpretar esta palavra ou outras subseqüentes em termos técnicos musicais é ignorar completamente o contexto. Não que ela não pudesse fazê-lo em termos gerais. Ela simplesmente não o fez neste texto.
Quero neste momento aproveitar para parabenizar ao Douglas por notar uma nítida evolução e construção de argumentos em seu texto. Falo isso sem o menor tom de superioridade, pois continuo tendo muitos pontos de divergência em termos de idéias e vejo poucos lugares que tenhamos em comum, mas não posso deixar passar batido que os seus pensamentos não ficaram estagnados e, portanto, a meu ver evoluíram em relação a outros textos seus que havia lido num passado mais remoto.
Para finalizar este meu comentário bastante longo quero compartilhar os meus pensamentos a respeito da música de adoração que no momento invade o meio religioso cristão pentecostal/reformado/carismático. Acredito que Deus usou João Alexandre fortemente expressando em forma musical de forma sintetizada o que também tenho sentido e visto na maioria das vezes que se utiliza esta forma de adoração na faixa título do seu álbum ‘É Proibido Pensar’. Fiz uma breve resenha do seu último álbum no meu multiply e também disponibilizei a faixa para ser escutada. Não sou da filosofia de que os fins justificam os meios em nenhuma área da vida, inclusive a da música. Pode ter aparência de algo como a Figueira, mas tem prazo de validade. Não sou Deus para julgar antes da hora e de fazer a diferença entre joio e trigo e não quero me meter à besta. Mas julgar uma música ou qualquer outra coisa como sendo legítima baseada em batismos e conversões me parece ser fora da minha alçada ou também de qualquer outra pessoa. A Bíblia claramente não define essas duas coisas maravilhosas (batismos e conversões) como sendo fruto e sim como conseqüência das qualidades descritas em Gl 5:22-23. Em Mt 24:13 Deus, através do Seu discípulo afirma que “quem perseverar até o fim, esse será salvo”. Portanto tento me isentar de qualificar uma música como tendo o selo de aprovação em função de resultados que muitas vezes infelizmente têm um prazo de validade. Sei que a decisão de deixar Cristo de lado futuramente não desqualifica necessariamente a música que tenha levado esta pessoa a aceitá-Lo, pois todos possuímos livre arbítrio, mas tão pouco ela é qualificada por ter levado-a a decisão.
Música Santa (hinos e cânticos espirituais) resulta em Gl 5:22-23.
Por enquanto é só e parabéns ao Joêzer por ter escrito um texto que nos levou a discutir algo tão significante.
Shalom
arsg

PS: Resenha do álbum do João Alexandre: http://andregoncalves.multiply.com/reviews/item/10
JSM disse…
um blog não pode ter outro objetivo a não ser o de apontar leituras e oferecer chaves para o diálogo.
um livro ou pelo menos um artigo de 5000 palavras podem aprofundar temas instigantes como os que levantamos aqui.
espero sinceramente que as pessoas que vierem a ler o meu artigo possam também embrenhar-se na caixa de comentários e que possam ter contato com idéias mais arejadas mas ainda baseadas tanto quanto possível na nossa palavra-guia, a Bíblia e os profetas do Senhor.

não acho que o assunto tenha se esgotado (longe disso, mas não sei se alguém passará incólume a 20 comentários), e vou preparar um novo artigo, sendo que a participação dos amigos terá muito a contribuir novamente para o esclarecimento de idéias próprias ou fundamentadas alhures.

abraços gerais,
joêzer
André R. disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
André R. disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
André R. disse…
André,

Só uma sugestão, quem sabe separar suas idéias por parágrafos ajudaria na leitura, é fácil perder o "mio da feada"...

Concordo plenamente com você na maioria dos pontos, principalmente quando diz que: "Com estas declarações quero dizer que não existe música que esteticamente agrade a Deus per se, pois nossa condição de pecado nos limita drasticamente."

A couple of things:

1. Mencionei arqueologia para mostrar que Israel não recebeu instrução divina sobre música escrita a fogo nas pedras, portanto, nós não precisamos nos descabelar para achar acordes e melodias puramente celífluas... Outrossim, a escassez de evidências musicais na Bíblia e fora dela requerem que usemos do poder da escolha informada e santificada pelo amor na adoração.

2. A distinção que você fez de "hinos e cânticos espirituais" no dizer de Paulo me pareceu arbitrária. Eis o texto no temido koinê:

λαλέω ἑαυτοῦ ψαλμός καί ὕμνος καί ᾠδή πνευματικός (Tischendorff)
(laleo eautou psalmos kai hymnos kai ode pneumatikos)

Me parece que ele apenas desdobrou (termo preferido de José Carlos Ramos) uma idéia única: hymnos e psalmos têm freqüentemente significado de "louvor" (Hb 2:12) e ode é canção, eulogia. Porém, o termo "espirituais" pneumatikos pode qualificar a psalmos, hymnos e ode ao mesmo tempo. Sendo assim, psalmos e hinos são cânticos espirituais e vice-versa.

3. Você parece ter discordado e ao mesmo concordado com minha "diatribe" sobre a dissonância então, continua meu amigo (rsrsrs)...

A citação a meu ver foi mal traduzida. Do inglês: "God is not pleased with jargon and discord." Jargon são palavras particulares a um grupo e também pode ser definida como palavras inintelígiveis e "discord" é muito mais ampla do que "dissonância" como entendemos musicalmente, por isso causa mais confusão do que ajuda. Discord pode também significar total falta de harmonia ou ordem na música e por isso fico com a minha tradução "ruído" que parece mais próxima à intenção original.

Finalmente, o fato de ela ter mencionado elementos "sonoros" no mesmo fôlego, não me permite dissociar os significados: "discord" se refere a elementos sonoros (não musicais per se), e não a elementos intangíveis do louvor que seriam "espírito e entendimento."

4. Eu li seu blog sobre o João Alexandre e escutei a música no YouTube. Gostei.

5. Finalizo com sua frase: " Não sou Deus para julgar antes da hora e de fazer a diferença entre joio e trigo e não quero me meter à besta.

Faria bem pararmos de controlar a Deus e começar a ser controlados por Ele.

Abraço
André R.
Www.igrejaadventista.com
Jayme disse…
Joêzer,

Ao considerar a utilização dos elementos da MPB (e de inúmeras outras correntes musicais) na música adventista contemporânea, acredito que você vai achar instrutiva a audição do recém-lançado álbum "Novo Tom Ao Vivo", reunião de inspiradas releituras das composições de Lineu Soares (a maioria em parceria com Valdecir Lima) (em breve em DVD), pois pinceladas de forró, choro, bossa nova e iê-iê-iê tingem alguns dos (na minha opinião, fabulosos)arranjos executados com perícia ímpar pela trupe reunida e liderada por Lineu Soares. Acrescento que tais elementos têm despertado polêmicas.

Obs.: Sobre os arranjos vocais, Leonardo Gonçalves escreveu em seu blog (www.leonardogoncalves7.blogspot.com): "nunca vi um trabalho vocal como este, pra quem gosta de harmonias inesperadas (ah! -se na minha época de novo tom o lineu estivesse escrevendo arranjos assim! não que ele não pudesse, mas esperou eu sair, né!!!?)."
Jayme disse…
Se não teve acesso ao CD, você pode escutar as músicas no site do grupo (www.novotom.com.br).

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta