19 agosto, 2008

EUA e China: assim caminham os impérios

No melhor estilo China, o espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim foi um primor de criatividade e excelência artística. No pior estilo China, o mesmo espetáculo mostrou seu lado fajuto de imitação e seleção ariana. Os fogos de artifício que pareciam pegadas no ar eram imagens pré-gravadas; as 56 crianças que representavam as 56 etnias que habitam no país na verdade eram todas de uma etnia apenas – ou seja, a democracia racial chinesa era fajuta até na ficção do espetáculo.

Mas nada se compara ao uso de uma cantora falsa naquela abertura. E não estou falando de Sarah Brightman, por favor. Mas, convenhamos, seria bem pior se ela cantasse balançando no trapézio como nos seus shows. Mas voltemos ao espetáculo made in China. A voz que cantou a música “Ode à Pátria” durante a cerimônia de abertura não era de Lin Miaoke (à direita na foto), de nove anos. A garotinha estava apenas dublando. “Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação”, disse o diretor musical Chen Qijang.

A voz original pertence a Yang Peiyi (à esquerda), uma menina gordinha, de sete anos e com os dentes fora do lugar, e claro que ninguém se importou com a frustração da criança. “Era uma questão de interesse nacional. A criança tinha de ser expressiva”, justificou Chen. Vemos, assim, que a frase de Samuel Johnson é de aplicação universal: “O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas”. Na adaptação de Millôr, é o primeiro.

Mas, calma aí. Andam acusando a China de converter o mundo numa Grande Calçada da 25 de Março quando muito brasileiro não se segura quando vê uma promoção de dvds a 1 real no camelódromo mais próximo, não resiste a um Stand Center (se você não conhece, o Stand Center é uma espécie de Zona Franca da China no coração da Avenida Paulista).

Reclama-se da falsidade dos brinquedos chineses, mas poucos alimentos são mais fajutos do que um BigBob ou Big Mac com Coca-Cola, e resistir quem há de?

Os espetáculos chineses são fajutos? O que dizer, então, da falsidade dos reality shows americanos? E o que são as cópias brasileiras de musicais de Andrew Lloyd Webber, o papa do american brega? E a dupla Milli Vanilli, que teve que devolver os prêmios que recebeu porque eram dublês de cantores? E a fajutice ridícula de rappers e roqueiros que denunciam o consumismo e o preconceito vestidos com bermudão de marca e mostrando a indefectível cueca de marca?

O Ocidente civilizado e democrático denuncia a política chinesa de direitos humanos? Mas, e a terra sem lei de Guantánamo? E as expulsões de estrangeiros na Europa? E o assassinato de crianças dentro de carros por policiais cariocas? Como no Oriente, no Ocidente costuma-se usar a defesa do bem coletivo para casos de 'segurança nacional'. Quando você ouvir falar em assuntos de segurança nacional pode apostar que sangue, inocente ou não, já está sendo derramado.

A China suprime sites de oposição ao governo e também reprime a violência pornográfica de games? Mas o que são os políticos ocidentais que desviam verbas destinadas à escolas e tramam projetos auto-beneficiários senão cruéis atores de ladroagem pornográfica.

Critica-se o uso demagógico do confucionismo na China. E o que é o uso demagógico do marxismo pelos partidos de esquerda no Ocidente? E o abuso demagógico e marketeiro do cristianismo pelo carismatismo católico e pelos políticos neopentecostais?

A China resolveu deixar de ser colônia e agora quer ser império. Os impérios são assim: escravocratas, exploradores e ufanistas. Assim como a China moderna remove florestas e montanhas para fazer avançar seu projeto econômico-industrial, assim foram Roma na antigüidade, Portugal e Espanha na América, Holanda e Inglaterra na África. E amanhã, a supremacia chinesa vai fazer a gente sentir falta do tempo em que estávamos à sombra de Tio Sam? Qual será o menos pior? O império repressor do dragão chinês ou o império do lobo fundamentalista norte-americano que finge ser um cordeiro liberal?

Aguardem.

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