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Lições olímpicas


Terminadas as escaramuças esportivas, é hora de fechar a conta, passar a régua e descobrir se algum saldo nos resta no anticlímax do encerramento das festividades olímpicas. Aí vão algumas conclusões apressadas desse web-escriba cujo sono, sempre mais intenso que o brio patriótico, se não permitiu que assistisse as raras conquistas douradas também evitou a contemplação dos tantos fiascos.

Medalha de ouro em bronze: o amigo que mumificou-se frente à TV durantes as madrugadas ainda com problemas para ajustar o fuso horário: 8 horas de sono. A amiga que estragou a franja descabelando-se pelo Brasil: 3 horas de salão. Ver a máquina brasileira de chegar em terceiro lugar: não tem preço. Noves fora as brincadeiras, ficamos na frente da Argentina e da Suíça no quadro de medalhas. E atrás de Jamaica, Romênia e Etiópia. Ficar em 23º lugar no ranking olímpico não é nenhuma vergonha. Ruim é ser o 70º no ranking de Desenvolvimento Humano.
A questão é que esses três últimos países investem no que tem de melhor, não importa se é em velocidade ou ginástica. Todas as suas medalhas são em uma ou duas modalidades. O Brasil, que caiu na conversa de Duque Estrada de que é um gigante pela própria natureza, investe um pouco em tudo e acaba chorando o quase e o nada. Agora é fazer pressão para que o Comitê Olímpico admita novos esportes, como: corrida contra o salário, tiro a esmo, revezamento de banqueiro preso, saque de merenda escolar e o tradicional cancelamento de celular.

Medalha de ouro não cai do ‘cielo’: o ouro-medalhista César Cielo venceu Michael Phelps na única prova que o americano não disputou. Ufa! Mesmo sem o apoio dos Correios, que não quis investir em um atleta que fosse treinar fora do Brasil, valeu ter ido morar nos Estados Unidos, onde foi o melhor nadador universitário. Treinos duríssimos, vida monástica, determinação e grande talento é o conjunto de forças fizeram o campeão. O investimento no esporte ainda é pífio aqui na Terra de Vera Cruz. Séculos de rapina dos cofres públicos, intolerância à punição e mais a horda de degradados que iniciou a exploração do terreno não poderiam fazer dos tupiniquins uma legião vencedora. Viramos uma monocultura futebolística que tardiamente percebeu que, nessa terra, em se patrocinando todo esporte dá. Não acho que a escola tenha que se tornar um centro de formação de atletas. Mal conseguimos formar o pacato cidadão, imagine uma fornada de Isinbayevas e Phelps.
E o apoio quase sempre chega depois. Lembremos de Joaquim Cruz, ouro nos 800 metros em Los Angeles-84, a quem quiseram dar uma casa pela sua performance de ouro: “Não, obrigado. Já tenho uma casa. Quando eu precisava, não me deram”.

As musas do Galvão: de vovó Olga à Dona Terezinha, Galvão Bueno deixava o atleta de lado e torcia pelos parentes do atleta. O homem que solicitava ao torcedor pensamento positivo e força mental via satélite para nossa delegação na China estava num frenesi contagiante. Também, passar duas semanas ouvindo os trocadilhos do Régis Roesing e as crônicas do Pedro Bial deixa qualquer um gritando “vovó Olga, vovó Olga” em vez de “Céééésar Cielo do Brasil”.

Dunga e os onze anões: a festa abriu-se como num conto de fadas. Cantores de mentirinha e promessas de ouro, muito ouro para a China. Mas o sonho de conquistar a medalha de ouro no futebol olímpico para o Brasil fica adiada outra vez. Em pesquisa realizada por estas plagas, 101% dos torcedores responderam afirmativamente a única alternativa do questionário: “Dunga não é técnico nem aqui nem na China”.

Emagrecer é preciso. Ganhar também: enquanto vimos a extraordinária Yelena Isinbayeva batendo recordes ao encolher a barriga para superar o sarrafo no dificílimo salto com vara, Ronaldinho Gaúcho correu contra a balança para estar em forma em Pequim, mas não levou o ouro no futebol masculino. Assim, perde-se uma chance de grande valor pedagógico para Ronaldo Fenômeno, que a essa altura já deve estar pensando se vale a pena tanto esforço para voltar a jogar.

O Brasil olímpico é uma mulher: como no Pan do Rio-2007 (leia meu comentário aqui), o Brasil olímpico foi das mulheres. Desde as inconsoláveis Jade Barbosa, a menina capaz e triste, e Fabiana Murer (Tutty Vasques, do Estadão, aposta que o mesmo ensandecido que empurrou o maratonista Vanderlei Cordeiro da Silva em Sydney-04 foi quem escondeu a vara de nossa saltadora); passando por Marta, Cristiane e Formiga do futebol, as meninas do vôlei, Natalia Falavigna, Keitlyn Quadros e Maurren Maggi. Mulheres que desafiam a gravidade, a distância, a maternidade, a tripla jornada de mulher, mãe e atleta de alto nível.

Medalha de choro olímpico: nosso primeiro choro foi o do ex-favorito João Derly, o judoca que trapaceou no amor e recebeu seu castigo no tatame pelas mãos do ex-amigo ferido e trapaceado (e que ambos negaram após os jornais portugueses publicarem o caso). Servirá o esporte para vingança em legítima defesa da honra? Mas, veja só que o campeoníssimo Michael Phelps e o sobrenatural Usain Bolt não choram. Até porque não perdem. Tudo bem que nem todos são como Daiane dos Santos, para quem a tênue fronteira entre o triunfo e o fracasso não vale uma crise de choro. Mas para a Globo, não é suficiente ver nossos atletas ganharem ou perderem uma disputa. Nessa hora, sai a precisão de repórteres como Sônia Bridi e Marcos Uchôa e entra a mistura de novela com jornalismo. É preciso mostrar a família enternecida, é preciso perguntar pelo passado do atleta, fazê-lo lembrar-se de que deixou os amados em terras distantes para lutar por um povo sofrido cujo único orgulho são seus locutores e atletas. Se não chorar, não vale ouro.

A quem chegou em Pequim e viu seus sonhos desmoronarem em quedas e tropeços, é lembrar que não existe nada como uma Olimpíada depois da outra. Aqui e agora, uma frase como essa não tem a menor serventia. Mas quem sabe num pódio daqui a quatro anos, ou em uma outra competição, veremos esse atleta naquele ato tão contraditoriamente belo: chorar de alegria.

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